Pessoa-coisa, cidade-torre

Assista o mini-doc aqui: https://vimeo.com/157523397

Texto de Paula Sacchetta e Pedrão Nogueira

Vídeo com imagens e edição de Peu Robles

Todo final de semana, em São Paulo, trabalhadores e trabalhadoras se deslocam de suas moradias ou da falta delas, seja nas periferias, albergues e ocupações de onde vivem e desembarcam nas áreas ricas da cidade. Uma vez no novo local, são transformados em placas e setas que apontam para os novíssimos empreendimentos imobiliários da cidade. O que esses plaqueiros nos revelam sobre o país e a cidade que temos? Quem são, de onde vem, quanto ganham, como trabalham? O que anunciam com seus corpos de estandarte? Para quem? O que isso nos diz sobre a cidade tornada torre?

O caminhar da pessoa-placa da periferia até a emergência dos novos bairros, empreendimentos, gentrificações, expulsões, loteamentos. Da precarização à especulação imobiliária. Quem são os personagens, ruínas e destroços desse processo da cidade-velha-mas-nem-tanto que se destrói para se “revitalizar”, “humanizar”, “colorir”, “ficar sustentável”, “conectada” e “moderna? Qual o cemitério material e humano sob o qual prédios espelhados, condomínios-fortalezas e colunas dóricas se erguem?

Na zona oeste, as setas apontam para a antiga Barra Funda, último espaço de expansão urbana do centro expandido, agora batizada de Jardim das Perdizes. Condomínios fechados que sobem em terrenos que poderiam se tornar moradias populares para as mesmas pessoas que são empurradas para trás de cartazes e para longe do centro, o seu local de trabalho. Quem são os comandantes e comandados desse processo? Quem está ganhando e quem está perdendo? O que as cores de um alardeado novo tempo escondem?

David Harvey, geógrafo britânico, defende que a “urbanização vem desempenhando um papel fundamental no reinvestimento dos lucros, a uma escala geográfica crescente, mas ao preço de criar fortes processos de destruição criativa que espoliaram as massas de qualquer direito à cidade. O planeta como canteiro de obras se choca com o ‘planeta das favelas’. Periodicamente isso termina em revolta”. Para ele, o controle deste processo — e da produção excedente necessária para o surgimento das cidades — sempre esteve nas mãos de poucos. Ao mesmo tempo em que o capital precisa sempre de territórios férteis para sua expansão — em sentido literal e metafórico — populações navegam sob as marés de interesses pouco claros, tendo em jogo a necessária criação de seu ambiente de habitação e convivência.

A emergência do direito à cidade surge neste contexto, ao nos darmos conta de que a cidade é o espaço que temos para viver e transformar. Harvey, citando o sociólogo e urbanista Robert Park, propõe uma reflexão importante sobre o quanto do ritmo de urbanização dos últimos anos contribuíram para nosso bem-estar. Para Park, a cidade é a “tentativa mais bem-sucedida do homem de refazer o mundo em que vive mais de acordo com os desejos do seu coração. Mas, se a cidade é o mundo que o homem criou, é também o mundo onde ele está condenado a viver daqui por diante. Assim, indiretamente, e sem ter nenhuma noção clara da natureza da sua tarefa, ao fazer a cidade o homem refez a si mesmo”.

A pergunta essencial que nos fizemos ao longo deste trabalho foi: quem está refazendo a cidade e como está fazendo isso? Às custas de quem?

Um dia de trabalho

No Paço Municipal de São Bernardo, o grupo espera para entrar em suas vans. Ninguém tem a clareza exato do trabalho que os aguarda neste sábado e domingo, mas mulheres cansadas, alguns homens, muitos idosos e idosas e jovens com tênis coloridos e olhos sempre atentos ao celular, se alternam entre o silêncio e a conversa, aguardam a hora de subir às vans para ir para alguma área central da capital paulista.

