Carta aberta ao suicídio

Era inverno e a capital ventava gélida. Estava em um belo dia de ócio — nada criativo — navegando nos famosos “aplicativos de paquera”. Olhei ele. Olhei suas fotos. Parecia legal, não muito o meu tipo, mas um sorrisinho meio de canto que me deixou intrigada. Curti. Match na hora! Coisa boa, cara.

Conversa vai, conversa vem. O cara não sabia a diferença entre Marvel e DC Comics. Já comecei a rir. Diante do senso comum, quem tava mais errado ali? Uma jornalista que ama mais histórias de heróis do que histórias reais, ou um estudante de física que nem sabia a diferença entre as duas maiores companhias de HQs do mundo? Vida que segue.

Conversa vai, conversa vem. Pouco em comum a princípio, mas não conseguia parar. Ele me intrigava de um jeito positivo. Enquanto a vida corria, fora do troca troca de mensagens e risadas — a gente ria muito — estava, dentro de mim, aguardando há um ano o lançamento do longa Suicide Squad, fora de mim, trabalhando em uma assessoria de imprensa.

Eis que perto de toda a timidez para convidá-lo a nos conhecermos pessoalmente, uma exposição, cliente da assessoria, contava as horas para sua vernissage. No mesmo dia também, o pré-lançamento do filme que aguardava há meses. Chamei um ser humano que só pensava muito bem com o lado esquerdo do cérebro pra uma vernissage de exposição que, para leigos em arte, poderia parecer extremamente confusa. “Vida que segue”, pensei. “Se ele topar, vou saber que talvez não sejamos tão incompatíveis assim.”

Ele topou. Logo de cara. De primeira. Sem pestanejar. Massa demais, pensei. Me arrumei inteira, passei as últimas gotinhas contadas de meu 212 e fui para a vernissage à trabalho, mas no aguardo ansioso de sua chegada. O estômago embrulhado enquanto cumprimentava os convidados, fingindo costume.

Logo quando estava dando um gole d’água, do lado de fora do museu, ouço: “Clarissa?”, em uma voz carregada de tons roucos. Tremi na base. Coloquei toda a água na boca e fiquei bochechuda enquanto olhava para seu rosto. Engoli a água aos poucos e ele já ria de mim. Era mais baixo do que esperava, bem magrinho, mas ainda assim muito bonito — logo a primeira impressão que se tem nesses aplicativos.

Entramos para a exposição. Expliquei algumas composições enquanto ele fazia comentários cômicos e até impressionados sobre uma ou outra obra. As horas passaram rápido entre passeios no museu e conversas, quando recebo uma ligação: “Clarissa, tá rolando pré-estreia de Suicide Squad para convidados. Quer vir?”

Tremi na base de novo. Que dia! Perguntei se ele queria me acompanhar, ou se mantínhamos o plano inicial de procurar um café depois do evento em que estávamos. “Não conheço muito sobre esse filme, mas você me explica?”, perguntou meio ansioso. “Explico, lógico.” “Então vamos.”

Entramos em seu carro e fomos. Eu, tagarela, contei o contexto que ele iria assistir. Chegamos ao shopping, estacionamos e fomos correndo para o cinema. O filme estava começando. Encontramos bons assentos e ali ficamos. Durante a exibição do longa, mãos que se esbarravam timidamente “sem querer”, braços se encostando, um carinho aqui outro ali e rostos que se aproximavam quando uma dúvida sobre o roteiro rolava.

Em um só encontro uni duas coisas que curtia para caralho: super heróis e arte. Tudo a meu favor. Toda aquela noite, percebi que ele tentava me agradar. Ele tremia ansioso, eu segurava a onda (e morria por dentro). Contou de seu intercâmbio e descobri que voltamos para o Brasil na mesma época. Nostalgia compartilhada. “Putz, a gente tem muito em comum, sim”, pensava enquanto ele dirigia e as sombras dos postes da cidade atravessavam seu rosto.

Caminhamos bastante, dirigimos pela cidade, conversamos absurdos. Ele estava cheio de sonhos. Tinha pouco tempo de Brasil, um monte de história para contar. Algumas discordâncias. Chegamos até a discutir sobre machismo. “Essa coisa de machismo é muito subjetiva”, afirmou. “Subjetiva como?”, retruquei. “Acho que depende do ponto de vista”. É o que, garoto?

Segui o encontro. Expliquei para ele o porquê de assistir à trilogia de Batman seguido de Batman vs. Superman para se inteirar melhor do que havíamos acabado de assistir. “Tá, amanhã você me lembra.” Chegamos até o museu novamente. Tirei a chave do carro da bolsa, ameaçando descer. Nos beijamos. Desci do carro. Dirigi pra casa. O saldo não era negativo.

