Cinthia Quadrado
Sep 5, 2018 · 2 min read

Meu espectador particular

Ela não olha para cima, mas responde o “bom dia”. Continua com a cara fechada e encara o notebook como se estivesse escrevendo a coisa mais importante do mundo.

“Ah, se soubesse como isso não tem importância…”

A menina continua rabiscando textos e notas para o cliente. Pensa, repensa, tem um nó de ideias que não vira nada na tela branca. Apaga, escreve, apaga, reescreve. Quando acha que deu tudo certo, envia o material.

“Não perde tempo com isso, menina…”

O cliente reclama, as pessoas ao seu redor reclamam e nada está bom o suficiente para ninguém. Ela diz que quer ajudar, que refaz e repensa tudo se for necessário. Os ombros caem, os cantos da boca caem, a autoestima fica no chão.

“Para e vai escutar as músicas que você tanto gosta. Pensa mais em você”

Ela sai para almoçar, reclama de algumas pessoas também e enfia a frustração goela abaixo com dois chocolates. “Talvez eu esqueça essas bobeiras, afinal, é só mais um dia”, a mocinha pensa. Depois da refeição, entra no ônibus e encara o pano de fundo das janelas: pessoas, mochilas, uniformes, rostos cansados, calçadas.

“E a minha mente aqui em casa, tão longe, mas, ao mesmo tempo, tão perto… pensando em você”

Retorna ao local de trabalho. “Deixe sua alma lá fora”, diz o letreiro imaginário pelo qual ela acha que passa. Tenta entrar, mas não consegue porque mais uma vez estava impedida. “Hoje não é meu dia…”, ela reflete.

“Calma, menina…”

Ligação, mensagem, contato, “me libera, por favor”, “eu aguardo”, “ela vai demorar”. Passa um tempo esperando na “cadeira dos desesperados” que também não veem a hora de terminar o seu serviço para voltar para casa. “Pode entrar”, o rapaz autoriza.

“Eu disse para você ter calma”

Ela se senta perto do notebook novamente. Vocifera meia dúzia de reclamações para o rapaz ao lado, que pensa: “não é nada demais, relaxa”. Irritada, larga suas coisas e sai andando. “Acaba, dia… acaba, por favor”, a jovem pensa.

“Logo estaremos juntos, minha pequena”

“Eu sei que vamos, meu querido”, ela responde à própria mente. E continua sonhando com o final do experiente e a voz dele no telefone acalmando todas as intempéries do dia.

Cinthia Quadrado

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Jornalista e freela da vida.