No gramado, placas, panfletos e bandeiras estão espalhados e organizados. As pessoas, que em breve serão placas ou panfletos, indagam aos seus superiores qual será sua função no dia. Os “delegados”, quando respondem, respondem rispidamente. “Calma, já te falo”, “Que que é esse tênis? Eu não falei que era pra usar tênis preto?”.

Descubro que a van que vai nos levar é de “porta a porta” — distribuição de panfleto na porta de residências — para revolta da senhora que ia do lado. “Não posso, minha perna tá ruim, é muito sofrimento”.

“Chegando lá, você vê isso”, diz o chamado “delegado”, responsável por coordenar a equipe de plaqueiros. No ônibus sonolento, Cláudia coloca no rádio de pilhas um hino gospel. E canta junto que “Deus é o senhor”. A cantoria só é interrompida quando cruzamos duas viaturas de polícia na Av. 23 de Maio, e a mesma voz, grita: “Vai, seus verme!” e retorna ao Gospel. Ainda não são oito da manhã quando as vans estacionam no viaduto Major Quedinho.

Os motoristas das vans também atuam na coordenação das equipes. Acima, deles, os Delegados. Acima de todos, os Fiscais, que têm poder de dar multas caso entendam que os plaqueiros desrespeitaram alguma norma do trabalho. A prática das multas, amplamente temida e observada, pode ser considerada ilegal, segundo procuradora do Ministério do Trabalho, em reportagem do Estado de S. Paulo.

Cidade limpa

Em 6 de dezembro de 2006, o então prefeito Gilberto Kassab aprovou a Lei Municipal n.14.223, que proíbe a colocação de anúncio publicitário nos imóveis públicos e privados, edificados ou não bem como a propaganda em outdoors. Conhecida como “Lei Cidade Limpa”, a medida, à época, fez com que as fachadas da cidade se tornassem menos visualmente poluídas, já que também regula o tamanho de letreiros e placas de estabelecimentos comerciais. No entanto, teve um efeito colateral: os anúncios imobiliários desceram dos postes e passaram a ser empunhados por seres humanos.

Apesar de a Lei Cidade Limpa confinar a publicidade imobiliária aos seus lotes, as esquinas da capital paulista começaram a ser habitadas, sempre aos finais de semana e feriados, por homens e mulheres placas, fazendo papel de estandartes para os anúncios dos novos prédios que são erguidos na cidade. Nos períodos eleitorais, também são amplamente usados, substituindo os cavaletes políticos. Uma decisão da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana, de 2012, vetou, sem qualquer efeito prático, este tipo trabalho.

Foto: Nair Benedicto/Facebook.

Os homens e mulheres placas, no entanto, não são personagens inéditos nas ruas de São Paulo: há muitos anos é possível encontrar pelo centro da cidade anúncios humanos de “Compro/Vendo Ouro”, também conhecidos como “homens-sanduíche” e há registros desse tipo de propaganda que datam de 1918. O fenômeno tampouco é circunscrito à esta cidade — o filme “Cães Errantes”, de Tsai Liang, traz um retrato lento e doloroso deste tipo de trabalho em Taipei, capital de Taiwan.

Mas o ritmo acelerado com que isso se dá em São Paulo nos últimos anos, somado às particularidades perversas de uma cidade como a nossa — cindida, desigual e racista — traz à tonas questões que resolvemos investigar nesta reportagem. Afinal, qual a pertinência de transformar pessoas desabitadas do grandes centro, que se apinham nas franjas da metrópole ou em albergues no centro, em anunciantes estáticos dos novos empreendimentos imobiliários? Além de entrevistarmos as pessoas que fazem esse trabalho durante quase dois anos, nossa equipe distribuiu panfletos durante um sábado.

