O aumento na expectativa de vida indica que estamos vivendo mais e melhor?
Por Cidartah* e Deniseevelyn**
*Herick C. G. de Oliveira — Atuário / Mestre e Doutorando em Demografia-UFRN
**Denise Pimentel — Cientista Social e Mestre e Doutoranda em Demografia-UFRN
***Esse Artigo faz parte de uma atividade referente a disciplina de Componentes Da Dinâmica Demográfica (parte mortalidade)/PGDEM/UFRN — 2019.2
“Afinal, quem somos nós além da soma de nossas experiências, das coisas que aprendemos e colecionamos ao longo da vida?Sem isso, não passamos de um conjunto de pele, ossos e vasos sanguíneos (C.J. Tudor, O Homem de Giz)”
De acordo com a Organização Pan-americana da Saúde (OPS, 2019), a expectativa de vida nas Américas dentre os últimos 25 anos aumentou de 72,3 para 76,9 anos. As tendências demográficas observadas nas últimas décadas, em virtude da redução nas taxas de mortalidade e natalidade, têm contribuído para as notáveis mudanças na estrutura etária populacional. A redução na proporção de jovens e o aumento na participação da população idosa no topo da pirâmide, tem despertado atenção de diferentes setores da nossa sociedade, principalmente em relação as demandas socioeconômicas e de saúde pública.
O Brasil desde 1940 tem experimentado um rápido processo de transição demográfica, as baixas taxas de mortalidade e fecundidade tem modificado as características da população. Segundo os dados do IBGE (2018), a esperança de vida ao nascer no Brasil passou de 45,5 anos em 1940 para 76 anos em 2017, sendo 72,4 anos para homens e 79,6 para mulheres. A probabilidade de uma pessoa com 60 anos chegar aos 80 anos de idade em 2017, passou a ser de 594 para cada mil habitantes.
Contudo, no Brasil existem diferenciais regionais quanto aos ganhos de vida. Os dados do IBGE (2018) apontam que o estado do Maranhão em 2017, apresentou a menor esperança de vida ao nascer, 70,9 anos em comparação as demais Unidades Federativas do país. Ao passo que Santa Catarina apresenta a maior esperança de vida ao nascer, 79,4 anos. Já a expectativa de sobreviver dos 60 aos 80 anos, a Unidade Federativa com a menor probabilidade é Rondônia, 488 para cada mil habitantes, e com a maior aparece o Espírito Santo, 647 para cada mil.
O ganho na expectativa de vida e da longevidade são explicadas, em parte, pelas mudanças no padrão de mortalidade e morbidade e como o homem ao longo da história conseguiu superar os diferentes agentes responsáveis pela alta mortalidade na população. Segundo Horiuchi (1999), ao longo do tempo as populações passaram por diferentes regimes de mortalidade e causas específicas de morte. A mudança de um padrão de mortalidade para outro é dada por determinadas características na estrutura das causas específicas de morte de uma população, que o autor resume em cinco tipos de transição: i) a primeira pela transição da mortalidade por causas externas para doenças infecciosas; ii) a segunda da mortalidade por doenças infecciosas para doenças degenerativas, iii) a terceira transição seria a queda da mortalidade por doenças cardiovasculares, iv) a quarta o declínio da mortalidade por câncer, v) e a quinta transição, o autor acredita que será a desaceleração da senescência.
O aumento na sobrevida em idades avançadas tem sido observado desde 1950, corroborando com tal fato, observa-se nos países desenvolvidos um crescimento na proporção da população com idades entre 80 a 100 anos. O desafio atualmente está em como chegar em idades mais avançadas com uma taxa menor de morbidade e incapacidade funcional (CHRISTENSEN, DOBLHAMMER, RAU, VAUPEL, 2009).
Conhecer as principais causas de morte não tem sido apenas importante nas idades mais jovens, como também entre a população idosa. Afinal, a mortalidade em idades avançadas também reflete sobre as condições e os cuidados com a saúde que temos ao longo da vida. Assim como, aponta tendências e demandas para um grupo da população que só tende a crescer. Diante disto, esse trabalho tem como objetivo apresentar um panorama geral recente das causas de morte da população idosa no Brasil. Para tanto, utiliza-se dados do Portal da Saúde, do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), referente ao ano de 2017.
AS PRINCIPAIS CAUSAS DE MORTE DA POPULAÇÃO IDOSA
Antes de apresentar alguns dados sobre a mortalidade na população idosa, é importante destacar algumas limitações na obtenção do registro das causas específicas de morte. Em um estudo realizado por Preston e Nelson (1974) sobre a estrutura da causa de morte e suas mudanças para diversos países, estes relataram problemas de notificações e sub-registros nos óbitos. Como também na declaração de óbito sobre doenças cardiovasculares, que esteve em algumas situações atribuídas as causas mal definidas.
Com o avançar da idade, os indivíduos tendem a conviver com diferentes comorbidades, apresentando limitações das suas capacidades funcionais (JOPP, BOERNER, ROTT, 2016). Segundo Vasconcelos (2004), embora no Brasil tenha apresentado melhorias na qualidade da informação nos últimos anos, uma das principais críticas sobre a notificação de óbitos para idades avançadas, tem sido apresentar apenas uma causa do óbito, não sendo possível verificar as diferentes morbidades que atingem esse grupo. Para tanto, esta acredita que o atestado de óbito pode ser uma opção para esse tipo de análise, por apresentar diferentes causas de morte associadas.
Numa análise geral por grupos de causas de morte da população com mais de 65 anos, residentes nos países das América, segundo dados disponibilizados pela OPS (ver Tabela 1), verifica-se que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) apresentam a maior carga de doenças relacionadas a mortalidade geral entre idosos. As com maior proporção são as doenças do aparelho circulatório, neoplasias e doenças do aparelho respiratório, sendo responsáveis por quase 67% da mortalidade geral da população idosa.
Tabela 1 — Causas de morte da população de 65 anos e mais, incluindo 21 países das Américas, 2015.

