Sobre o feminicida Bruno e seus defensores

Cidinha Da Silva
Jan 9 · 9 min read

Liguei o computador para iniciar o dia de trabalho e seguindo a rotina dei uma olhada nas redes sociais para medir a temperatura do noticiário. Passei por um daqueles textos, não propriamente provocativos, no sentido de remexer um tema de maneira a nos chamar para ele, mas, sim, um daqueles textos declaratórios e pirotécnicos, cheios de acusações e orientações messiânicas de como proceder em relação à determinada questão.

Tratava-se de uma coisa bizarra escrita por um homem negro que via alguma possibilidade de defesa do feminicida Bruno (ex-goleiro do Flamengo), assassino de Eliza Samúdio. O texto criticava as mulheres pretas que vibravam com as limitações de trabalho impostas ao feminicida por conta de seu ato. Fazia também comparações torpes com outros casos nos quais as tais mulheres pretas não se manifestavam igualmente. Concluía que aquela “comoção” se dava pelo cara ser preto e aquelas mulheres, supostamente, queriam destruir os homens pretos (????). Devido às tais manifestações e comemorações, o ex-goleiro seria “mais um preto que ficaria sem emprego”. Por fim, acusava as mulheres negras que tinham postura de crítica ao assassino de não entenderem o jogo racial em voga.

Algumas dessas coisas eram ditas de maneira direta, literal, outras estavam nas entrelinhas. A síntese acima foi o que permaneceu na minha memória, contudo, durante o dia de trabalho, o tal texto não me abandonou, ficou como estilhaço de osso do corpo destruído de Eliza Samúdio entalado em minha garganta. O texto é farinha desse osso, desse saco de farinha que abriga corpos de mulheres, efetivamente eliminados, e que oferece refúgio também à morte simbólica que a cultura do feminicidio impõe às mulheres em diversos graus.

Passemos à velha técnica da análise de discurso para ver o que o texto-estilhaço-de osso nos diz. Ele começa assim: “Mulheres pretas vibrando explicitamente, em escala industrial, com os sucessivos boicotes que o goleiro Bruno tem sofrido ao tentar trabalhar e ser reinserido na sociedade”.

“Mulheres pretas”: o texto faz uma chamada geral, embora se dirija a um grupo de mulheres a quem o autor deve querer atingir. É estratégia bastante conhecida de atiçar o formigueiro para ver as formigas em polvorosa. “Vibrando explicitamente”… em que pese o fato de que toda vibração pública é explícita, as que não são, a gente não vê, podem ser vibrações íntimas (talvez o autor tenha querido dizer enfaticamente, efusivamente, e a precariedade do uso preciso da língua portuguesa o tenha conduzido à escolha errada da expressão “explicitamente”). A tal vibração explícita, segundo o emissor, se daria “em escala industrial”, o que me leva a formular a hipótese de que o autor pretendeu introduzir figuras de linguagem para impactar as leitoras via pirotecnia verbal. Prossegue o texto: “com os sucessivos boicotes que o goleiro Bruno”… aqui existe uma demarcação de campo bastante explícita. Bruno é um assassino de mulher por motivo fútil, é um feminicida, um exemplo negativo para a sociedade, um homem que nunca se arrependeu do crime (sequer o admitiu), nunca se retratou. Estão de um lado, as pessoas que o veem assim, e de outro, aquelas que querem lhe imputar uma doce humanidade. Também os chamados “sucessivos boicotes” são tema para discussão, pois há quem considere que diuturnamente, a sociedade precisa ser lembrada do assassinato cometido por Bruno, crime localizado na ampla esfera dos assassinatos por motivo banal que têm ceifado a vida de milhares de mulheres brasileiras. É preciso que os outros homens sejam convocados a não agir como Bruno e a não minimizar o que ele fez. Isso se faz pela lembrança eterna, sim, e-ter-na! do assassinato sádico de Eliza Samúdio, um crime hediondo. É preciso que feminicidas como Bruno sejam apresentados como feminicidas às crianças e adolescentes para que não o tenham como um exemplo de que “matar mulheres é uma bobagem”, não pega nada, e por isso eles, quando adultos, poderão matar também. Se (infelizmente) existem pais e mães que levam crianças a um shoping center para tirar fotos ao lado de um assassino que foi ídolo popular de futebol, se esses pais e mães não veem problema nisso, outras instâncias da sociedade, principalmente aquelas formadoras de opinião têm a obrigação de gritar o quanto isso não é aceitável. À medida que um homem mata uma mulher porque ela lhe incomoda ao exigir pensão para o filho do casal, que esse homem cumpre pena e depois quer levar uma vida civil como se fosse um sujeito homem decente, reforça-se o entendimento de que mulher pode ser morta a rodo, por tratar-se de uma vida que, em fim de contas, não vale nada mesmo. Prossegue o texto: ao tentar trabalhar e ser reinserido na sociedade”… reforço estilístico à doce e ingênua humanidade do feminicida Bruno já explicitada acima.