Reforço no aluguel

Caminhando pelas ruas e conversando com os homens e mulheres placas, fazíamos uma pergunta fundamental: onde e como você vive? Afinal, um estudo da Fundação Pinheiro de 2014 afirma que apenas em São Paulo, entre 2011 e 2012, houve um crescimento de 18,2% do déficit habitacional na capital, calculado pelo número total de casas compartilhadas por mais de uma família, residências com mais de três moradores por cômodos e peso do aluguel no orçamento familiar. Cerca de 700 mil famílias vivem hoje em residências consideradas inadequadas em São Paulo.

A resposta destes trabalhadores era quase sempre: alugo um quartinho em Guaianazes, moro numa pensão em Mauá, vivo num albergue aqui no centro, moro na casa dos meus pais que alugam uma casinha na periferia de São Bernardo, tenho um barraco perto da Billings, moro com meu tio em Ferraz de Vasconcelos.

Segundo Guilherme Boulos, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, em entrevista ao Pessoa-coisa, Cidade-torre, o aumento do aluguel que São Paulo experimentou nos últimos intensificou o movimento de famílias rumo à regiões cada vez mais distantes do centro, aumentando o tempo de deslocamento e diminuindo a oferta de serviços públicos.

O trabalho como plaqueiro então, muitas vezes, funciona como um meio de ajudar a viabilizar o aluguel e pagar as contas. Numa esquina da zona sul paulistana, encontramos Mike ao lado de um garoto que, com menos de 18 anos, não quis conversar conosco e mudou de esquina.

Segundo o artigo 60, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), jovens entre 14 e 16 anos podem trabalhar apenas sob a condição de aprendiz, sendo supervisionados e como caráter de formação técnico-profissional. A convenção 182 da OIT “define o trabalho em logradouros públicos como um dos mais prejudiciais ao desenvolvimento psicossocial de crianças e adolescentes”.

Com 28 anos, Mike trabalha com reciclagem, ou seja, cata lata e outros materiais. O trabalho aos finais de semana “ajuda bastante”, confirma. São 35,00 reais por dia com direito ao lanche. Ele mora com a esposa em Diadema, caminha uma hora até um Poupatempo no Jardim Miriam, de onde é levado até o ponto onde passará seu sábado como anúncio.

Toda sexta-feira, ele liga para a Triefe, uma das empresas que realiza o serviço de “marketing e promoção”, para deixar o nome para o final de semana. “Já fiz panfleto, placa, de tudo. Não pode é ficar parado, pouco ou bastante, você tá ganhando. O ruim é que não pode conversar, nem fumar, o fiscal passa o dia inteiro, tira foto da gente. Mas eu queria mesmo era trabalhar sentado”.

Foto: César Fernandes

No viaduto

O viaduto Major Quedinho, construído nos anos 1930, é um local de passagem pacato no centro de São Paulo. Ligando o Bexiga à República e atravessando a Av. Nove de Julho, ele abriga alguns prédios velhos e um novo em construção. As cinco vans são estacionadas em frente ao prédio que está sendo erguido.

Ficamos algum tempo ali parados e ganhamos um sanduíche de presunto e as roupas que teremos que usar ao longo do dia. Começamos a ser divididos em grupos enquanto vestimos o boné e a camiseta da Setin Downtown. Depois de cerca de 20 minutos de espera, uma fiscal se aproxima de nós, firme, convicta e brincalhona e começa a mostrar um mapa com os lugares a serem atingidos pela panfletagem. Somos divididos em dois grupos de dez pessoas, enquanto do outro lado do Viaduto Major Quedinho os mais idosos vão recebendo suas “setas”.

Converso com um homem, Márcio, já com seus 40 anos, quatro filhos, desempregado, pedreiro, chapeiro, garçom. “Dia inteiro vamos ficar de andando, né?” . “É”, ele responde. “Placa é melhor, não?”, indago. “Não. Parado, o tempo não anda”.

