“Tudo que a gente quer é amor, tudo que a gente precisa é sintonia”

Num daqueles momentos em que a gente perde um pouco o chão tamanhas as dificuldades de encontrar o equilíbrio numa relação — seja ela entre amigos, familiares, parceiros, enfim — uma amiga descontraidamente me disse, há tempos, como se nada fosse, feito ministrasse um analgésico sem muita fé, “tudo que a gente quer é amor, tudo que a gente precisa é sintonia”. Sempre foi muito sábia a Dani, mas sabedoria E sensibilidade é para poucos, é para ela, sorte a minha. Eu nunca mais esqueci! Sempre cito a Dani em conversas por aí, sei que é um analgésico poderoso, caminho bonito pro entendimento das camadas todas que podem acalentar ou sufocar um sentimento, levo como bússola.

Compreender do que é feito o equilíbrio de uma relação, não é tarefa com ponto final, é tarefa pra uma vida toda, mas nunca ingrata. Se a recompensa não for a que tínhamos em mente, não nos acusemos Sísifos dessa busca eterna… É preciso compreender que compreender envolve sintonia, não só amor. Ler o outro depende, primeiro, do quanto ele deixou a porta aberta e do quanto ele faz questão que você entre. Amor, apesar de grande, pode ser só o que te faz bater à porta, se ela vai se abrir, são outros [com infinitas possibilidades] quinhentos.

Das tantas palavras pelas quais tenho um apreço apaixonado, comungar é das que levo em mais alta conta por esses caminhos e diálogos todos. Quando a gente comunica e compreende, temos uma valiosa passagem para essa comunhão com o outro, para as diversas trocas que se abrem diante de vias de mão dupla. Compreender em sintonia é como doar com o coração tão aberto que antes mesmo que você imagine o quanto seria feliz caso tivesse a sorte da reciprocidade, percebe que outro já se doa de volta. Entrega. Entrega também é uma palavra deveras boa.

Não duvido da capacidade das pessoas amarem, comunicarem, mas sempre vejo grande resistência em compreender, feito almejassem todos uma audiência atenta, enquanto pouco se importam com como ela reage. Uma satisfação, quase gozo ao poderem contar com ouvidos capazes de lhe conferirem razão, mas perdem o rebolado e a estribeira diante de corações curiosos, vivos, inquietos. É na inquietude dos que nos encaram que deveria morar a razão do nosso mergulho, muitas vezes mora só o medo. Não que não assuste, sabemos como o outro pode ser misterioso e assustador, mas comungar com as diferenças e os mistérios alheios é coisa para orientar nosso estar no mundo.

Não é romantismo. Romantismo aliás, tem muito mais a ver com como você idealiza o outro do que com como ele realmente é… É muito sobre como é ou como eu gostaria que o mundo fosse pra mim e sobre como espero que o outro seja nesse meu mundo, mas é quase nada, muito pouco, sobre “nós”. Compreender e buscar sintonia envolve se despir do máximo de expectativas para se permitir surpreender e fascinar com o que vem ao encontro. Romantismo é uma mesa posta com mil talheres e taças enquanto o banquete segue impávido sob a cloche, comungar é comer com a mão. Demanda tempo, dá trabalho, faz sujeira. É mais do que capricho, é dedicação.

Perceber o outro, dar segurança para que ele reaja e se expresse com conforto e naturalidade, pleno de sua complexidade, ser capaz de construir essa ponte, é qualidade preciosa, louvável! Que deveríamos estar mais aptos e abertos para exercitar. Estar à disposição é o primeiro cuidado em si antes mesmo que o outro lhe peça a mão. Estar para o outro com a plenitude ou ao menos com o esforço com o qual buscamos estar para nós mesmos é mais do que amor. Comunicar é amor, mas compreender é sintonia. Obrigada, Dani.