A Capa

(*trecho da novela literária para o nanowrimo 2017 — A transcendência da lua)

Que sensação será está?

Tenho aprendido pouco a pouco a codificar sensações em meu próprio corpo.

Não é simples, nem sempre imediato. Tudo começou anos atrás quando eu entendi como identificar a minha zona de pânico. Eu tive um acidente com uma bolsa térmica que precisava ferver para voltar ao seu estado normal. Eu esqueci na panela, deixando bem mais tempo do que o necessário, ela estourou, o sal grudou todo na panela, tive que jogar o plástico no lixo e perdi a bolsa. Mas a questão é que no momento em que eu me dei conta de que tinha esquecido e fui ver a panela com o sal queimando, me senti como se tivesse quase colocando a casa em risco. Foi muito desconfortável.

Algumas semanas ou meses depois, não lembro bem, eu tive uma ligação internacional com um grupo ainda de desconhecidos, entrei atrasada por um erro no fuso horário e estava apreensiva quanto ao tema a ser discutido, e senti fluir em mim uma sensação parecida com a do quase coloquei fogo na casa. Entendi naquele momento que era assim que eu me sentia na zona de pânico, bem distante da zona de conforto e já fora da zona de aprendizagem.

Poucas semanas atrás eu comecei a ter mais consciência da minha postura e deixar meu cardíaco mais aberto, mais receptivo, me sustentar mais. Fiz terapias para me auxiliarem com as dores musculares, tensões e ajudarem na identificação da abertura de campo. E comecei a tomar floral, pela primeira vez um receitado, não só os prontos que eu escolhia sozinha para estresse ou insônia. E comecei a compartilhar mais do meu trabalho, sem pensar muito na parte operacional e mecânica. Então, quando veio a primeira resposta positiva, mas positiva mesmo, de conexão, de que aquilo é importante para outras pessoas eu me senti um pouco emocionada. Mas não daquele jeito de quando você vê uma historia triste em um filme ou livro, se conecta empiricamente e sente as lagrimas escorrendo em angústia, culpa e algo meio irresolvido que te leva a pensamentos de vítima e requer um tantão de Ho’oponopono. De um tipo que as lagrimas não se formaram propriamente, o peito se encheu de uma espécie de alegria e me deu vontade de abraçar alguém. Me senti conectada e nem importava muito como. Eu meio que entendi alguns amigos meus neste momento, era uma conexão como nunca antes, foi breve, mas me deixou leve por um bom tempo.

Se eu me questionei? Na real bem menos do que eu esperaria. Foi um “o que porra tem neste floral, hein?”, mas mais sorrindo do que preocupada. Mas o que quer que seja e mesmo que eu pouco me reconheça aqui, eu gostei deste lugar e quero voltar mais vezes.

Dali eu comecei a navegar as coisas de uma maneira um pouco diferente, fiquei feliz em poder apenas compartilhar. E a continuidade do processo me deu a sensação que poderia ser simplesmente assim continuamente.

Alguns dias depois eu me conectei com uma questão social importante, senti que me tocou, fui mais a fundo, chorei ao me conectar com aquilo, senti o campo do meu cardíaco se expandindo e que eu poderia fazer algo a mais e genuinamente eu me importei com aquilo que queria somar, entre um e outro porque não lembro mais exatamente quando ou como, eu senti que queria que o meu trabalho existe com e para as outras pessoas e que todos os reconhecimentos fossem não apenas compartilhados, mas em união, nada meu, ou para mim. E foi lindo, maravilhoso.

Só que…

Depois de alguns dias uma outra rotina foi tomando conta e alguns questionamentos surgiram. E eles na verdade eram dúvidas. E eu joguei uma ou outra destas dúvidas no meu campo energético. Então eu recebi uma mensagem que não gostei. Simplesmente uma pergunta, mas que soou como uma desvalorização do meu serviço. O descompromisso das outras pessoas costuma ser um gatilho de irritação para mim. E neste processo isso rapidinho tomou uma proporção maior e ao invés de eu ficar irritada só com o assunto ou com a pessoa, eu comecei a questionar o meu valor. Dali foi um pulinho para a ansiedade entrar no meu campo, e sinto que devo assumir responsabilidade por ter convidado ela desta vez. E eu lembrava dos dias anteriores, segui meditando e tomando floral, mas a sensação estava ali, minha confiança estava sendo questionada e meu campo se fechou. Eu vesti a capa de novo e a ansiedade corria pelo corpo como veneno. A parte sinos (de sinusite, saca?) começou a se manifestar com mais intensidade e eu fechei meu campo intuitivo. Tive uns dois momentos de conexão quando estava no meio de parques. Mas aquela força do inicio não estava mais ali. E de certa forma eu fiz exatamente o que estava evitando fazer, fiquei na minha zona conhecida, arrisquei pouco e fiquei com vontade de arriscar ainda menos. Comecei a questionar todos os outros campos da minha vida em um efeito io io, me sentia bem com meu corpo e depois queria esconde-lo. Ficava feliz com o que estava fazendo e em seguida duvidava do meu valor. Lembrava das motivações iniciais, mas quando a capa se formou eu não conseguia mais retira-la dali, ela grudou na minha pele, e agora que eu sabia como era a vida sem ela eu sentia aquilo a cada movimento, era grudenta, apertada, nossa que sufoco! Mas ainda assim, tirar era tão trabalhoso, que ficava mais fácil deitar, levantar, seguir e ir torcendo para ela sair pouco a pouco, ou eu ter um relance de coragem e arrancar de uma vez, mesmo que doesse. E sabe, pode ser que doa e que eu tenha medo disso. Eu só não sei mais porque! Não existem reais motivos mais.

A insegurança atrai mais insegurança, e uma parte de mim que talvez não seja assim tão pequena quanto eu queira ainda tem medo de tudo dar certo e eu ter que sustentar uma energia que eu nunca sustentei antes, e pode ser que eu tenha que fazer isso sozinha. Que eu só mereça as pessoas quando eu estiver bem, porque parte da tarefa é compartilhar e acreditar.

É isso. Eu só não posso fugir para o meu local antigo favorito, para a minha imaginação. Só que o perigo é que eu sei o caminho, e posso acessa-la sempre que eu quiser.