A impressão de Márcio encontra par em muitas das placas humanas que habitam, aos finais de semana, o centro de São Paulo. A perspectiva de andar, para quem tem pernas em boas condições, vence o tédio de esperar o dia parado. Além disso, os mais jovens aproveitam o dia para zanzar por zonas da cidade que se não são de acesso proibido, são de acesso proibitivo. Márcio estaria acompanhado de seu filho de 18 anos, mas ele esqueceu o RG, uma exigência para realizar o trabalho de “anúncio”, e não pôde trabalhar.

Quem são os homens e mulheres placa

Os trabalhadores não são registrados. Pelo que a reportagem apurou, a grande maioria ganha entre 35,00 e 40,00 reais por dia, mas o valor pode chegar até 150,00 reais em ocasiões específicas. O trabalho só acontece aos fins-de-semana e feriados, quando os futuros proprietários saem de carro calmamente à procura de placas de vende-se ou setas. Para garantir o trabalho nos dois dias sem a desistência do trabalhador no domingo depois de ter passado o sábado todo em pé, geralmente eles são pagos pelos dois dias apenas ao final do segundo.

A escolha dos plaqueiros e dos panfleteiros responde muitas vezes ao porte do empreendimento, à zona da cidade e ao público que se visa atingir. No centro, trabalhadores e trabalhadoras da periferia e albergados são escolhidos, enquanto em bairros nobres e em zonas de franca expansão — como o Jardim das Perdizes — é possível encontrar mulheres bem arrumadas que ganham até 5 vezes mais que o plaqueiro padrão (até 150,00 reais por dia trabalhado).

Os moradores de albergue ganham 10,00 reais a menos que os outros trabalhadores, relatou um plaqueiro que qualificou suas oportunidades de trabalho ao longo da vida como uma “escravidão”. A “taxa” de dez reais, muitas vezes fica com o motorista da van que agencia os trabalhos, reclamou.

O perfil de quem trabalha com a seta varia muito. Podem ser idosos e idosas já aposentados que complementam a renda mensal da família, podem ser jovens e adultos desempregados há anos que não encontram outro tipo de trabalho e funcionários terceirizados de empresas de faxina, por exemplo, que trabalham de segunda a sexta e precisam desse dinheiro extra que fazem aos finais-de-semana.

Também encontramos catadores de materiais recicláveis, moradores de albergues ou até jovens que moram com os pais e querem juntar um dinheiro extra para o cinema do fim-de-semana, o tênis da moda ou um novo modelo de celular. Um de nossos entrevistados, disse preferir trabalhar no centro do que ficar trancado em casa na periferia, onde, segundo ele, não tem nada para fazer e “porque tenho medo da polícia me pegar na rua”, explicou.

Um plaqueiro, unido à outro por uma camisa dupla, um dos dispositivos mais novos desse tipo de marketing, veio conversar conosco em inglês. Vindo de Kuala Lumpur, na Malásia, cidade que por muito tempo ostentou as maiores torres do mundo, as Petronas Towers, contou que mora em um albergue enquanto não consegue voltar para seu país. Ele está há mais de um ano no Brasil, mas não conseguiu emprego e tenta voltar, ainda sem sucesso. Enquanto isso, arranja-se entre bicos temporários.

Alguns empreendimentos dão um lanche que se resume a um suco de caixinha e um sanduíche do tamanho de uma bisnaguinha, e outros, nem isso. O trabalho em si vai das 9h às 17h, com uma hora de almoço e descanso, mas eles têm que estar no local para serem “distribuídos” de van pela cidade às 7h e geralmente gastam no deslocamento de casa até esse ponto de encontro pelo menos duas horas. Dinheiro para a condução? Nem pensar. Alguns tomam até dois ônibus e metrô para chegar ao centro.

