Uma homenagem ao guerreiro Tutawa Ãwa

Os Ãwa agora têm um futuro e o mito profético diz que eles retornarão para casa

por Patrícia de Mendonça Rodrigues*

foto: Vinícius Berger

Resiliência. Talvez a melhor palavra para definir a vida e o caráter de Tutawa Ãwa de forma sintética. Poucas pessoas desenvolveram essa habilidade extraordinária como este guerreiro de temperamento afetuoso e alegre que guiou e liderou o povo Ãwa no vale do Rio Araguaia durante as décadas de genocídio anteriores ao contato e nos anos de submissão que se seguiram à captura de dez sobreviventes. O fato chocante de negarem a ele o seu último desejo – o de ser enterrado no Capão de Areia, o último refúgio antes do contato – foi apenas um entre os incontáveis e desumanos obstáculos que teve que enfrentar juntamente com seu povo durante toda a vida. Nascido na década de 1930 em uma gruta que servia de abrigo para seus parentes, faleceu em 6 de junho de 2015 como um intruso em terra estranha.

Dois meses depois, deprimido com a morte de seu pai, morreu Agàek, o primogênito de Tutawa, que há décadas era dependente de álcool e visivelmente desnutrido, em meio a um quadro complexo de insuficiência renal e respiratória, tuberculose, pneumonia e calazar. O estado de seu corpo denunciava o abandono e as privações a que os Avá-Canoeiro do Araguaia foram submetidos por décadas. Do grupo capturado pela Frente de Atração da Fundação Nacional do Índio (Funai) há 42 anos, resta agora apenas Kaukamã, filha de Tutawa e mãe de todas as crianças da primeira geração nascida após o contato.

Diante da perseguição incessante pelos novos colonizadores, em que os Avá muitas vezes foram obrigados a abandonar os corpos dos parentes mortos durante a fuga desesperada, por muitos anos a rotina caracterizou-se por um eterno deslocamento de acampamento em acampamento, instalados em lugares inóspitos.

Tutawa passou metade da vida fugindo de massacres coletivos, incêndios de aldeias, tiroteios, assassinatos sucessivos da maioria dos parentes próximos, tocaias, cães de caça, caçadores de índios a cavalo, fome. E mesmo assim manteve as qualidades nobres e ideais dos chefes tupi: a capacidade de liderança na guerra e a generosidade na distribuição dos recursos entre os membros do grupo. Guerra brutal é a expressão que descreve o que os Ãwa – conhecidos como Avá-Canoeiro na literatura ou “Cara Preta” na região do Araguaia – viveram com a colonização do médio Araguaia no século 20. A memória regional atribui aos famosos caçadores de “Cara Preta”, como Martim Cabeça Seca e Vicente Mariquinha, entre outros, o assassinato de centenas de índios e a destruição de aldeias inteiras nas décadas de 1940, 1950 e 1960.

Quando Tutawa perdeu os primeiros dentes de leite, seu grupo de parentes, liderado por seu pai, Wapotxi, teve que abandonar a gruta em que se refugiava ao norte da Ilha do Bananal, no Pará. Tutawa ainda não tinha completado 20 anos, não era casado e nem tinha filhos quando seu pai foi assassinado por um branco, por volta de 1950, cabendo a ele assumir o seu lugar. O líder Ãwa tradicionalmente tinha a função de guiar e proteger o grupo, decidindo quando e para onde se mudar, tarefa assumida exemplarmente pelo novo líder. O exercício da liderança foi acompanhado da responsabilidade de alimentar os mais jovens, que ainda não tinham a habilidade de caçar ou que tinham perdido seus pais. Tutawa guiou seus parentes por uma vasta região, dirigindo-se cada vez mais para o sul e em condições cada vez mais difíceis, pois o cerco dos moradores regionais se intensificou consideravelmente nos anos que se seguiram. A Ilha do Bananal e o interflúvio entre o Rio Javaés e o seu principal afluente, o Rio Formoso do Araguaia, habitados pelos Avá-Canoeiro desde as últimas décadas do século 19, foram escolhidos como a principal área de movimentação.

Diante da perseguição incessante pelos novos colonizadores, em que os Avá muitas vezes foram obrigados a abandonar os corpos dos parentes mortos durante a fuga desesperada, por muitos anos a rotina caracterizou-se por um eterno deslocamento de acampamento em acampamento, instalados em lugares inóspitos. O grupo de adultos, crianças e velhos optou por caminhar principalmente durante a noite por questões de segurança. As pessoas dormiam ou se mantinham em silêncio durante o dia em áreas de difícil acesso, comunicando-se muitas vezes com assobios de pássaros. Os Avá-Canoeiro do Araguaia andavam distantes das margens dos grandes cursos d’água, em lugares mais interioranos, fugindo dos ataques dos brancos e dos povos Javaé e Karajá. Com a perda da possibilidade de praticar a agricultura, a alimentação se restringiu a carne de caça, basicamente, ou de bois e cavalos, ocasionalmente, e aos frutos e raízes coletados durante as caminhadas. Algumas vezes ficaram sem caçar, jejuando por dias, diante da vizinhança ameaçadora dos fazendeiros.

