Hector Hugh Munro tinha 43 anos quando a Primeira Guerra Mundial estourou e não seria obrigado a servir, mas se alistou como soldado raso. Em 14 de novembro de 1916, nos últimos dias das Batalha do Somme, ele estava se protegendo em uma cratera quando disse para um soldado “apague esse maldito cigarro!” e foi abatido por um franco-atirador alemão. Para comemorar o centésimo aniversário da sua morte, compartilho este capítulo de A Vinda do Kaiser: Uma História de Londres sob a Casa de Hohenzollern (que só hoje está de graça na Amazon), além de A Tela, tradução do conto The Background, (aqui).

O Retorno ao Lar

No centésimo aniversário da morte de Saki, um capítulo do seu romance de 1913 sobre a Inglaterra invadida pela Alemanha.

Murrey Yeovil desembarcou em Victoria Station e ficou esperando, numa atitude entre indiferença e impaciência, enquanto o carregador arrastava seu kit de viagens do vagão e procurava a bagagem mais pesada com um carrinho. Yeovil era um jovem de rosto acinzentado, com olhos inquietos e boca algo ansiosa. Ele tinha um ar de lassidão evidentemente apenas temporário. A estação quente e empoeirada, com sua multidão vadiando e passeando, pequenas correntes de passageiros suburbanos surgindo aqui e ali dessa ou daquela plataforma, como formigas infestando um jardim, foi o clímax cansativo do que fora uma viagem cansativa. Yeovil olhou rapidamente, quase furtivo, ao redor e em todas as direções, com o ar de um homem forçado pela curiosidade mórbida a procurar coisas que preferia não ver. Os anúncios colocados em alemão e inglês no escritório de reservas, na seção de achados e perdidos, no bufê de refrescos e assim por diante, a águia coroada e o monograma nas caixas postais, logo chamaram sua atenção um depois do outro.

Ele se virou para ajudar o carregador a levar seus pertences ao carrinho e o seguiu ao pátio externo da estação, onde uma fila de táxis estava sendo lentamente absorvida pelo fluxo torrencial de uma multidão de viajantes.

Valises, embrulhos e um baú ou dois, etiquetados e viajados, foram guardados no táxi, e Yeovil se virou para dar o destino ao motorista.

“Berkshire Street, número vinte e oito”.

O novo brasão do império, como descrito no romance.

“Berkschirestrasse, acht-und-zwanzig”, ecoou o homem, um indivíduo grandalhão e de óculos, um tipo teutônico inconfundível.

“Berkshire Street, número vinte e oito”, repetiu Yeovil e entrou no táxi, deixando que o motorista retraduzisse o destino em sua própria língua.

Uma sucessão de táxis deixando a estação bloqueava o caminho por um momento ou dois, então Yeovil teve tempo para observar o letreiro “Viktoria Strasse” ao lado do nome inglês familiar da rua. Um aviso dirigindo o público para as piscinas vizinhas também estava escrito em ambas as línguas. Londres se tornara uma cidade bilíngue, tal como Varsóvia.

O táxi fez seu trajeto rapidamente pela Buckingham Palace Road em direção ao Mall. Quando passaram pelo palácio, o viajante virou sua cabeça resolutamente para o outro lado, para que não visse os uniformes alienígenas nos portões e o estandarte da águia desfraldada sob o sol. O taxista, que parecia ter instintos combativos, desacelerou quando virou no Mall e apontou uma pilha branca de estatuário memorial em frente aos portões do palácio.

“Grossmutter Denkmal, sim”, ele anunciou, e retomou sua jornada.

Chegando em seu destino, Yeovil parou nos degraus de sua casa e apertou a campainha com uma estranha sensação de abandono, como se fosse um estranho saído do nada que perambulara até uma terra desconhecida; em um instante estava em seu próprio hall, objeto de solicitude respeitosa e atenção. Lacaios asseadamente trajados e vestidos se ocuparam com sua bagagem surrada e suja da viagem; a porta fechou sobre o taxista de voz gutural e o sol ofuscante de julho. A jornada cansativa acabara.

“Pobre querido, você parece absolutamente arrasado”, disse Cicely, depois de trocarem as primeiras saudações.

“Tem sido uma empresa lenta, melhorar”, disse Yeovil. “Só fiz três quartos do necessário até agora”.

