Investimento em STARTUPS é um BOLHA prestes a explodir? A resposta de SÍSIFO

Por Rom Justa

O cenário de investimento em startups, que tanto alimentou disrupções nos últimos 20 anos, passa agora por sua própria disrupção.

E já não era sem tempo. Em duas décadas, houve casos estrondosos de sucesso no mundo, inventamos até um novo bicho tecno-mitológico, o unicórnio bilionário… espalhamos novos empregos em funções que sequer antes existiam (levantem a mão growth hackers e diretores de whatever) e patrocinamos um trilhão de pizzas em fenômenos culturais que hoje são mainstream como hackatons, ideathons e afins.

O fenômeno startup é inseparável de outra revolução no campo do investimentos: há duas décadas vemos fundos de Venture Capital surgir ao cântaros, mais recentemente, empresas criando seus fundos de Corporate Venture Capital, a assunção e profissionalização da figura do investidor-anjo, as aceleradoras e por aí vai.

Uma análise rápida do cenário parece nos dizer que aumenta cada vez mais a possibilidade de novas empresas ganharem sua chance de ir ao mercado, testarem sua sorte e competência graças à injeção qualificada de recursos em busca do próximo mítico unicórnio.

Para quem ainda lembra do arquétipo yuppie da Wall Street dos anos 80, onde o grosso do capital ia para grandes corporações tradicionais, real estate e aplicações hoje tidas como “conservadoras”, basta trocar duas ou três conversa regada a café em algum escritório “cool” de fundos ou aceleradoras para ver, de fato, que houve muitas mudanças boas e devemos celebrá-las, sem dúvida.

Wall Street, suspensórios e anos 80…

Mas é sobre o que deu errado que precisamos falar, nós investidores, com humildade misturada a um senso aguçado de novas oportunidades.

Vamos falar de dívida. Nenhum investimento é feito sem expectativa de retorno e quando falamos de novos negócios ou startups, é bem difícil identificar o quando, o como e, às vezes, até o porquê deste retorno. Sem problema, o risco é parte de qualquer investimento…, mas e quando este “ato de fé” sistêmico da categoria se choca com baixas taxas de performance e crescimento nas startups (e altas de mortalidade) e, correlativamente, com a ineficiência de muitos processos de aceleração/incubação e os modelos de investimento que lhes são correlatos, para onde olhar em busca de otimismo, exemplos e algum grão de relativa certeza?

Em exits (a venda de uma startup) bilionários, IPOs, na busca incessante do próximo unicórnio, assim dizem muito correligionários do atitude “spray and pray” (pulverize o capital entre várias startups… e reze para que uma dê retorno). Nunca foi tão caro procurar agulha no palheiro… e não obstante, esse é o zeitgeist que assina cheque de milhões para as novas “promessas”.

Do lado das startups, o endividamento ganha um matiz diferente: ávidos para entrar na lógica do “pay-per-risk” com sua ideia e modelo de negócios disruptivos (porque “todo mundo faz”, afinal), founders cedem assim que possível pedaços (shares) de suas empresas em troca do primeiro investimento-anjo que lhes ajude a “tirar a ideia do papel” e levá-la ao mercado. Mas não pára por aí: em muitos pitches que recebemos hoje, lá no cronograma de desenvolvimento do negócio, o investimento anjo é seguido, um ano depois, por uma rodada de Série A em busca de mais recursos para… tornar o negócio viável. 2 anos depois, uma Série B… para quiçá tornar negócio mais viável e por aí vai. Na série C podem até começar a falar sobre a rentabilidade do negócio.

5, 6 ou 8 anos depois, os fundadores se veem nas mãos de seus investidores, credores, fundos que se veem por sua vez em apuros para justificar o magro retorno de suas rodadas de investimento, serie Z ou afins. Pouco sobra do ímpeto inicial da fundação da startup e o choque de realidade não raro é traumático: anos e milhões depois, a startup fecha suas portas após buscar desesperadamente aquilo que negligenciou desde o princípio: resultado constante, crescimento orgânico, pé no chão, burn rateresponsável… lucratividade.

O mítico unicórnio… em chamas! Fonte: indie.vc

Sim, lucratividade, essa palavra assustadora que muitos evangelistas do disruptivo parecem abominar como uma “preocupação reacionária” antes a promessa mítico do unicórnio galopante… poderiamos escrever um artigo inteiro só sobre a visão de lucratividade para startups hoje em dia.

E iremos em breve, mas por ora, já temos o pano de fundo contextual para explicar por que o Circuito Fora escolheu deixar de lado o modelo tradicional de aceleração de empresas para ser uma Business Developer cujo foco é acelerar deals. Raramente começamos uma relação com uma empreendedora ou empreendedor investindo em sua startup em troca de shares, participação e afins: preferimos usar nossa rede e nossa tecnologia de big data para desenvolver uma tese de negócio real e prospectar novos contratos, clientes, parcerias, mercados que gerem resultados reais de crescimento, sendo remunerados com taxas de performance justas em cima de cada deal de sucesso celebrado.

Não começamos nossa relação com líderes empreendedore(a)s pela dívida, começamos pela cumplicidade em crescer juntos, suando a mesma camisa para gerar resultados reais que remunerem o esforço conjunto.

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Sísifo… like a rolling stone.

Sísifo é o protagonista de um antigo mito grego que nos fala profundamente sobre a condição humana de tantas vezes perseguir sofregamente objetivos inatingíveis.

Punido pelos deuses do Olimpo, foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha. Sempre ao atingir o cume, contudo, uma força irresistível empurrava a pedra ladeira abaixo levando-a de volta até o ponto de partida. Sem outra opção senão cumprir sua sina divina, Sísfio recomeçava seu trabalho ladeira acima…

Por um momento visualize a mitológica figura do unicórnio startup empurrando ladeira acima sua ideia ou negócio promissor, passando por investimento-semente, anjo, Série A, B, C, só para ver ao final sua pedra rolar de volta à base, onde tudo começou… ou deixou de começar.

Uma parte da superação desta maldição, assim, está no começo, em como líderes promissore(a)s começam sua relação com os agentes que lhe ajudarão ladeira acima. Para nós no Circuito Fora, o melhor que podemos fazer é fortalecer a musculatura da startup para que esta ascenda dependendo o mínimo possível de ajuda financeira externa, organicamente, passo a passo, com solidez, como um bloco firme de concreto que possa calçar a pedra rolante e impedi-la de descer ladeira abaixo. Não é o único modelo, mas é o que vem se provando duradouro ao longo de décadas.

Deixemos os outros modelos aos unicórnios e sísifos Série Z.

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