“Essas mesmas pretas não percebem (ou não querem se ligar), que se o mesmo crime pelo qual ele foi condenado tivesse ocorrido com uma mulher preta, não haveria cachorro, leão, tigre, tubarão ou guepardo que desse conta de provocar uma comoção nacional”. Nossa hipótese de pirotecnia verbal para impressionar as leitoras se confirma aqui pela escolha de grupo significativo de animais carnívoros que poderiam ter destroçado e devorado o corpo da mulher assassinada. Parece também haver um subtexto de que os ditos animais selvagens aumentariam a crueldade da coisa que teve cachorros como executores. Aqui, aparece o primeiro equívoco grave de leitura racial do caso. Bruno, o assassino, é negro; Eliza Samúdio, uma mestiça brasileira, talvez socialmente branca, uma branca desvalidada, considerada prostituta e atriz pornô… qual é mesmo o tipo de comoção que esse perfil de mulher branca desperta? Em quem? Mesmo não sendo negra ou indígena, Eliza era um corpo socialmente descartável.

O segundo erro, este mais grave ainda, é tentar tirar o foco do assassinato real e transferi-lo para uma hipotética mulher negra assassinada. Elementar, caro articulista, houve um crime e uma mulher foi morta por motivo banal com detalhes de sadismo e crueldade.

Continua o texto: “Tampouco uma empatia das mulheres bramkas para com a preta, a ponto de formar essa mesma rede implacável de patrulha e vigília ao boicote da retomada da carreira de Bruno, enquanto homem preto”. Li e reli diversas vezes e tive dificuldade de entender a sequencia de frases, o que, de fato, configuraria o argumento desse amontoado de palavras. Caso eu tenha alcançado a profundidade da reflexão, parece que ao autor tentou dizer que mulheres brancas não seriam solidárias com uma mulher preta assassinada por um homem preto e por esse motivo, as mulheres pretas deveriam “passar pano” para o homem preto (Bruno) que matou uma suposta mulher branca (Eliza Samúdio). Seria isso, minha Nossa Senhora das Orações Subordinadas? Se for, devo dizer que o autor errou de novo, que não sabe fazer leitura racial das coisas nesse país racista chamado Brasil. Não sabe fazer leitura de gênero também, sempre necessária. Vejamos: o foco é o FEMINICIDIO, é o patriarcado que julga ter o “direito” de eliminar os corpos de mulheres que o descontentam, e o faz, na crença de que cada eliminação funcionará como mecanismo de controle para que as outras mulheres (vítimas potenciais do feminicidio) se comportem pela cartilha do patriarcado. Este é o foco!!! Contra isso, as mulheres se insurgem e esperavam que os homens comprometidos com a humanidade plena viessem junto com elas. Ao contrário disso, são obrigadas a ler esses textos-defesa de superego, do cercadinho do Bolinha preto, “enquanto homem preto”.

“519 anos de Brazil. Quantos bramkos a la Guilherme de Pádua foram alvos desse mesmo tipo de patrulha e vigília que o Bruno tá tendo?”

Aqui, a velha tática do patriarcado de dizer que as mulheres não sabem de nada, que fazem a coisa errada, que não sabem o que fazer.

“Quantas mulheres pretas assassinadas mobilizaram mulheres bramkas organizadamente?” Aqui, a tática do morde e assopra, como se o autor dissesse, estou com vocês, mulheres pretas; estou olhando o lado de vocês; me preocupo com vocês.

“Eliza Samúdio mobiliza mais as pretas militantes que Marielle Franco mobiliza as bramkas militantes.” Ei girls, estamos juntos; nós por nós. Vou tocar no nome de Marielle Franco porque sei que isso mobiliza o coração de vocês, tolinhas.

“Suzane Von Richitofen foi abraçada pelos brazileiros (sic) faz é anos! Sem contar os políticos e empresários que promovem verdadeiros genocídios pretos!” Prossegue o pseudo discurso coletivo para tentar ganhar o coração das leitoras.