Os mais velhos agora ganharam cadeira para ficarem sentados com suas setas, mas isso não funcionava assim até poucos meses atrás. Foi uma conquista, dizem. Guarda-sol também é novidade e só aparece em dias de calor de rachar. Multas podem ser aplicadas por diversos motivos, como passar alguns minutos do horário de almoço, dobrar a seta ou não ficar na posição adequada durante o trabalho e podem chegar até a 20,00 reais. Para ir ao banheiro, dependem da boa vontade de donos de estabelecimentos da região. Às vezes nem os corretores deixam que usem o banheiro do show-room do empreendimento.

São 35,00 reais “seco’’, como disse Tiago Oliveira. Se quiserem comer ou beber algo, têm que trazer. Morador de Itaquera, só topa o sacrifício porque vem com a mulher que fica na esquina seguinte. Os 140,00 reais do fim de semana dos dois ajudam na conta da luz do fim do mês.

“35,00 é muito pouco. Se fosse pelo menos 50,00… vê quanto custa um apartamento desses…’’, diz, acrescentando que não reclama do “serviço”. Sobre o banquinho, reafirma a conquista: “Antes nem isso. Parece que saiu uma reportagem no Fantástico e aí deram onde a gente se sentar”.

“Se sumir a placa, tem que pagar. Custa 20,00 reais. Por isso levamos até para o banheiro. Se perder alguma parte do uniforme, paga também. Quando você reclama, a multa é de 10,00 reais… Acredita? Uma vez um fiscal disfarçado veio até aqui e começou a me perguntar sobre o trabalho. Eu, com a minha boca grande, falei um monte. Falei que não gosto, que é humilhante, que paga pouco. E me descontaram 10,00 reais do fim de semana!”, conta Tiago. Ele afirma também que já perdeu outros 20,00 reais quando passou dez minutos da hora do almoço.

Andando pela Avenida Santo Amaro, somos abordados por Leandro, que trabalha como placa. Ele pede um real e começamos a conversar. Ele está fazendo anúncio para um “shopping de imóveis” na região. Trabalha das 7h às 17h30. São 15h e ele comeu durante todo o dia apenas um sanduíche de mortadela com margarina. Ele conta que chegou até ali na parte de trás de uma Doblô sem banco, amontoado com mais dez pessoas, sentado no chão. Ele estuda logística e trabalha como estoquista num shopping de São Bernardo do Campo. Faz inglês e quer usar este dinheiro para comprar um smartphone e, quem sabe, um carro.

Ele trabalha de domingo à domingo e faz seu curso de manhã. Sonha em pagar uma faculdade. Diz que ficar o dia inteiro em pé dói. Sua mãe é empregada doméstica e vive num “barraco próprio”. A família é de Iguaí, na Bahia. “Peço força à Deus, saúde, não quero perder, não roubo. De onde eu venho, trabalhar é um caminho”, diz Leandro, que diz gostar da chuva, porque “quando chove não tem que trabalhar”.

Promoters

Muitos dos e das entrevistadas do projeto, disseram considerar este trabalho uma “moleza” perto da jornada excruciante a que eram submetidos durante a semana. Entre os mais jovens, abundavam discursos de “melhor estar trabalhando do que estar em casa fazendo nada”. Outros tantos, afirmam que gostam do trabalho. Que é melhor do que ficar parado. Para descolar um trocado na metrópole, qualquer coisa vale.

Luciana Shinoda, mestranda da FGV e autora da pesquisa “Homens-placa: comoditização dos trabalhadores invisíveis” conta que quando ela e sua orientadora Inês Pereira começaram seu estudo, perguntavam se eles se sentiam invisibilizados. “O que descobrimos foi que os homens e mulheres placa não se mostraram nem um pouco preocupados com isso, o que interessa é que ao final do dia, elas são remuneradas pelo trabalho e essa remuneração é muito bem vinda”, afirma. Outros também dizem que vão, com este trabalho, a lugares da cidade que jamais iriam.