Os 14 sobreviventes que chegaram à Mata Azul, localizada dentro da imensa Fazenda Canuanã, por volta de 1967 ou 1968, integravam um grupo de parentes próximos, reduzidíssimo em comparação ao que o menino Tutawa conheceu em sua infância. O Capão de Areia, habitado pelos porcos selvagens, seu alimento predileto, e único local a salvo da inundação nas enchentes anuais, tornou-se o principal refúgio do grupo. Durante o breve, porém intenso e dramático período em que viveram na Mata Azul e nas regiões vizinhas, os Avá-Canoeiro do Araguaia foram caçados como animais selvagens pelos moradores regionais sem trégua, incluindo os vaqueiros da Fazenda Canuanã, dos irmãos Pazzanese, saga que culminou com a sua captura pelos agentes do Estado. Na época, a Fundação Bradesco manifestou interesse em se estabelecer em uma zona rural, iniciando uma parceria com os proprietários da fazenda, o que coincidiu com a instalação da Frente de Atração pela Funai para encontrar os índios que incomodavam os fazendeiros da região.

Tutawa tinha cerca de 40 anos quando foi “contatado” pela Funai. foto: Klaus Gunther
Apesar de todos os prognósticos em contrário, em que acadêmicos, jornalistas e indigenistas declararam a iminente extinção do grupo, os Ãwa conseguiram se reproduzir como um povo único e em crescente expansão

Os Avá-Canoeiro lembram que Tutawa sempre enfrentava os inimigos destemidamente, tentando proteger os seus familiares. Enquanto os outros corriam para se esconder dos ataques, ele procurava algum lugar a salvo, de onde pudesse enxergar seus adversários para atingi-los com as flechas mortais que ficaram célebres na região e na literatura. Foi assim também quando a Frente de Atração encontrou o grupo no Rio Caracol, em 1973, então reduzido a apenas onze pessoas, e entrou atirando no acampamento de supetão, matando uma criança. Depois dos tiros e dos fogos de artifício, parte do grupo conseguiu fugir, enquanto outra parte permaneceu no lugar a contragosto, seguindo a liderança de Tutawa, que decidiu se entregar, não porque confiou nos sertanistas, conforme o boletim oficial mistificador e inverossímil produzido no auge dos governos militares, mas porque foi solidário com sua esposa e seu filho pequeno, os mais frágeis do grupo, que haviam sido capturados à força.

O restante do grupo – quatro pessoas em estado de saúde deplorável, conforme os relatórios médicos da época – foi contatado em 1974, com a ajuda de um dos caçadores de índios da Fazenda Canuanã, que foi integrado à equipe, e do próprio Tutawa, que foi induzido a acreditar, equivocadamente, que poderia viver em paz em seu território se colaborasse com os sertanistas. A Funai não cumpriu a sua parte no acordo e ele acabou interiorizando por muitos anos uma culpa indevida pelo fato de ter atraído os remanescentes Avá para a nova realidade.

O horror dos anos passados seria substituído agora pela grande derrota na guerra travada pelos Ãwa com os colonizadores desde o século 18, pelo menos, quando os antepassados do grupo do Araguaia foram encontrados e atacados nas cabeceiras do Rio Tocantins. O povo que mais resistiu ao contato com o colonizador no Brasil Central, segundo a literatura histórica, recusando-se terminantemente a estabelecer relações pacíficas, interpretou o contato como uma “captura” pelos inimigos, representados pela Frente de Atração da Funai e os fazendeiros da região, e o que se sucedeu como o cativeiro do qual ainda não se libertou.

O pior ainda estava por vir. A outra metade da vida, Tutawa viveu lidando - de cabeça erguida, é preciso destacar - com as consequências devastadoras da derrota imposta pelo inimigo, juntando os fragmentos do que restou de seu povo para não perder o fio da meada que ligava os antepassados à nova geração nascida após o contato. O guerreiro e também pajé tornou-se a ponte entre o passado e o futuro do povo Ãwa.