Olhou seu reflexo no espelho e soltou um riso lúgubre.

“Você precisava ver como eu estava cinco ou seis semanas atrás”, completou.

“Você devia ter deixado eu ir e cuidar de você”, disse Cicely. “Eu queria, não negue”.

“Oh, cuidaram de mim bem o suficiente”, disse Yeovil, “e seria uma pena arrastá-la até lá. Um pequeno sanatório finlandês, fora de temporada, não é um lugar muito divertido. E seria pior ainda para quem não fala russo”.

“Você deve ter sido enterrado vivo lá”, disse Cicely, com a voz cheia de comiseração.

“Eu queria ter sido enterrado vivo”, disse Yeovil. “As notícias do mundo exterior não eram do tipo que ajudam os inválidos abatidos a convalescer. Eles me falavam o mínimo possível sobre o que estava acontecendo. Ficava grato pelas suas cartas, pois também me contavam muito pouco. Quando se está fora, entre estrangeiros, as desgraças do nosso país causam uma angústia mais aguda, mais pessoal, do que causariam em casa”.

“Bem, pelo menos agora você está em casa”, disse Cicely, “e pode andar pela estrada da recuperação completa em seu próprio ritmo. Um pouco de tiro para descansar neste outono e um pouco de caça, apenas o suficiente para manter a forma e não se cansar demais. Você não deve sobrecarregar suas forças”.

“Estou recuperando bem as minhas forças”, disse Yeovil. “Essa jornada não me cansou metade do que seria esperado. É o cansaço horrível da apatia, física e mental, que é o pior efeito colateral dessas febres pantanais. Elas sugam a nossa energia em baldes, mas ela volta em colheres de chá. E agora vou mesmo precisar de energia infinita, mais ainda do que força: não quero acabar virando um vagabundo”.

O autor uniformizado para a guerra que previu e para a qual imaginava que seu país não estava preparado.

“Veja bem, Murrey”, disse Cicely, “depois de jantarmos hoje à noite, vou fazer algo aparentemente impróprio para uma esposa. Vou sair e deixá-lo em casa com um velho amigo. O doutor Holham vem tomar café e fumar com você. Combinei isso porque sabia que você iria gostar. Homens podem falar sobre essas coisas melhor entre eles, e Holham pode lhe contar tudo que aconteceu… desde que você partiu. Temo que será uma história horrível, mas você vai querer ouvi-la toda. Foi um pesadelo, mas agora se vê tudo com uma perspectiva mais calma”.

“Ainda me sinto em um pesadelo”, disse Yeovil.

“Todos nos sentimos assim”, disse Cicely, com o ar de uma pessoa mais velha que diz a uma criança que irá entender tudo melhor quando crescer. “O tempo sempre é algo como um narcótico, você sabe. Tudo parece absolutamente insuportável, mas então aos poucos descobrimos que estamos suportando. E agora, querido, vou preencher seu documento de notificação e deixá-lo para supervisionar o desfazer das malas. Robert lhe ajudará com tudo que quiser”.

“O que é o documento de notificação”, perguntou Yeovil.

“Oh, um formulário idiota a ser preenchido quando se chega, para dizer de onde se veio, seus negócios e nacionalidade e religião e coisas do tipo. Nós somos mais burocráticos que costumávamos, sabe”.

Yeovil não disse nada, mas uma escuridão surgiu no cinza descorado de seu rosto e desapareceu imediatamente, deixando sua cor mais cinza e exangue do que antes.

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Subitamente, a jornada parecia ter recomeçado. Ele estava sob seu próprio teto, seus servos lhe esperavam, suas posses familiares estavam evidentes ao seu redor, mas a sensação de estar em casa desaparecera. Era como se tivesse chegado em um hotel de beira de estrada, e tivessem pedido que registrasse seu nome, status e destino. Ele havia previsto nojo e irritação com outros aspectos da Londres para a qual retornava: alterações em selos e moedas, o elemento teutônico intrusivo, os uniformes estranhos por todos os lados, a nova orientação da vida social. Para tudo isso estava preparado, mas essa evidência pessoal de seu estado de sujeição surgiu sem aviso, em um momento em que havia, por assim dizer, despojado sua armadura. Cicely falava com leveza sobre a formalidade odiosa que havia sido imposta a eles. Será que ele também passaria a enxergar tudo com o mesmo espírito aquiescente?