Segundo elas, inclusive, muitos acreditam na importância do trabalho, afirmam que estão “ajudando a vender apartamentos” ou que são “promoters” dos empreendimentos. No trecho abaixo do conto “A Placa”, do professor de história Rodrigo Ciríaco, ele ilustra bem o sentimento com que as duas se depararam ao longo da pesquisa e nós, durante a apuração da reportagem:

“A minha aluna virou uma Placa. Há três meses ela deixou de vir à escola por isso: virou uma Placa. E não uma placa qualquer, de trânsito, que ninguém respeita. Ela virou uma Placa publicitária. Agora tem uniforme, endereço e identidade. Não fica mais à margem. Fica na porta dos shoppings, concessionárias e futuros edifícios, se autopromovendo: A Placa. Com pernas. A minha aluna virou uma Placa. Ela diz sentir muito orgulho da empresa em que trabalha. Construtora. Grande. Bem conceituada. Vende casas de alto padrão, para pessoas de bem, alto poder aquisitivo. Luxo. Seus condomínios têm quadra de tênis, piscinas, bancos; centro de compras particular, segurança e conforto”.

O X da questão

Objetivamente, o trabalho dos homens-placa é um trabalho precarizado. Carece de proteção legal, não há a mais remota sombra de uma carteira assinada e não é fiscalizado, regulamentado ou regido por qualquer tipo de lei trabalhista que os proteja. A única lei que recai sobre eles, no caso, é a Lei Cidade Limpa, já citada, que protege a cidade, mas não seus cidadãos-trabalhadores.

Para Guilherme Boulos, é a partir dessa lógica que surge esse tipo de trabalho: “Quando São Paulo se torna um pólo econômico, surge a necessidade de reestruturar a cidade numa lógica da segregação, da expulsão. Essa é a lógica do setor imobiliário desde sempre, aqui e lá fora”.

Quando essa “nova cidade” começa a nascer, essa “limpa”, sem outdoors, com condomínios, prédios “sustentáveis”, onde ricos vivem em “bunkers Prime, Van Gogh e Personnalité”, como diz Ciríaco, embaralhando bancos e empreendimentos imobiliários, ou “diferenciados” e “modernos”, quem morava no centro em cortiços ou em moradias operárias é expulso para a periferia. Para Boulos, a periferia é criada com duplo intuito: um higienista, reacionário das novas classes médias e dos grandes industrias de afastar o pobre da sua convivência, tirar de perto, e também no segundo intuito de valorizar a terra.

Ricardo Antunes, sociólogo e professor da UNICAMP, considera que esse novo proletariado, esse novo contingente de trabalhadores e trabalhadores que é criado realiza os trabalhos “mais precarizados, os mais bárbaros”. O professor especializado em relações de trabalho, explica: “um traço muito importante hoje é que a informalidade de 25 anos atrás era relativamente marginal embora necessária à lógica de acumulação. Nós tínhamos um setor formal, majoritário, que convivia com setores da informalidade minoritários. Hoje isso se inverteu: nós caminhamos para o mundo, para uma lógica destrutiva de acumulação onde a informalidade tende a ser o dominante, e o formal, o trabalho estável, com direitos, taylorista e fordista, aquilo que o Chaplin caricaturou espetacularmente no filme tempos modernos, aquele trabalhador e aquele trabalho e aquela trabalhadora com direitos tende a ser residual. Uma espécie de subproletário do submundo urbano”, diz.

Ou como explica o geógrafo David Harvey, no Prefácio de “Rebel Cities: From the Right to the City to the Urban Revolution”:

“Em grande parte do mundo capitalista avançado as fábricas ou desapareceram ou foram reduzidas para dizimar a classe trabalhadora clássica. O importante e sempre crescente trabalho de manter e sustentar a vida urbana tradicional está sendo cumprido cada vez mais por trabalho inseguro, muitas vezes de meio expediente, mal pago e desorganizado. O chamado “precariado” deslocou o “proletariado” tradicional”.

