Notas de dias não esperados

minhas roupas estão um pouco mais largas do que o comum.

vesti três sutiãs numa destas manhãs. os três estavam largos. escolhi um e fui viver o dia, no atropelo, como todos têm sido. hora em hora tinha de subir a alça do sutiã; únicos momentos em que retornava ao meu corpo. depois voltava ao limbo, de onde não conseguia sair.

você não sente sequer a roupa tocando a pele, não é apenas porque perdeu peso. o que foi perdido é mais do que 1 kilo. o olhar é perdido. a vontade também não tem direção.

logo você; o hub de vontades. de desejos. de muita briga por independência.

eu bem sei o caminho de volta. é simples, até. você escolhe uma direção e sai.

ou não escolhe. espera chegar aquele dia que sempre chega pra quem não faz escolhas.

alguns dias, algumas coisas quebram. todo seu corpo queima. não é excitação. parece mais com um susto.

começa baixinho e bem rápido, como quando descobre que o cara com quem vem falando começa a curtir fotos da sua colega, e o encanto morre. ou quando sente que pode ter perdido a carteira e não quer lidar com pequenos grandes desgastes.

daí aumenta, já num sentido de vergonha, como num pós-sexo sem vontade, pós-assédio intruso, pós ter chorado no trabalho.

então fica insuportável, igual a dor de quando descobre uma traição, ou recebe a notícia de uma fatalidade, ou ainda quando perde a habilidade de crer.

a sensação de final.

o peito pega fogo, é verdade. dói um tanto.

nada é melhor para renascer, do inferno, bem diabona, spreading fire.

é um dia que chega.

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