A ESTRUTURA DA MORTALIDADE DA POPULAÇÃO IDOSA NO BRASIL
As doenças crônicas não transmissíveis no Brasil também é uma das principais causas de morte da população com idade entre 30 a 69 anos. Embora tenha apresentado desde os anos 2000 uma tendência de queda, sobretudo nas doenças do aparelho circulatório, as causas de morte por câncer e diabetes tem apresentado uma menor redução. Além disso, existem diferenciais regionais quanto a taxa de mortalidade por DCNT e problemas de cobertura dos óbitos entre as regiões do país (MALTA, MOURA, PRADO, ET AL, 2014).
Quanto as causas de morte da população com mais de 60 anos no Brasil, com base nos dados do Sistema de informações sobre Mortalidade (SIM), disponibilizados pelo portal da saúde (DATASUS). Nota-se na Tabela 2 que as três maiores causas de mortalidade da população idosa no Brasil são por doenças crônicas não transmissíveis, a mesma observada no conjunto dos países das Américas. As três principais são: doenças do aparelho circulatório, neoplasias e doenças do aparelho respiratório, correspondendo a 66,5% da causa da mortalidade geral da população idosa.
Tabela 2 — Causas de morte da população de 60 anos e mais do Brasil, 2017.

Ao observar as causas de morte por grupos etários de 60 a 69 anos, 70 a 79 anos e 80 anos e mais, nota-se que (Gráficos 1, 2 e 3) as três principais causas de morte apresentam diferentes proporções nos três grupos etários, sendo as doenças do aparelho circulatório as que apresentam a maior proporção de causa de mortalidade nos três grupos. O que diferencia são as neoplasias, que aparece como a segunda maior causa de morte no grupo de 60 a 69 anos e 70 a 79 anos. No grupo de mais de 80 anos, a segunda maior causa de morte são as doenças do aparelho respiratório, as neoplasias aparecem em terceiro. No grupo de 60 a 69 anos, as causas de morte por doenças do aparelho respiratório têm uma proporção menor, em comparação aos demais de idades mais avançada. Em contrapartida, as neoplasias têm um maior peso.
Gráfico 1 — Distribuição percentual de óbitos por causas de morte da população com idade de 60 anos a 69 anos. Brasil, 2017.

Gráfico 2 — Distribuição percentual de óbitos por causas de morte da população com idade de 70 anos a 79 anos. Brasil, 2017.

Gráfico 3 — Distribuição percentual de óbitos por causas de morte da população com idade de 80 anos e mais. Brasil, 2017.