Tal deslocamento na organização das forças produtivas teve impactos no desenho das grandes cidades, que como provoca Ricardo Antunes, são “a expressão arquitetônica da luta de classes”. Se antes, o meio urbano se confundia com o industrial, agora os locais de trabalho fabril estão cada vez mais distantes dos centros das grandes metrópoles.

Esse deslocamento significa que as zonas industriais dos países de “primeiro mundo” foram sendo “abandonadas” durante a globalização, com a transferência das fábricas para países com mão de obra mais barata. Todos os bairros operários que se erguiam às margens das indústrias de repente se viram sem sua principal fonte de trabalho. Em São Paulo, por exemplo, as fábricas foram movidas dos bairros centrais para as periferias, cidades da Grande São Paulo e outros polos. Não à toa, lugares como o Bom Retiro, Lapa, Vila Leopoldina e as adjacências da Marquês de São Vicente, estão se tornando espaços privilegiados para construção de novos empreendimentos.

Gentrificação: A palavra vem do inglês “gentry”, derivado de “gentleman”, ou seja, cavalheiro. Gentrification, então, é o processo de câmbio populacional de uma área, digamos, operária, para um bairro “nobre”. Em voga na discussão das cidades, ela descreve o processo em que áreas degradadas — por descaso proposital ou acidental — vão sendo ocupadas por cultura, jovens artistas de classe média. Os novos moradores mudam o perfil do comércio e ocasionam um aumento do aluguel que expulsa “indiretamente” os mais pobres. Estes novos moradores, no entanto, eventualmente darão espaço para classes mais abastadas. O processo pelo qual a Vila Madalena, na zona oeste passou, é exemplar neste sentido. Para ler mais, acesse o blog do Arquitetura da Gentrificação.

Muitas dessas zonas em todo o mundo, como observamos, estão em áreas centrais. A população pauperizada tem dificuldades em se manter e migra atrás de novas fontes de renda. Quando vence o contrato de aluguel, não resta mais que a ordem de despejo. Dos espaços vazios, surgem boas oportunidades para jovens artistas, coletivos, profissionais liberais, habitarem lugares “centrais”, com baixo custo. E assim começa, involuntariamente, o processo de gentrificação. A compra de terrenos barateados pela precarização e ausência do poder público, vira então uma poderosa commodity nas mãos de quem controla os capitais. Os velhos moradores, deslocalizados para as periferias, servirão como mão de obra na construção dos novos empreendimentos. Ou quem sabe, como homens e mulheres placa.

No centro de São Paulo, essa é a dinâmica que tem sido reforçada nos últimos anos. Mas essa não é a única lógica de segregação e verticalização agressiva da cidade. Um passeio pelas marginais mostra a cidade-empresa crescendo de maneira vertiginosa. Prédios espelhados, às margens do rio Pinheiros, crescem num ritmo alucinante. As torres incessantes que margeiam a Berrini, as Águas Espraiadas e a Faria Lima, apresentam uma cidade unilateral e excludente. Uma cidade que é construída, anunciada e vendida por quem é expulso de lá. Cada edifício erigido é uma capítulo de tragédia do desenvolvimento paulistano, cuja ordem de despejo foi documentada pela pesquisadora Mariana Fix, em seu “Parceiros da Exclusão”.

Tal qual o discurso gentrificador hoje se apresenta no centro, à época, o processo de “desfavelização” vinha com ares de projetos sociais, de oferecer dignidade e moradia para os habitantes das favelas que se localizam bem no meio do progresso. Em um discurso sobre os escombros das antigas favelas, Maluf chegou a dizer que sentia, ao olhar aquilo, seu lugar no céu sendo garantido. As promessas de uma vida melhor, nunca cumpridas, se tornaram o melancólico diagnóstico da expulsão.

