Museu do Amanhã, uma Ofensa de Hoje?

Depois de dois meses no Paraná resolvendo assuntos pessoais, volto para o Rio de Janeiro e até fico um pouco tonta com o calor absurdo, a quantidade de pessoas e o espaço urbano desordenado, nada muito além do comum (e sim eu amo de coração o Rio de Janeiro), mas nada me deixou mais chateada do que voltar e ouvir pessoas comentando e noticiários enaltecendo o tal do Museu do Amanhã, uma iniciativa da Prefeitura do Rio e da Fundação Roberto Marinho (alguma novidade?). Estava desinformada sobre essas construções e nem soube da obra em seu decorrer.

Me deparo com a notícia de que 25 mil pessoas estiveram presentes nos primeiros dias do museu em funcionamento. Segundo o IBGE de 2014 o Rio tem uma população de 6 453 682 habitantes. Vinte e cinco mil pessoas não parecem muitas diante do número total de pessoas que temos aqui e tendo que levar em conta que nem todos são do Rio de Janeiro, no entanto me ponho a pensar se desses 25 mil quantos dependem da saúde pública e são extremamente possuidores de memória curta e pouco entendimento da vida como um todo ou quantos não dependem, pagam convênio ou particular e são egoístas mesmo em relação aos que não tem as mesmas possibilidades.

Desses 25 mil quantos participaram de pesquisas científicas que tiveram verbas reduzidas ou cortadas por inteiro ou quantos sabem desses cortes e não estão nem ai ou não entendem o retrocesso que isso significa.

Desses 25 mil quantos estudam ou tem filhos em escolas do município que faltam materiais, reparos e que principalmente paga uma miséria vergonhosa para os professores. Desses 25 mil quantos são professores?

Desses 25 mil quantos moram em locais hostis que regularmente ocorrem atrocidades contra a vida de seres vivos e a polícia não dá conta porque não pode e porque não quer.

Desses 25 mil quantos refletem sobre a área que vive?

Não duvido em momento nenhum que o museu seja extremamente interessante e que as outras construções para lazer e supostos disseminadores de conhecimento sejam também ótimas obras mas não para nós aqui que não temos decentemente nem o básico. Lazer para nós, na verdade, não falta pois temos já antigos e bons transmissores de conhecimento.

O Rio de Janeiro está chutado e relatos, notícias de várias fontes não me deixam mentir, aqui cito pouquíssimas só para incentivar pesquisa a quem possa interessar:

Governo do Rio quer que UPAs 24h só funcionem durante o dia

Protesto contra falta de verbas para hospitais universitários no Rio

Falta de verba pode interromper monitoramento da Baia de Guanabara

Museu Nacional fecha as portas e denuncia abandono no Rio

No meu rápido entendimento as pessoas que vão em um tipo de “evento” desses em uma época tão conturbada da cidade que vive que não começou a pouco tempo e só piora, estão ofendendo diretamente todos os outros que se negam a participar por motivos óbvios. Ofende o moço que de segunda à sexta pega ônibus lotado com itinerários mal projetados que demoram horas, a senhora que recebe mal para ensinar turmas lotadas de crianças que vão à escola só pela merenda, o empresário que fecha as portas do seu estabelecimento porque não aguenta mais ser assaltado, a mocinha que deixa de estudar a noite com medo de ser estuprada na volta para casa e muitos outros esforçados que tentam com muito fôlego empurrar a engrenagem dessa cidade e que os governantes respondem de volta para eles “Danem-se todos vocês”.

Mas eu fiquei feliz porque através do meu facebook pude ver (várias) pessoas tão injuriadas como eu. Isso é um lindo sinal e óbvio, elas existem. Mas ainda me preocupo com os 25 mil que já devem ser 30, 40 mil e amanhã, talvez 70 mil…

Aproveitando o gancho, quero saber quais os meus conhecidos que irão participar de alguma forma voltada ao lazer das Olimpíadas de 2016. Hoje ao invés de pensar que não temos verba para acolher esse tipo de evento de grande porte, penso que nós como população não temos vergonha na cara. E isso é o primordial e essa é a falta que faz mais falta.