A ignorância é uma bênção. Em tempos de Facebook, mais ainda

Ontem, cometi suicídio na rede de Zuckerberg pela segunda vez. É um termo aparentemente pesado, mas no mundo de hoje essa acaba sendo uma analogia quase inevitável. Prova disso é a frase que ouvi de uma amiga, cerca de um ano e meio atrás (não a lembro de cor, mas era algo bem próximo disso): “eu não gosto tanto assim do Facebook, mas lá é onde todas as coisas acontecem, então é bom ter um [perfil naquela rede]”.

Ênfase, por favor, na frase “[…] lá é onde todas as coisas acontecem […]”. Pela fala dessa amiga, o Facebook é uma dimensão paralela da vida. Logo, não é tão bizarro assim usar a analogia de suicídio para definir a exclusão do próprio perfil naquela rede. Não a culpo por esse pensamento; antes, eu penso que é algo generalizado e, hoje, chega a ser surpreendente encontrar quem não pense dessa forma.

No entanto, como a própria fala dela confirmou, há quem mantenha um perfil no Facebook a contragosto. Eu era uma dessas pessoas — e muito embora eu mantenha perfis em outras redes sociais, o Facebook me provocava uma aversão particular. Você pode me perguntar “mas por quê? Qual a diferença do Facebook para as outras redes? Não são também lugares de livre expressão de pensamentos e sensações que, muitas vezes, irão contrárias às suas?”.

Mas — agora tudo o que digo é baseado na minha própria opinião e experiência — aparentemente a etiqueta que rege o Facebook é caracterizada pela necessidade constante de expor os próprios pensamentos e validá-los através das curtidas (e reações, agora) dos amigos (que, em sua esmagadora maioria, são meros conhecidos).

No Twitter, pode-se criar uma espécie de alter ego e é o típico lugar onde se “fala sozinho” — ou seja, nem tudo que é dito ali precisa ter peso. Na maioria das vezes, são aleatoriedades que pouco merecem ser levadas em consideração ou o esforço de uma reply.

No Instagram, muito embora uma imagem diga mais do que mil palavras, elas não necessariamente são postadas no momento em que são tiradas (ao contrário do que o nome da rede sugere) e podem, por vezes, favorecer uma veia muito mais “artística” do usuário em termos de imagem, através de fotografias com cores combinadas entre si ou posts descompromissados com o tempo e a conjuntura presente.

Em suma: no Twitter e no Instagram, é mais possível fugir da realidade. No Facebook, não. Lá, o tempo todo se fala para uma plateia (que nem sempre entenderá seu ponto de vista) e a vida real é mostrada o tempo todo — e, às vezes, quase em nuances distópicas.

Houve um tempo em que a moda era mostrar o tempo todo a própria felicidade. Hoje, a moda é mostrar — não importa o humor ou a circunstância.

E agora, finalmente, chegamos à razão do título desse texto. Será que precisamos mesmo saber que aquela pessoa está esperando um atendimento na fila do posto de saúde há 45 minutos e que ela bateu boca com a atendente?

Será que precisamos acompanhar cada detalhe da relação amorosa entre duas pessoas como se aquilo fosse uma minissérie da Globo?

Será que precisamos saber que a pessoa fez check-in em determinado lugar com Fulano de Tal?

Cena de “The Voice”, episódio 31 da 2ª temporada de O Incrível Mundo de Gumball (2013)

Será que precisamos colocar em dúvida a reciprocidade de nossos sentimentos por determinada pessoa porque ela curtiu a nossa foto, mas reagiu com “amei” à de outra pessoa?

Não pretendo, com essas perguntas, convencer o leitor a abandonar o Facebook ou mesmo a pensar como eu. São apenas questionamentos que levanto para contestar as informações (às vezes extremamente pessoais) que recebemos de amigos e conhecidos e o impacto que elas podem causar em nossas vidas e relações com eles.

“Mas Cindy, para não ver certas coisas é só desfazer a amizade ou bloquear a pessoa”.

E se a pessoa em questão for uma que você ame? Ainda que ela de fato tenha batido boca com a atendente do posto de saúde ou feito check-in em determinado lugar, não é muito mais interessante ouvir aquilo da boca dela do que vê-lo estampado num feed de notícias, onde todo mundo pode dar pitaco e opinar às vezes sem saber da missa a metade? E ainda que ela escolha não me contar aquilo ou se esqueça disso, vai fazer alguma diferença real na minha vida?

A Rede Social (The Social Network) — Columbia Pictures, EUA, 2010
Será que precisamos mesmo saber de tudo da vida de todo mundo a todo momento?

Eu não preciso. E por isso cometi suicídio no Facebook. Porque, às vezes, a ignorância é sim uma bênção.

No entanto, eu me sinto bem mais livre depois disso.

E, consequentemente, mais viva.

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