Em debate realizado no Sesc Pinheiros, em junho de 2015, David Harvey creditou à expansão imobiliária chinesa, que construiu enormes cidades fantasmas durante o estouro da bolha — veja só — imobiliária norte-americana que ocasionou a crise de 2008–2009, a responsabilidade pela bom desempenho de países como o Brasil, Chile e Argentina durante o período. São países exportadores de matéria prima para o crescimento chinês.

Na ocasião, Harvey cravou: “estamos construindo cidades para se investir, não para morar”. O espaço urbano, segundo o geógrafo, se tornou um espaço fértil para reinvestimento de capitais e reprodução de uma dinâmica predatória de lucro, que ignora o planejamento urbano, o bem-estar de seus habitantes, em troca da sua eterna — e lucrativa — reconstrução.

Em São Paulo, vivemos a emergência de um urbanismo agressivo. Sua marca, para além da constante demolição e reconstrução da cidade, está na precarização de vidas, na expulsão de populações sob as mais diversas maneiras, na falta de proteção aos trabalhadores e trabalhadoras da construção civil.

Fim do trabalho

O uniforme é uma malha preta, uma camiseta branca e um boné preto. Nossa área no porta-a-porta, passa pelo Bixiga e pela Bela Vista. Rua Santo Antônio, do Bixiga, Japurá, São Domingos, Viaduto Maria Paula. As setas são espalhadas mas não parecem fazer sentido entre si. Apontam para a contramão. Distribuímos os panfletos em ruas pequenas, de casas, em borracharias, estabelecimentos comerciais, sobrados, cortiços e mercadinhos.

“Não adianta dar o panfleto para trabalhador ou morador de rua”, somos avisados. E são os que mais encontramos. A desorganização e a aleatoriedade do planejamento reforçam o sem-sentido daquilo tudo. O panfleto-jornal, com o qual emporcalhamos ruas e frentes das casas simples da região e portas de rolar de oficinas, diz que a área vai ser transformada, melhorada, chegarão novos empreendimentos culturais, novas oportunidades de investimento e negócio.

Para este trabalho, não tem vale-refeição. Não tem nem água disponível. Quem tem sede, pede nas padarias e restaurantes da região, num copo americano, grátis. Uma água de garrafinha custa 10% do que se ganha num dia. Em um almoço no centro lá se vai a metade dos 35,00 reais. Estou parado há meia hora numa esquina distribuindo panfletos quando nos chamam.

Márcio lamenta: “Porra, já tinha descolado com a tia uns salgados pra gente”.

“De graça?”, indago de novato.

“É, né? Eles sabem que é trabalhador”, pondera. “Podia aliviar a fome da gente”.

Seguimos conversando e ele fala sobre como nós somos “todos um” e temos que cuidar uns dos outros. “Porque não é fácil essa vida, sabe?”.

Algumas horas depois, pagou um café com duas moedas de 50 centavos. Dividimos o café da tarde. Frio e doce. Segui o gesto e pedi outro. E paguei com outras duas moedas.

Após a pausa do almoço, voltamos à caminhar pelas ruas da Bela Vista. Cláudia anda brincalhona, falando alto e jogando panfletos pela calçada. Senta numa esquina da rua do Bixiga e começa a preparar um baseado de maconha. Sento com ela. Conversamos sobre a vida e ela me conta que acaba de sair da prisão, onde esteve por muitos anos. Sua namorada foi presa há uma semana, segundo ela, porque aceitou segurar drogas para uns amigos e foi pega.

Seguimos distribuindo o resto dos panfletos quando notamos pelo mapa xerocado que já acabamos a parte que nos cabe. Somos deslocados para um farol onde passamos duas horas entregando panfletos para carros. Dividimos o espaço com alguns homens e mulheres-placa.

Pelo resto do centro, grupos como o nosso fazem também sua parte do serviço e esperam o dia terminar. Lá pelas 17h, somos conduzidos de volta para São Bernardo do Campo. No caminho, o silêncio é a norma. Uma garota discute o que faria se não tivesse que trabalhar.