Por que Easy A é um filme sensacional — e por que é um tapa com luva de pelica
Eu assisti à ascensão de Emma Stone em Hollywood. Eu a vi pela primeira vez aos 14 anos em Zombieland, numa matinê no cinema, acompanhada de um amigo que fazia tênis comigo na época, numa tarde calorenta de fim de ano. Naquele tempo eu não imaginaria que anos mais tarde Stone ganharia um Oscar de Melhor Atriz por La La Land (que, coincidentemente, eu também assisti no cinema, mas numa sessão noturna acompanhada de uma amiga de infância, e chovia muito naquela noite de fevereiro), mas vi a atriz que ela se tornou e, dessa maneira, ganhou minha admiração.
Sensação semelhante me ocorreu sobre Easy A, protagonizado por Stone. Não fazia muito tempo desde Zombieland quando assisti Easy A pela primeira vez; assim, nesta ocasião, eu apenas enxerguei o filme como uma comédia sensacional. Acima da média, até — e as principais razões para isso eram o humor afiado de Olive Penderghast, a personagem de Stone, e o elenco incrível (com a maravilhosa Lisa Kudrow)— , mas não refleti tanto sobre isso a princípio.
Mas, como não poderia deixar de ser, meu hábito incorrigível de assistir ao mesmo filme várias vezes (e fazer o mesmo com livros) me fez chegar a novas conclusões sobre Easy A. Defendo ferrenhamente que esse hábito sempre faz o leitor/telespectador descobrir coisas novas sobre o que ele consome. Desta vez, não foi diferente: muito mais do que uma personagem com humor afiado, Olive é extremamente inteligente — e explico-lhes o porquê.

Vamos ao enredo do filme: Olive Penderghast é uma garota de 17 anos que passa despercebida pelos corredores de sua escola em Ojai, California, uma cidade miudinha com cerca de 7.500 habitantes. É curioso que, numa cidade em que provavelmente todo mundo se conhece, uma garota tão inteligente e bonita quanto Olive passe incólume, certo?
Contudo, era assim. Isso até que começa a correr na escola dela um boato de que Olive teria perdido a virgindade. Apenas isso. Um fato corriqueiro para a maioria de nós — e provavelmente para as pessoas do círculo social de Olive — , mas ela não passou ilesa por isso. De onde surgiu o boato? Olive tentou explicar “trocentas” vezes: ela não queria acampar com a família hippie e nudista da melhor amiga Rhiannon, e inventou apenas que tinha saído com um moço (imaginário, é claro) no fim de semana em que o acampamento ocorreu. Rhiannon, impulsivamente, ligou os pontos e assumiu que a amiga teria transado com o tal moço — o que Olive veementemente tentou desmentir, sem sucesso. Coagida, ignorada pela amiga, sem chance de se explicar, Olive começou a dar corda para a conclusão de Rhiannon: inventou detalhes e caprichou neles. Afinal, era o que Rhiannon queria ouvir, certo? A vida sexual de Olive era extremamente importante para Rhiannon ainda que isso não lhe dissesse respeito em primeiro lugar, não é mesmo? Olive apenas seguiu o fluxo. Como qualquer um de nós faria com uma pessoa que não está disposta a ouvir nossa argumentação: “é sim, claro, você tem toda a razão, você está certíssimo”. Vencidos pelo cansaço, tentamos apenas sair daquela conversa infame e esperar que o assunto morra ali mesmo.
Porém, para o azar de Olive, o assunto não morreu ali. A cristã fanática da escola, Marianne Bryant, ouviu por acaso a conversa de Olive e Rhiannon no banheiro. Guiada pelo próprio fanatismo religioso, Marianne ficou horrorizada com a história de Olive — que, devemos lembrar, era uma garota que ninguém notava até então. Provavelmente nem mesmo Marianne. Antes disso, Olive devia ser apenas mais uma colega que Marianne conhecia por nome, sabia quem era, mas nada além disso. Porém, de repente, a suposta perda da virgindade de Olive passou a lhe dizer respeito, porque ia de encontro ao que ela acreditava — e, portanto, era algo errado. Real ou não, era errado e devia ser combatido pela raiz. Assim, o que Marianne faz? Espalha o boato para toda a escola. Provavelmente não com a intenção deliberada de prejudicar Olive, mas sim para provar o próprio ponto de que sexo antes do casamento é condenável aos olhos de Deus e, assim, sua colega se tornava a representação de uma juventude falida e sem Deus no coração.

Mas os colegas, não tão religiosos quanto Marianne, adquiriram um repentino interesse por Olive, a ex-garota-que-ninguém-notava. Marianne apenas acendeu a fogueira, e os colegas se reuniram em volta. Ou, melhor dizendo: Rhiannon cortou a lenha, Olive a juntou (coagida, é claro), Marianne acendeu o fósforo e os colegas se achegaram. Olive, agora, passou a ser uma garota conhecida na escola graças ao seu suposto ingresso num “universo de vadias” (porque, afinal, uma garota do ensino médio que transava e tinha sua história espalhada não era outra coisa na visão dos colegas).