“Tudo isso nos conduz a uma conclusão: O que tá em questão não é a crueldade do crime, mas a cor do autor/mandante em relação à cor da vítima. Ou seja, se o Bruno fosse bramko, contaria apenas com o ódio e patrulha das bramkas, configurando um problema intra-racial”. A conclusão é um sofisma pífio, sofrível. Vamos ver se consigo ajudar a leitora que, como eu, contorce o cérebro para tentar entender os argumentos do autor. Vamos também buscar alguma lucidez no debate proposto, vamos enumerar para facilitar:

1 — Trazer à centralidade a questão racial não significa pressupor que tudo o que é preto é bom e tudo o branco é ruim, é um simplismo que não funciona, um reducionismo que não ataca de frente os problemas raciais.

2 — Compreender a dimensão racial das coisas significa colocá-la nos lugares certos, peguemos um exemplo do campo da política: Celso Pitta, político e prefeito negro de São Paulo, cria de Paulo Maluf, era comprovadamente corrupto e desonesto como seu líder branco. Quando Pitta caiu, as pessoas diziam, “viu no que dá votar em preto”? Ninguém nunca disse “viu no que dá votar em branco” face as trajetórias de Maluf, Collor, Bolsonaro e tantos outros políticos brancos execráveis. Compreender como a dimensão racial opera é compreender que Pitta errou ao achar que os seus crimes econômicos passariam incólumes ao julgamento dos brancos. Maluf está aí, vivão, 89 anos, talvez use tornozeleira eletrônica para desfrutar de sua fortuna, mas desfruta. Pittta é só osso debaixo da terra, não segurou o tranco, talvez, porque diferente de Maluf, seu coração não tenha sido preparado para sobreviver à execração pública. Gente preta pouco conta com lastro econômico e aprende em casa que o bem mais precioso é o nome. Quem pratica corrupção desde muito jovem, não está preocupado com o nome, vejam o caso Aécio Neves. Mas, tendo em vista suposto despreparo doméstico do Pitta para praticar o roubo e a falcatrua, poderíamos considerá-lo um coitadinho, um injustiçado bobo da corte? Não, não, ele tinha interesses que o levaram a praticar crimes e eu não vou defendê-lo por ser negro, embora possa argumentar sobre as formas fáceis e efetivas de descartar um negro para salvaguardar os brancos, todavia, isso não o redime. Outro exemplo é a derrocada de Sérgio Camargo, indicado à presidência da Fundação Palmares no atual governo. A queda só ocorreu por tratar-se de um homem negro. Quantos estúpidos e estúpidas tem o governo Bolsonaro? Inúmeros, a começar pela famiglia presidencial. Quantos falam besteiras e cometem atos que poderiam justificar sua queda? Todos eles, na justiça, na educação, no meio ambiente, nos direitos humanos, na agricultura, em praticamente todos os setores. Quem caiu até agora? Ninguém além do preto que não chega a ser mais estúpido que os brancos mantidos nos cargos, mas que cometeu suicídio político ao querer ser mais realista do que o rei e no planalto devem ter dito: deixem esse idiota de fora, não faz diferença mesmo. É uma hora boa para dar um pouco de circo ao povo (negro). Deixa eles acharem que conquistaram alguma coisa com a pressão feita. Esse é o jogo racial, mas, não é possível defender o indefensável Sérgio Camargo porque ele é negro e, certamente teve a cabeça cortada por sê-lo. Essa é uma perspectiva que busca fazer análise racial dos acontecimentos com alguma complexidade.

3 — O fato de sabermos que há agravantes raciais no encaminhamento do feminicidio praticado por Bruno e na punição imposta a um homem negro assassino, não elimina o fato de ele ser um assassino. No caso do ex-goleiro, um assassino de mulheres, absolutamente cruel e sádico. E nosso foco, precisa ser a cultura patriarcal de feminicidio que permitiu esse crime ao professar que a vida das mulheres não tem valor e que são corpos elimináveis a qualquer momento, por qualquer motivo que descontente o patriarcado. Nossa insurgência deve ser contra isso, essa é a centralidade da questão. Não é possível que até certas mulheres só compreendam o que é o feminicidio se alguém da família, uma amiga ou conhecida for vitimada por essa prática nefasta. O feminicidio está no ar que a gente respira e a qualquer momento e por qualquer motivo pode eliminar o corpo de qualquer mulher, de todas as mulheres. Aliás, os números mostram que a eliminação dos corpos das mulheres negras cresce a cada ano. Isso deveria preocupar mais a certos homens do que a construção de uma versão de humanidade dócil e reconstruidona para o feminicida Bruno, assassino de Eliza Samúdio.

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Espaço editado pela escritora Cidinha da Silva, aborda o direito à cidade na perspectiva de africanidades; faz crítica cultural com ênfase em relações raciais.

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