Durante os quase três anos em que viveram nas terras da Fazenda Canuanã, supervisionados pela Funai, os Avá-Canoeiro foram vítimas de abusos físicos e emocionais diversos, os quais compõem uma memória traumática do grupo. Tanto os Javaé quanto os moradores regionais lembram-se muito bem do cercado em que os Avá foram colocados e expostos à visitação pública na fazenda, durante semanas, atraindo a curiosidade dos que queriam ver os “índios pelados”. E tanto os Javaé quanto os Avá lembram-se com nitidez do período em que foram forçados a conviver na Mata Azul pela Funai, que desconsiderou o fato básico de que os dois grupos eram adversários históricos, com uma memória viva das mortes recíprocas no passado. Os Javaé, habitantes imemoriais do Araguaia, que compartilhavam um mesmo território com os Avá-Canoeiro desde o século 19, foram levados pelos sertanistas a servir de guardas e “amansadores” dos índios capturados, que, no entanto, contaram sempre com a orientação e a proteção de Tutawa.

Em 1976, com uma decisão repentina e autoritária, a Funai impôs a transferência dos sobreviventes para a aldeia Canoanã, dos Javaé, com cerca de 400 pessoas. Dos onze Avá-Canoeiro que restaram na Mata Azul, seis faleceram nos três primeiros anos depois do contato. Reduzidos a cinco pessoas, os Avá foram assimilados pelos Javaé em uma tradicional categoria social de cativos de guerra, em uma posição de subalternidade. O resultado, nos longos anos que se seguiram, foram graves restrições alimentares e variadas formas de marginalização social e econômica, como o celibato forçado ou relacionamentos breves, violentos e estigmatizados, imposição de nomes pejorativos, proibição de praticar a agricultura e trabalhos braçais, entre outras. Paralelamente, a Fundação Bradesco impediu Tutawa de continuar abatendo bois na fazenda, oferecendo em troca pão e leite diários e as cabeças de bois e porcos que são destinadas ao lixão, instalado em uma antiga área de caça do grupo.

Mesmo assim, apesar de todos os prognósticos em contrário, em que acadêmicos, jornalistas e indigenistas declararam a iminente extinção do grupo, os Ãwa conseguiram se reproduzir como um povo único, por meio de uniões com os Javaé, Karajá e Tuxá, somando mais de 20 pessoas atualmente, em crescente expansão. O pajé Tutawa cuidou com afeto e dedicação exemplares da educação de seus descendentes, ensinando a língua, práticas rituais e batizando todas as crianças que nasceram após o contato com os nomes dos antepassados, conforme a tradição Ãwa. Foi ele também quem liderou o grupo, por mais de 20 anos, na recusa irredutível em abandonar a região do Araguaia, com a qual mantém ligações profundas de variadas ordens, enfrentando o projeto persistente de um convênio indenizatório e milionário entre Funai e Furnas de transferi-los para uma terra indígena no Rio Tocantins¹.

Nos últimos anos, os Avá-Canoeiro do Araguaia uniram-se mais do que nunca e dedicaram-se à retomada de parte do território tradicional, obtendo em 2012 o reconhecimento oficial da Terra Indígena Taego Ãwa (TO), que foi nomeada por Tutawa e aguarda a portaria declaratória do Ministério da Justiça.

Ainda morando fora da terra, contudo, os Avá-Canoeiro foram impedidos pelos moradores que ocupam parte da área reivindicada por eles – e que também foram vítimas de uma política equivocada do Estado² – de enterrar o velho guerreiro no Capão de Areia.

Mas os Ãwa agora têm um futuro e o mito profético diz que eles retornarão para casa.

*Patrícia de Mendonça Rodrigues é PhD em Antropologia e foi coordenadora dos grupos técnicos de identificação e delimitação das Terras Indígenas Javaé/Avá-Canoeiro e Taego Ãwa
¹ Terra Indígena Avá-Canoeiro (GO), inundada pela hidrelétrica de Serra da Mesa, dos Avá-Canoeiro do Rio Tocantins, que foram contatados em1983 pela Funai, mas com os quais o grupo do Araguaia não reconhece nenhum vínculo histórico, mitológico ou biológico.
² Trata-se dos posseiros do atual Assentamento Caracol que, anteriormente, ocupavam o Parque Indígena do Araguaia e foram transferidos e assentados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)/Funai nos anos 1990 em uma área de ocupação tradicional dos Avá-Canoeiro, que havia sido vendida pela Fundação Bradesco/Fazenda Canuanã para terceiros.

TI Taego Ãwa: DEMARCAÇÃO JÁ!

Depois de décadas de abusos e perseguições, os Avá-Canoeiro do Araguaia finalmente tiveram a Portaria Declaratória de sua terra tradicional assinada em maio de 2016. A demarcação da TI Taego Ãwa, contudo, encontra-se ameaçado pela articulação dos ruralistas que exigem do governo interino a revisão da Portaria. Saiba mais e ajude a impedir este retrocesso:

www.cimi.org.br/ava-canoeiro