Porém o que ninguém esperava era que Olive seria mais esperta que a maioria. (E como poderia? Afinal, ninguém sabia direito quem era Olive Penderghast). Ao invés de tentar desmentir a opinião popular — afinal, ela já tentara fazer isso com Rhiannon, sem sucesso — , Olive resolveu dançar conforme a música. É aí que entra minha teoria primordial sobre Easy A: todo o filme gira em torno de um experimento social deliberadamente realizado por Olive, em que, no caso, ela se colocou como cobaia. Ou, melhor dizendo, como o catalisador do objeto de análise (no caso, seus colegas e seu círculo social como um todo). Olive colocou a própria reputação na reta e chegou a conclusões brilhantes sobre o meio em que estava inserida.
O primeiro passo dela foi fingir transar com Brandon durante uma festa à qual (quase) toda a sua escola compareceu. Por que ela fez isso? Porque Brandon era gay e sofria bullying por isso; assim, ele queria “provar” o contrário aos seus amigos ao transar com a garota-recém-notada-por-todos. Com o bom coração que tinha (ou, talvez, vendo a oportunidade de provar um ponto crucial), Olive concordou. Fingiu chegar bêbada com Brandon à festa, se trancou com ele num quarto e fingiu fazer sexo com ele enquanto os convidados ouviam atrás da porta, tentando enxergar pela fechadura.
Alguém viu o que aconteceu? Não. O que eles ouviram era condizente com uma cena de sexo? Era. Mas era, de fato, uma cena de sexo? Não. Olive e Brandon fizeram toda a sonoplastia e pularam na cama, mas ficou nisso. Olive, aliás, era experiente nesse tipo de fingimento: anos antes, ela fingiu, numa ocasião similar, ter beijado o amigo Todd para que ele ficasse bem falado na escola (não obstante, Olive queria ter beijado Todd). Assim, da mesma forma com que ela contou a história de sua suposta perda de virgindade para Rhiannon, a garota caprichou nos detalhes. Afinal, adiantaria ela dizer o contrário? Alguém a ouviria? Seus colegas já estavam de conclusões prontas, assim como Rhiannon no início do filme. Assim, começa a espetacular dança de Olive conforme essa música socialmente horrível: ela deixa o quarto acompanhada de Brandon — inclusive entregando a ele sua calcinha como troféu. Brandon saiu como herói. Ela, mais ainda como a “vadia” da escola.
Provavelmente isso seria o suficiente para abalar uma garota emocionalmente mais frágil. Mas não Olive. Ela sabia o que estava fazendo, o tempo todo. Ela estava convicta das próprias atitudes, independente do que os colegas achavam. Ela continuou a questionar o falso moralismo vigente das pessoas em sua escola, mas sabia que isso não adiantaria com palavras. Por isso ela entrou, de corpo e alma (antes, de corpo e vestimenta) na personagem que lhe era atribuída. Assim, ela começou a usar roupas que lembravam lingerie e pregou uma letra A vermelha de papel na própria blusa, uma referência ao livro A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, que seu professor de Literatura abordava com sua turma naquela mesma época. A personagem principal da história também fora vítima de boatos de caráter sexual e fora menosprezada pelos seus semelhantes, muito embora fosse muito mais virtuosa que eles em vários sentidos — tal como Olive. É interessante lembrar que a letra A, no livro, é usada num teor condenatório: Hester, a caminho do pelourinho, usa uma roupa com a letra bordada em linha vermelha. Olive a usa da mesma forma: todo dia, ela era colocada no pelourinho pelos seus colegas. Era acusada de “crimes” que não diziam respeito a mais ninguém além dela mesma. Era tratada apenas como um objeto, um degrau na ascensão social, por todos os garotos que a subornaram com vale-presentes para dizer que ela havia dormido com eles. Da mesma forma, Hester fazia várias coisas pelas pessoas da mesma cidade que a condenou, mas ninguém se importava com quem ela realmente era ou se preocupava em agradecê-la. A cidade — tal qual a escola de Olive — era regida por um falso moralismo. No livro, tal moralismo era encarnado no clérigo Dimmesdale, o pai da filha de Hester, que dizia não poder confessar o pecado que cometera (não precisamos ir muito longe: há a questão do voto celibatário na Igreja Católica. Os mais catastróficos podem pensar em estupro). No filme, na conselheira Griffith, justamente… a esposa do professor de Literatura, o favorito de Olive. Isso é fortemente evidenciado na cena em que a senhora Griffith chama Olive para conversar em sua sala, sem, entretanto, conseguir apontar com precisão o “erro” que Olive estava cometendo, apenas dizendo que “os professores estão preocupados” e tentando dar camisinhas à garota com o argumento de “não quero que essa fase defina a sua vida”. Olive, serenamente, apenas questiona a conselheira se ela está encrencada — ao que Griffith desconversa. Ela não está. Nunca esteve — pelo menos não do ponto de vista pedagógico. Nem mesmo do social, já que Olive jamais fez algo real para dar veracidade aos boatos veiculados sobre ela. Mas as pessoas insistiam em ver nela um pecado, um desvio de comportamento, sem qualquer prova concreta, guiadas pelo próprio falso moralismo.

