A inteligência emocional vai fazer você ficar mais sábio?

A inteligência emocional (IE) se refere à nossa habilidade de reconhecer e lidar com nossos sentimentos, de sentir empatia, de interagir de forma habilidosa. Pessoas com inteligência emocional desenvolvida conectam-se melhor com sua própria experiência e tem um interesse genuíno em ajudar os outros. Mas a inteligência emocional vai fazer você mais sábio?
‘Sabedoria’ parece um atributo amorfo, difícil de definir, que dirá estudar. Ainda assim, a habilidade de cultivar a sabedoria pode ser vital para o futuro da sociedade, nosso planeta e também para uma vida bem vivida.
A Dra. Vivian Clayton, uma neuropsicóloga geriátrica, definiu ‘sabedoria’ anos atrás e sua definição serviu de base para pesquisas e discussões desde então. Ela descreve sabedoria como a ‘habilidade de compreender a natureza humana, que é paradoxal, contraditória e sujeita à mudanças constantes’. A Dra. Vivian também identificou três habilidades interconectadas à sabedoria: pensamento, reflexão e compaixão. Nossos pensamentos e reflexões podem trazer novos insights e perspectivas, os quais podem levar a uma postura mais compassiva - e efetivamente ajudar aqueles que precisam.
Compreendendo a natureza humana
Como a sabedoria, a inteligência emocional nos ajuda a compreender a natureza humana: ao permitir conhecer-se, entender como outros sentem e vêem o mundo e entender a complexidade dos relacionamentos. Todas essas habilidades diferem do QI (o quociente de inteligência), que mede o pensamento lógico e a habilidade de análise.
Para entender a natureza humana em geral, ajuda imensamente primeiro entender a nós mesmo, e aqui é preciso auto-consciência. Com auto-consciência emocional, reconhecemos nossos sentimentos e como eles nos impactam. Isso ajuda, por exemplo, a falar com o coração e de uma forma que crie identificação com quem estamos falando. Auto-consciência também é a base para o domínio efetivo das emoções e também para a empatia - só podemos entender as emoções dos outros se entendemos as nossas próprias emoções.
Laura Carstensen, da Universidade de Stanford, identificou que a medida em que as pessoas envelhecem eles geralmente se tornam “mais equilibrados emocionalmente e mais hábeis para resolver problemas altamente emocionais”. Isso acontece, em parte, por uma maior consciência da mortalidade e pela apreciação da beleza da vida. Nesse estudo Carstensen também aponta que pessoas mais velhas também são mais propensas a relatar um misto de emoções positivas e negativas, como a felicidade pincelada pela tristeza, o que os ajuda a se recuperar mais rapidamente de extremos emocionais. (É claro que a sabedoria não é exclusiva da velhice, nem é garantida pela idade).
Somada à auto-consciência e ao auto-controle emocional, a empatia é vital para nossa habilidade de estabelecer relacionamentos significativos e compreender a natureza humana. Com empatia podemos apreciar a diversidade de perspectivas, ser mais tolerantes, e ter interações mais harmoniosas.
Inteligência emocional e sabedoria podem conectar-se às nossas relações. Pessoas com alta inteligência emocional e com competências para lidar com relacionamentos dedicam tempo para estarem presentes com outras e para cultivar o respeito mútuo em suas relações. Eles têm um interesse genuíno em ajudar os outros, especialmente àqueles que podem se beneficiar de suas experiências. E eles se destacam no gerenciamento de conflitos ao encontrar pontos em comum. Bonus: relações saudáveis assim correspondem à uma maior satisfação com a vida e mais longevidade.
Cuidado e Conexão
Empatia também permite mais “generatividade”, a atitude de retornar aos outros o que recebeu, tendo interesse e atenção com o bem-estar de outros, especialmente com as gerações mais novas. O termo “generatividade” foi usado pelo psicólogo Erik H. Erikson, que o definiu como um importante traço de sabedoria. Generatividade nos leva a nos importarmos profundamente por aqueles além de nosso círculo familiar ou de amizade. Podemos encontrar convergência mesmo com pessoas cujas vidas diferem muito das nossas, e nos importarmos com eles.
Generatividade vai além da empatia, da compaixão e de doar-se generosamente. Isso inclui devolver - através de meios financeiros, emocionais ou criativos - sem esperar nada em retorno. Pessoas com essa qualidade colocam o bem comum acima de seus interesses próprios. E buscam oportunidades de contribuir muito além do período da própria vida.
Como o Dalai Lama propõe - quando você toma uma decisão importante, pergunte-se: quem se beneficia? Só eu, ou um grupo? Só o meu grupo, ou todo mundo? Apenas no presente, ou no futuro também?
Conclusão: Inteligência emocional é uma parte essencial da sabedoria. Competências de inteligência emocional nos permitem recuperar das adversidades inevitáveis da vida, ouvir e entender os outros e cultivar relacionamentos significativos. A sabedoria se estende além da inteligência emocional, para a compaixão e o altruísmo da generatividade. Quando nós podemos expandir nosso círculo de cuidado além de nós mesmos, além de nosso círculo próximo, além de nosso tempo, nos posicionamos no sentido de construir um mundo melhor e ganhar sabedoria no processo.
Tradução do texto - Does Emotional Intelligence Make You Wise? - de Daniel Goleman, publicado em 23 de Agosto de 2018 no LinkedIn
