Sobre Jayr Bolsonardo

Eu conheci ele. Por volta dos meus 6 anos, pelo que me lembro, eu conheci esse homem. Ele tinha a mesma idade que eu e frequentava a mesma série que eu. No intervalo, íamos todos para o parquinho e lá ele me disse, pela primeira vez: viado! Obviamente na primeira vez não fez sentido algum e, portanto, não me ofendeu.
No começo ele era discreto, xingava no canto da boca, como um grito abafado por um pano, afinal ele tinha vergonha ou medo de que os outros escutassem. Então ele vinha no intervalo, onde não havia nenhuma autoridade, me empurrava e gritava: viado! Com o tempo, ele foi perdendo a mão. Passou a me xingar no meio da aula, nos corredores da escola, nas festas da escola e até mesmo nos banheiros. Um dia Bolsonardo me chutou e gritou: viado! Engraçado que se alguém me questionasse qual é a cara da homofobia me vem logo a desse menino na cabeça. Ele foi embora, nunca mais vi.
Bolsonardo então cresceu e com ele eu estudei na quinta série, sexta, sétima, até o meu terceiro ano do colegial, na mesma escola. As vezes ele era menino, outras menina, algumas coordenadora e muitas vezes o diretor. Ele já foi perueiro, já foi tio, já foi tia, padeiro, açougueiro, amigo, inimigo, desconhecido na rua, conhecido dentro de casa. Encontrei tantas vezes com ele que já nos tornamos íntimos, no sentido mais atormentante possível.
O pior é que tenho medo de encontrar com ele todos os dias nas atividades mais banais possíveis. Tenho medo de gritar e ele aparecer e tenho medo de me calar e ele gritar por mim. Tenho que ter orgulho de quem sou para mostrar para ele que sou maior, mas também ainda tenho vergonha de ser com medo de não existir. Quero a libertação sexual a qualquer custo, mas escuto a voz dele em todo homem que conheço. Essa dualidade que ele me causou já está em mim desde que me conheço como gente em minhas duas trajetórias: a primeira antes de me assumir para mim mesmo e a segunda depois.
Ah, eu tenho amigos e amigas que conhecem ele também. São histórias absurdas que, de novo, lá está ele em suas diversas formas. Ele aparece nessas narrativas como mãe, como pai, irmão, irmã, avô, avó. Algumas delas ele deixou de ser, em outras ele ainda faz parte do convívio dessas pessoas. Porque, nem todo mundo, permanece Jayr Bolsonardo, ainda bem.
Quando em 2018 vejo que ele (agora como ele mesmo) está não só concorrendo à presidência, mas liderando as pesquisas de intenção de voto, eu lembro dos meus Jayrs Bolsonardos ao longo da vida e penso: ele sempre esteve comigo. Essa eleição faz com que tenhamos nostalgia dos tempos em que a gente brigava por política, por planos de governo, posicionamentos, de fato, políticos. O que este homem traz não são propostas, são ameaças.
Como alguém como ele chegou onde está? É um pergunta complexa da qual eu tenho apenas algumas respostas. A imprensa deu palanque para este político, mesmo que com a intenção de expor suas atrocidades e fazer com que ele fosse caçado por isso. A mídia possibilitou que outros Bolsonardos, que estiveram presentes na vida de muitas pessoas, se sentissem contemplados e não mais desprezados. Não me eximo desta culpa, apenas acho importante reconhecer que houve sim um descuido em dar o microfone na mão de um fascista.
Qual o problema que surge daí? O Brasil, como presenciado no dia 2 de setembro de 2018 com o incêndio do Museu Nacional, é um país que queima seus livros, suas esculturas e, portanto, apaga sua história e trucida sua cultura. Por ser um país que não revive sua memória, facilmente está fadado ao esquecimento. Com isso, comete os mesmos erros que cometeu lá atrás, sem se lembrar da magnitude do que aconteceu.
Por isso, acredito que Bolsonardo é sintomático. Ele é uma expressão de grande parcela da população que antes existia apenas na vida privada das pessoas, nas dobras das páginas, na penumbra do inconsciente, na latência do consciente, mas nunca no gabinete da presidência. Ele é a consequência de uma nação que mata seus jovens negros, estupra suas mulheres, quer erradicar imigrantes não europeus, enfia faca nas suas transexuais e travestis, assassina seus gays e suas lésbicas para “corrigir” um mal feito divino, quer dar arma na mão de gente rica para matar gente pobre e, por fim, ele é a consequência de um país que foi e não se lembra que foi e que, por isso, quer ser.
Ele continua igual de quando conheci ele lá atrás. Todo errado que não acerto nem seu nome.