No Gráfico 4, nota-se que as quatro principais causas de mortalidade da população idosa apresentam diferencias por sexo. As doenças que apresentam uma maior carga na mortalidade geral das mulheres são as doenças do aparelho circulatório, doenças do aparelho respiratório e doenças endócrinas nutricionais e metabólicas. A única que apresenta maior proporção na causa de mortalidade dos homens em comparação as mulheres são as neoplasias.
De acordo com os dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, 45,1% da população com idade acima de 18 anos apresentou ter pelo menos uma doença crônica não transmissível. Com uma prevalência de 50,4% para mulheres e 39,2% para os homens. A hipertensão arterial é a mais prevalente entre os indivíduos, cerca de 21,4%. (MALTA, STOPA, SZWRCWALD, ET AL 2015).
Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) referente ao ano de 2017, apontou que o câncer nas traqueias, brônquios e pulmões foi responsável pelo maior número de casos de morte por neoplasias nos homens, correspondendo a 14%, em segundo lugar aparece câncer de próstata, com 13,4% . Entre as mulheres, o câncer de mama foi a maior causa de mortalidade (16,1%) e em segundo, o câncer nas traqueias, Brônquios e Pulmões (11,4%).
Gráfico 4 — Percentual da contribuição das quatro principais causas de morte na geral da população idosa com mais de 60 anos por sexo. Brasil, 2017.

A mortalidade da população idosa também apresenta diferenciais entre as Unidades da Federação do país (ver Figura 1 e 2). Os estados de Rondônia e Rio Grande do Sul apresentam as maiores taxas de mortalidade por neoplasia entre a população com idade acima dos 60 anos. Já a mortalidade por doenças respiratórias, as maiores taxas são observadas no Piaí e Alagoas. Em geral, nota-se uma mortalidade por neoplasia na maior parte das regiões do país, com altas taxas em alguns estados das regiões Sul, Sudeste e parte do Norte. Já os óbitos por doenças do aparelho circulatório, nota-se uma incidência maior nos estados do Norte e Nordeste.
Figura 1 — Taxas de óbitos por Neoplasias da população com 60 anos a cada 10.000 habitantes, UFs, 2017

Figura 2 — Taxas de óbitos por doenças do aparelho circulatório da população com 60 anos ou mais por 10.000 habitantes, UFs, 2017.

No estudo realizado por Conde, Alvarenga e Nishida et al (2018), apontaram que as principais causas de morte em idosos (doenças cardiorrespiratória, neoplasias, doenças respiratórias e doenças não definidas) não se alteraram no Brasil nos últimos 30 anos. Já no estudo realizado por Camargos e Gonzaga(2015), sobre expectativa de vida saudável em idosos, referente ao período de 1998 a 2008, verificou-se uma tendência de redução em algumas doenças crônicas (como artrite, artrose, doença renal para ambos os sexos), em contrapartida, teve-se um aumento de problemas de saúde relacionadas a hipertensão, câncer e diabetes. Apontando diferenciais entre homens e mulheres em relação a determinadas doenças crônicas, expectativa de vida e incapacidade funcional.
OS DESAFIOS POPULACIONAIS DIANTE DO ENVELHECIMENTO
É notório que estamos vivendo mais. A questão é, estamos vivendo melhor? Como amenizar os impactos das doenças crônicas não transmissíveis e a mortalidade em idosos? Embora a tecnologia e a medicina tenham avançado, a carga de morte por doenças transmissíveis diminuído, ainda temos desafios pela frente quando se trata de envelhecer e aproveitar os anos a mais adquiridos. As doenças crônicas não transmissíveis trazem custos sociais e econômicos para uma população, não só por ser uma das maiores causas de mortalidade, mas porque afeta na rotina do trabalho e para baixa qualidade de vida. No caso dos idosos, deixam ainda mais dependentes de ajuda de terceiros. A demanda na saúde pública tende a crescer com o processo de envelhecimento populacional. Políticas públicas direcionadas a população, com o objetivo de trazer hábitos alimentares mais saudável, realização de atividades físicas, redução de fatores que causam o estresse, pode contribuir para redução das morbidades e para um envelhecimento com qualidade de vida. Além de contribuir com o aumento na expectativa de vida nas idades avançadas.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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