Ocupações nas Universidades: Porque falhamos no Ensino Superior Público

O principal antro da ciência Brasileira são as Universidades públicas. O que se espera delas é basicamente ensino, pesquisa e extensão. Esses três pilares sustentam as Universidades e, consequentemente, a ciência Brasileira.

Ora, então por que historicamente as Universidades públicas brasileiras se tornaram um antro da política Brasileira? Será que isso é realmente o que deveríamos esperar delas?

A primeira pergunta é bem fácil de responder e vou tomar a liberdade de assumir que você já saiba. Vou confiar no seu professor de História do Ensino Médio (talvez o maior erro desse texto).

A segunda pergunta me atrevo a abordar. O processo científico está ligado necessariamente ao avanço do conhecimento humano. Portanto, é razoável dizer que o papel das Universidades é estar na fronteira do conhecimento. Bom, então temos um punhado de jovens cheios de vigor, de vontade de mudar o sistema. Junto a isso, assumimos que eles estão adquirindo o conhecimento mais avançado e, de certa forma, ajudando a avançá-lo. Então, por que não usá-los para avançar a nossa teoria e prática de política? É óbvio responder que sim, devemos.

Toda essa introdução foi para te convencer de que não é inteligente questionar a Universidade pública como antro político dado essas premissas. O que eu mostro agora é como essas premissas não vem sendo respeitadas e, portanto, temos falhado na Educação Superior.

A premissa dos jovens estarem na fronteira do conhecimento e questionando o sistema é completamente errada hoje em dia. Para você fazer e compreender ciência é necessário acima de tudo liberdade. Caso não haja liberdade de pensamento, qualquer proposição se torna dogma. Precisamos estar dispostos a aceitar o erro a qualquer momento. Caso contrário, não há evolução.

Poderíamos mostrar a falta da liberdade de pensamento em Universidades públicas de diversas maneiras. Desde a presença de partidos políticos em Diretórios Acadêmicos até a doutrinação política em sala de aula de boa parte dos professores. Aqui, ficamos com o fato mais recente, não tenho certeza se é o mais evidente, as ocupações.

As ocupações são aparentemente um movimento de estudantes contrários à PEC 241 e à recente reforma da educação. Até aí tudo bem, né? Afinal, concorda com a nossa premissa. Bom, antes de tudo o movimento se iniciou com estudantes secundaristas em Escolas Estaduais. Só por esse motivo já quebramos a premissa que estabelecemos, mas vamos além. O Spotniks já falou sobre como essas ocupações são encabeçadas por partidos políticos. A mim resta perguntar, como pode uma vertente de pensamento ser financiada por terceiros (com interesses explícitos) e ainda assim respeitar o pensamento científico? Por pensamento científico quero dizer especificamente aceitar que outro diagnóstico ou solução esteja certo e o seu errado.

Bom, chegamos a um momento em que um leitor favorável as ocupações pensa: Mas o que está em pauta não é discutível, a PEC vai sim prejudicar a educação e a saúde!

Meu caro, existem centenas de opiniões de especialistas divergentes. E não me venha dizer que os favoráveis a PEC são todos comprados, porque isso é desrespeitoso com a ciência. Eles tem dados. Os contrários também possuem alguns argumentos interessantes. Por agora, é mais razoável considerar o problema como em aberto (apesar da quantidade de dados favoráveis a PEC seja maior, vou dar essa colher de chá).

Até aqui, podemos concluir que o movimento das ocupações por natureza desrespeita premissas irrevogáveis a ciência e, consequentemente, a um universitário. Ele é puramente dogmático. Agora, tento mostrar como o movimento em sua ação desrespeita a ciência.

Mais uma vez, recorro ao seu professor de história do Ensino Médio. Você lembra da Idade das Trevas? Então, aquele período de deteorização cultural, econômica e científica da humanidade. Você lembra qual a principal característica do período? Sim, os dogmas da Igreja. Além de pregar dogmas, a Igreja perseguia quem se atrevia a discordar. Lembremos ainda que o Clero e a Elite da época eram uma porção minúscula da sociedade.

Voltamos agora às ocupações. Há diversos relatos de como elas tem se instaurado e funcionado. Vou tentar explicar de uma maneira simples o que eu sei por experiência. Essas duas regras que em geral aparecem em estatutos das Unidades acadêmicas das Universidades regem o processo:

  1. O Diretório Acadêmico de uma Unidade da Universidade pode convocar uma assembleia.
  2. Caso a Assembleia tenha um quórum mínimo (em geral <5% dos alunos), pode deliberar sobre assuntos dos estudantes da Unidade.

Portanto, por meio do D.A. o movimento convoca uma assembleia que, com uma representação em geral mínima dos estudantes, instaura a ocupação. Depois de instaurada, os alunos trancam a Unidade toda e passam a ter plenos poderes lá dentro.

Em geral, qualquer cidadão que tente entrar na Unidade é barrado. Caso seja alguém “do movimento” eles deixam entrar. Um simples “vim conhecer” não costuma funcionar. Mais do que isso, ocupantes normalmente são bastante hostis. Isso não é apenas a experiência do autor, há diversos outros relatos. Em unidades onde ocupantes tem de conviver com alunos de pesquisa e professores**, mesmo que contrários ao movimento, o clima é de guerra. Câmeras de segurança são tampadas e alunos e professores escoltados e hostilizados.

**Essas unidades acordaram que a pesquisa e extensão não seriam interrompidas.

A programação dentro da ocupação é de “aulões”. De que? Da PEC por exemplo. Bom, mas não da PEC em si, mas sim porque ela deve ser combatida. Assim, ao invés de aulas, ocupantes tem explicações sobre agendas políticas. Pregação de dogmas.

Tanto nas ocupações quanto na Idade das Trevas, dogmas a ferro e fogo são propagados por uma minoria (mesmo que fosse maioria não justificaria, apenas aumentei o comparativo). O leitor mais fanático talvez me xingue dizendo que a inquisição matou X pessoas e as ocupações são pacíficas. Bom, se você acredita que relativizar violência, seja ela a direitos, psciológica ou fisíca seja seu melhor argumento, você não entendeu o propósito do texto.

Espero ter te convencido como as ocupações são um retrato da nossa falha na educação superior. Elas violam premissas básicas da ciência. Além de tudo, além de não praticar ciência, sua ação cerceia o pensamento científico. Tudo isso prova como falhamos no nosso Ensino Superior. Não existe investimento algum na educação que funcione enquanto existir um pensamento dogmático.