“Tempos Modernos” — Charles Chaplin

Juizes tecnicistas de cinema— Ou, ‘como eles acham que a arte deve ser’

O que acontece quando uma visão demasiado técnica te impede de aceitar e entender a imperfeição de uma narrativa que foge dos padrões
Tecnicismo — [Do técnico + ismo] substantivo. Abuso da tecnicidade

As técnicas de roteiro existem por um bom motivo. São encurtadores de caminho. São faróis para os quais o roteirista deve olhar quando está perdido na livre escrita. As técnicas servem para compor e diagnosticar problemas de estrutura, ritmo, personagem, etc.. E existem diversos teóricos com diferntes técnicas, com diferentes visões de como deve ser um roteiro, algumas conflitantes. O que não existe é uma lei pétrea sobre como deve ser um roteiro. O mais próximo disso são estatísticas de histórias com estruturas mais ou menos funcionais.

Quero comentar sobre algo que me incomoda nos que estudam e se apegam às técnicas de cinema. Eu mesmo já estudei vários “guias”: Doc Comparato, Syd Field, Robert Mckee, David Mammet. Todos com boas idéias, ótimas soluções e visões diferenciadas sobre a criação do roteiro. Eles oferecem caminhos que se comprovaram úteis na construção de boas histórias.

Só que se você fixa seu olhar em acreditar que tudo o que está dentro da técnica é o certo, e tudo que distoa da técnica é errado, você cai num binarismo que te impede de apreciar a criação artística de forma completa. Se fosse assim, os melhores filmes seriam sempre os filmes tecnicamente mais bem acabados em todos os sentidos. Mas isso não é verdade.

Isso porquê a criação artística está acima da técnica, e as técnicas entram em segundo lugar, com o objetivo de auxiliar a criação artística. A técnica é subjulgada à criação e não o contrário. Se fosse o contrário, não haveria mais a necessidade de criação de novas técnicas constantemente, todos os dias, para todas as áreas da criação. Quando se esgotam as possibilidades, a arte morre, sobra, talvez, a publicidade a criação industrial que se esgotam rapidamente se não tiverem experimentalismo externo para sugar.

Não quero aqui defender uma arte hermética, inacessível e nem muito menos atacar a técnica. Eu sou adepto da técnica, mas também sou adepto do improviso e da busca pela “sujeira” quando chega a hora.

Reinvenção constante

O que é fascinante, em certos artistas, é a capcidade de reinvenção e desapego. Quando se tornam peritos na técnica, passam a buscar o exato oposto, a vivacidade da imprecisão técnica. Isso porquê quando a técnica domina o olhar, ela se torna um prisma com o qual se interpreta o mundo, isso cansa. Desafinar o instrumento, manchar a tela, escrever uma cena que não impulsiona a história mas que adiciona apenas poesia e lirismo a cena, ou no caso de atores, inserir cacos propositais na interpretação — são exercícios propositais de imprecisão e imperfeição que enriquecem a obra.

Não é a toa que de tempso em tempos, os artistas necessitem de reinvenção. E quando isso acontece, as velhas técnicas se tornam antiquadas, caem novamente em um momento de experimentação e descoberta. E para certos caminhos artístisticos não existem técnicas prontas, como você vai dizer que ele está errado? Artistas precisam de ressurreições para não perecerem no cemitério das clichês e das auto-referências.

Status quo da arte

Alguns vivem a margem de qualquer padronização estética. Somos diariamente bombardeados com imagens e sons nos ditando como a vida deve ser, e por consequência criando uma espécie de status quo da arte. Essa “arte aceitável” que consumimos com facilidade não é algo ruim, mas pode ser alienante quando o público se fecha para algo que não se encaixe nesses padrões.

Então, quando você se vicia na normatividade e se torna um tecnicista porquê estudou alguns manuais de roteiro, você pode se ver tentado a enquadrar sua “leitura filmica” dentro dos manuais estabelecidos, e tudo o que estiver fora dessa norma está errado. Você caiu no erro de subordinar a arte pela técnica, como se ela pudesse ser contida dentro desse universo. Guias de roteiro não são bíblias, desobedecê-los não é pecado, não existem mandamentos. Pelo contrário, transcender as regras existentes são renovações.

Chaplin. Ele criava suas gags diariamente, sem script. Na base do erro e acerto construia a narrativa dos seus filmes. Sem guiões, a obra está viva até hoje.
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