Afinal, era da conta de alguém Olive ter ou não ter dormido com alguém? Dizia interesse a alguém além dela mesma o que ela vestia? Não e não. Isso não livrou Olive de perder os poucos amigos que tinha e de ser perseguida pela fanática Marianne — mais ainda depois que o namorado de Marianne, um estudante repetente de 22 anos chamado Micah, passa a manifestar sintomas de clamídia. Clamídia, devemos lembrar, é uma doença sexualmente transmissível. Se Marianne, por razões religiosas, tinha um pacto de não fazer sexo antes do casamento, quem poderia ter passado a doença ao namorado dela? A resposta: a conselheira Griffith, que além de adulterar o próprio marido, envolveu-se com um estudante da escola em que trabalhava. Mas Micah, ao ser veementemente questionado pela mãe na cama do hospital, gritou o nome de Olive Penderghast. E quem duvidaria dele? Afinal, ela não era mesmo uma vadia? Não era o que todos diziam? Não era o que ela mesma fazia parecer?
A perseguição a Olive torna-se mais enfática, a ponto de ela tentar buscar aconselhamento com um padre e depois com um reverendo para saber se ela estava pecando (mas desiste ao ver que o tal reverendo é o pai de Marianne). Tudo piora quando Anson, um garoto na escola, pretende recompensar Olive objetivando que ela durma com ele, e não apenas fingir. À recusa de Olive, o menino se frustra e a xinga de todos os nomes possíveis — e nisso Olive chora, parecendo chegar à realização do que ela estava se tornando aos olhos dos outros. Seu experimento social acabava ali. Seu ponto de saturação chegou. Sua reputação de “vadia” estava consolidada, e os outros apenas queriam deitar e rolar nela, visando apenas benefício próprio, um “A” fácil, uma nota 10 no seu círculo social à custa dos sentimentos de outra pessoa tratada como meio para um fim, um simples objeto. Tal como Hester.
Mas, diferentemente do senso comum que permeava os colegas de Olive, o bom senso ainda prevalecia sobre alguém. Este era ninguém menos que Todd, o garoto que Olive fingira beijar atrás da porta anos antes. Ele era, de fato, o único conhecedor de Olive ali. O único que ousou questionar os boatos e o que efetivamente aconteceu atrás da porta. E por quê? Porque ele já estivera ali, mas não tinha do que se vangloriar na época — afinal, como Olive bem pontuou no início, “ninguém ligava para quem havia beijado, só para quem transava”. Apenas Todd, tanto quanto Olive, sabia o quanto aquilo era vazio. E ele de fato quer estar com ela pelo que ela é — e que, aparentemente, só ele consegue enxergar. Ele e, claro, a maravilhosa família de Olive, que desde o início parecia saber o que ela estava tramando (embora passasse por eles a sombra de desconfiança também).

É por tudo isso que Olive mergulha uma última vez na sua reputação de vadia e convoca a escola toda a assisti-la na webcam onde ela conta a sua história, tintim por tintim. Tal exposição foi um tapa com luva de pelica na sociedade falida de sua escola, o passo final na maravilhosa dança conforme a música horrível que lhe fora imposta. Olive jogou na cara de todo mundo o quão vazio cada um deles era. Ela demonstrou, com maestria, o quanto as mesmas palavras que lhe foram impedidas de dizer em sua própria defesa foram as que impulsionaram seus colegas a chegarem a conclusões falsas sobre ela. Apenas palavras, apenas boatos. Ninguém viu, ninguém realmente sabia de nada. Mas construíram e destruíram reputações com base em palavras facilmente distorcíveis. Seu experimento social deu totalmente certo.
Easy A é, em si, um tapa na cara de todos nós. Quem seríamos nós naquele filme? Olives bem resolvidas, questionadoras, que trazem verdades inconvenientes e que ninguém quer ouvir, por estarem aferrados à própria cegueira? Mariannes que apenas acendem a fogueira, orientadas pelo próprio moralismo — este, que só alcança aqueles que partilham dos mesmos valores que ela? Todds, que não compram gato por lebre e sempre procuram ouvir a mensagem que as Olives querem transmitir por terem conhecimento pleno de causa? Rhiannons, que só ouvem o que querem? Ou apenas mais um dos garotos, que seguem o fluxo querendo uma aceitação vazia em seu círculo social?
Qual é a posição que tomamos nesse mundo caótico de hoje? Nos agarramos a palavras vazias ou buscamos a verdade por trás delas? Ligamos os pontos e lançamos conclusões sem nos importar com o que estamos propagando, e com as vidas que estamos afetando? Buscamos de fato ouvir as pessoas, ou só queremos ser ouvidos à custa da história delas? A quem serve o moralismo do outro ou da sociedade? Cuidamos mais do que deveríamos da vida alheia? Easy A nos faz todas essas perguntas. Por isso mesmo é um filme extremamente inteligente, com uma protagonista cativante e igualmente inteligente, que, ao questionar a ordem vigente de seu contexto fictício por trás de sua webcam, parece questionar a todos nós.
Olive Penderghast, a verdadeira merecedora do A nessa lição.

