Reflexão de estreia
Sou brasileira com muito orgulho, com muito amor
A esta altura da vida eu já aprendi que compensa muito mais enfrentar medos e desafios, do que me prostrar. Eu já aprendi muitas outras coisas também, como deixar-me flanar quando não tiver a mínima ideia do que fazer naquele momento e, quando voltar a saber, aí sim continuar me movendo. Pois bem, como brasileira, estes últimos dias têm me apresentado algo novo. O não sei o que fazer, após ter feito muito. Minha rouquidão e cansaço se pautam agora na minha determinação budista de que o Senado Federal e o STF hão de se pautar pelo respeito.
Respeito à Constituição Federal, aos indivíduos do país na sua totalidade e não em alguns segmentos, respeito ao amor próprio, sei lá.
Quando assisti ao filme Raça, do diretor Joel Zito Araújo, uma das cenas de que me lembro bem francamente foi o relato de um homem negro, explicando, calmamente, algo perturbador que foi alguém querendo vender a terra onde ele viveu toda a vida. “Ele queria vender a terra comigo dentro.”.
Inesquecível a sensação que tive ao ouvir este relato. Negros, índios, favelados e tantos outros tidos como vulneráveis na nossa sociedade têm intimidade com o desrespeito e o desprezo — cotidianos. Eu não tenho ideia do que possa ser viver uma vida de desrespeito e desprezo, mas estes últimos dias estão ameaçando colocar muito mais outras dezenas de milhões de brasileiros neste lugar.
Fico me perguntando, neste primeiro texto nesta ferramenta, como é isto de desprezar uma galera inteira em nome de uma ideia de certeza. Estamos no século XXI e as ferramentas disponíveis para aprender o que é diálogo, terapias, metodologias, ciência, sauna pra relaxar, acesso a tudo que é método, infelizmente não foram ainda suficientes para trazer aqueles que se entendem como algo melhores do que os demais para um lugar em que todos somos e estamos — eternamente: o lugar da humanidade, da vulnerabilidade, daqueles sentimentos que nada ou ninguém podem evitar que passemos, mesmo achando que estamos protegidos o suficiente para enfrentar.
Nossa única saída é a rede de proteção e não estou falando de gueto. No gueto o repertório é restrito. Pode ter o tamanho que tiver. Sem chance. Impossível dar conta da vida que cada um tem de levar em gueto, em bairro especial, em fortaleza protegida, em carro blindado.
Se as dezenas de milhões de brasileiros que estão com o sentimento de estarem sendo preteridos do processo agora não estão fazendo mais é porque são educados o suficiente para esperar o desenrolar do processo — acreditando nos mínimos morais que esta mesma sociedade produziu.
A história do meu país tem Darcy Ribeiro, tem Tom Jobim, tem Chiquinha Gonzaga, tem Zumbi, tem tanta gente bonita e corajosa. Meu país tem uma força incrível. O nome do meu país, com todo o respeito do mundo, não é Egito, nem Líbia, nem Síria, nem Ucrânia. Muito menos United States of America. O nome do meu país é Brasil. Um nome carrega muitos símbolos e histórias, mas carrega principalmente milhões de vidas. Eu não posso acreditar que o Senado Federal vai pensar tão pequeno como pensaram os deputados federais. Sabe por quê? Porque dinheiro nenhum no mundo vai cobrir sequer uma respiração da quantidade de vida que tem somente se considerarmos o território brasileiro — muito menos ter a prepotência de se acharem apartados do restante do Planeta Terra — o grande lugar ao qual estamos inevitavelmente ligados.
Eu não posso acreditar que o STF do Brasil se deixará levar pelo canto da sereia. Eu não posso acreditar que todos os nossos ancestrais nos antecederam para testemunhar tamanha indelicadeza com suas histórias de vida.
A força da nossa história e da solução de nossos problemas se encontra na nossa união, jamais na divisão — metodologia importada e malsucedida em tantos outros cantos do mundo.
E a gente aqui tem a oportunidade única de mostrar que existe criatividade suficiente para dar uma nova resposta a velhos problemas de um mundo que se despede para o século XXI verdadeiramente começar.