Reaprendendo a viver com a morte de uma parte de você

Desde a morte do meu pai, há 5 meses, a vida me mostrou várias coisas que, antes, muito segura em minha zona de conforto, não quis admitir.
Pra começar, guardei 15 anos de tristeza, sensação de abandono e saudade e resolvi expressar da pior forma possível, na última vez que falei com meu pai ao telefone. As últimas palavras que ele ouviu da minha boca foram “eu não quero mais você na minha vida.”
O universo, às vezes muito literal, ouviu minhas palavras e fez delas uma verdade, algo concreto e muito doloroso.
A última vez que ouvi a voz do meu pai foi na pior briga que tivemos, porque guardei 15 anos de angústia só pra mim. E o pior, acreditei que ele soubesse, na minha cabeça ele deveria saber, afinal era meu pai.
Pequei em reconhecer que, assim como eu, ele era uma pessoa, com sentimentos complexos, traumas, e seus próprios demônios.
Pequei em reconhecer que nunca tendo demonstrado para ele como me sentia durante todos esses anos, ele não teria como saber.
Pequei em não ter tentado falar com ele mais vezes após nossa briga.
Mas, antes de ir, dois meses antes de me deixar devido a complicações cirúrgicas, ele mandou uma mensagem dizendo que me amava incondicionalmente, pediu perdão por ter sido um pai ausente e me pediu perdão por não saber disso antes.
Ali me dei conta do quão injusta, intolerante e impaciente eu fui.
Depois disso não nos falamos mais, em meu orgulho esperei que ele entrasse em contato antes da cirurgia. Mas ele não falou.
E assim ele se foi sem que eu pudesse me despedir. Sem que eu pudesse dizer que eu o perdoava e que também precisava de perdão. Ele se foi sem eu poder falar que ele sempre foi e sempre será uma das minhas pessoas preferidas.
Então aqui estou eu, falando pro “mundo” e esperando que de alguma forma ele consiga me ouvir (ou ler). Aqui estou eu agradecendo:
Obrigada por ter feito eu me apaixonar por cinema desde criança, algo que moldou minha vida e minha forma de enxergar o mundo. Obrigada também pelas músicas que me apresentou e como sempre que quero te sentir mais perto, ouço Aerosmith — estou ouvindo agora, enquanto te escrevo.
Obrigada por todas as gargalhadas escandalosas (que herdei de você), todas as lutinhas, ovos mexidos com bacon (que era a única coisa que você sabia cozinhar ), todas as horas ao telefone (que como você mesmo dizia, falava mais do que maritaca na panela).
Gostaria de agradecer também pelo aprendizado que deixou quando se foi, de ser mais aberta a como as pessoas se sentem, a me fazer aprender (de uma forma torturante, mas eficaz), que precisamos falar sobre nossos sentimentos para que as pessoas os reconheçam.
E preciso agradecer por todas as comidinhas gostosas que comprava pra mim, por me levar pra comer bolo sempre que eu queria, e por ter me comprado as empadinhas que eu amava quando criança na última vez que nos vimos, que é como quero lembrar da nossa relação: você era meu melhor amigo, uma pessoa feliz, de sorriso lindo e contagiante e, apesar de todos os defeitos que pudesse ter, uma pessoa bondosa, com um coração gigante e o melhor abraço do mundo.
Só agora fui capaz de começar a escrever sobre você pai, mas pretendo fazer disso um hábito, não somente como uma forma de lidar com sua ausência, mas para homenagear sua saudade e a pessoa que você fez com que eu me tornasse.
Te amo, obrigada, espero que você esteja bem. Até a próxima!
