Algumas impressões de mundo e porque continuo na Contramão

Eu não tinha planos de falar sobre isso. Mas tinha planos de dar uma passada no parque, abraçar uma árvore (e até ai eu fiz), e sentar um pouco para ler um livro no dia de sol.

Antes de chegar eu percebi que estava cheio, mas não cheio tipo pique niques de final de semana e aniversários de criança, cheio tipo estava todo mundo com celular na mão, caçando pokemons.

Sim, crianças, adultos, pais, grupos de amigos. Mas sinceramente eu não percebi nenhuma interação que não fosse com a tela do celular.

Eu não entendo muito de pokemon, na época que o desenho era febre eu não acompanhava. Também não tenho nada contra jogos virtuais, para falar a verdade eu até tenho vontade que a Radiko nos próximos anos tenha um serious game com apoio do mundo virtual. Mas pessoalmente não me conformo com a ideia de que a evolução do storytelling se de por meio de projeções de realidade virtual. Já vivemos uma grande ilusão tridimensional, mas ela não vai mudar, nem melhorar se projetando para outra ilusão, precisamos pelo menos reconhecer os elementos que nos cercam. Tem muita energia no nosso campo, mas geralmente só usamos a que vem da tomada.

Eu sei que estamos sendo vigiados o tempo todo, na verdade de certa forma estamos entregando dados, e seria muita inocência imaginar diferente. Mas podemos ter mais consciência do que estamos ou não compartilhando e como.

Em paralelo no mesmo período iniciamos as olimpíadas no Brasil, e como eu imaginava, foi uma grande festa. E que bom que celebramos e mantemos a alegria, que bom que nossa arte pulsa forte e reverbera para o mundo. Mas é bacana não esquecer que muita gente foi expulsa de seus cantos, foi e ainda esta sendo oprimida, que o país ainda vive crises que tenta esconder dos turistas e ainda teve o privilegio de matar um animal em cerimônias. E um show não apaga nada disso.

Eu estava na orla santista quando a tocha foi por lá passear e não vi motivo nenhum para celebrar, nem as pessoas bêbadas ao por do sol com crianças correndo pelas avenidas ainda abertas para os carros, nem as filas ignorando um clima metereológico mutante e a pequenina manifestação "fora Temer" porque o foco ali era ganhar um brinde da coca cola.

No fim do dia esta tudo certo, cada um tem o direito de se divertir da forma como se sente melhor, desde que respeite os outros. Existem muitos aspectos positivos da internet e jogos virtuais e temos mesmo que celebrar nosso país lindo! A questão aqui é que mais uma vez não se repara no elefante no quarto, nas girafas na janela, ou qualquer outra metáfora que nos mostre que não esta tudo ok contanto que continuemos comprando. E como cada um é livre para escolher seu caminho (será?), eu continuo na contramão.