Eu o lembrei, do jeito que ele pediu. Ele nunca respondeu. Nunca mais tentei de novo. Ele não sabia, mas a minha ansiedade é distúrbio. Ele também não sabia, mas minha depressão é dona de boa parte da minha baixa estima. Sofri — igual sofro com tudo — e chorei para minha melhor amiga. “O que eu tenho de errado? Será que foi o lance do machismo? Mas eu sou feminista, não tem o que fazer. Será que sei lá, eu beijo mal? Meu assunto é chato? Meu perfume é irritante? Meu corpo é horroroso?”

Semana foi, semana veio. Passou a crise. Eu não sabia, mas assim como eu nunca demonstrei sofrer deste problema químico que me deixa eternamente triste, ele também vivia a mesma batalha diária, sem demonstrar.

Em seu antebraço uma bússola. “Sei lá, quero ter um norte”, disse.

Nunca mais esbarrei com ele na vida. Também, não era muito de sair. Disse que não curtia muito o lance de ser jovem beberrão baladeiro demais, nem ia muito para bares e, claramente, os nossos interesses eram distintos. Enquanto eu usava botinha, ele usava tênis da Osklen — cenas do date. Eu queria bar, ele acusava os estudos pela falta de tempo. Eu falava da infância emo, ele me mostrava músicas de metal que estava tentando tirar na bateria.

Passaram-se meses. Eu nem me lembrava mais. Só o coloquei na prateleira de dates-que-não-tiveram-futuro-mas-foram-incríveis. Do lado deste, estão poucos. Contava para todo o mundo o dia que tive um date que me pareceu perfeito, unindo um monte de coisa que eu curto.

(…)

Passou-se um ano. O inverno já se despedia. Ele não sabia, assim como ninguém nunca soube, mas a minha doença me levou a cogitar tirar a própria vida algumas vezes durante este período. Quem estava perto de mim, sentiu a baixa energia. Me cuidaram, me deram força até a energia ser um pouco menos baixa — incrivelmente nunca chega ao topo. Muito aconteceu. Persisti.

Era quarta-feira. O dia tinha sido horrível. Chorei no banheiro do trabalho algumas vezes. Meus óculos de grau não deixaram tão nítidas as bilocas azuis agora avermelhadas. “Amiga, vamos no bar encontrar o Pedro e a Vicky?”. “Vamos.”

Entre um gole de cerveja e outro, seu nome veio acompanhado da notícia: ele se matou. Pedi para ver a foto, já reconhecia o nome. Confirmado. Era ele. Tremi. Tremi muito. Tremi tanto quanto agora, enquanto relembro.

Pensei em quando tentei me matar aos 18 anos. Pensei em quando cogitei de novo. Pensei em quando cogitei mais uma vez. Pensei nas vezes em que pensava “ninguém vai nem lembrar, não vai fazer diferença.” Faz sim. Fez em mim. Uma noite, umas risadas, um beijo, um ano depois. Tremo. Ainda tremo.

Em pleno setembro amarelo, outra vida transforma-se em estatística. Fui atrás das redes sociais. Encontrei uma, bloqueada para quem não era amigo. Pouco vi. Vi que tinha se mudado de cidade, vi que estava namorando, vi que deixou crescer a barba.

Não

consigo

parar

de

pensar.

Penso nas luzes da cidade refletindo em sua tatuagem enquanto dirigia. Penso nele cantando o que estava tocando na rádio e batendo os dedos inquietos no volante. Penso na risada gostosa que ele dava quando eu explicava frenética a diferença de Marvel e DC. “Caracas, você gosta mesmo disso!”

Foi

uma

noite.

Para mim, uma noite. Uma memória gostosa. Não sei de seu comportamento diário. Não sei de sua luta. Não sei se era carinhoso ou agressivo. Não sei se era deprimido ou fingia costume de felicidade. Eu não sei. Eu não sei também explicar a sensação de aperto no peito. Não sei explicar a razão de estar assim. Não sei explicar a vontade de chorar. Eu nem sei quem era ele além das horas que passamos juntos.

Era jovem. Era bonito. Tinha um riso tímido e de canto de rosto. Tinha uma gargalhada contagiante. Tinha vontade de descobrir o mundo. Tinha vontade de concluir a graduação. Tinha amigos legais. Tocava bateria. Não sabia a diferença entre Marvel e DC. Não sabia falar “bloody hell” com sotaque britânico. Dirigia bem. Gostava de pipoca. Nem lembro o nome da banda favorita, do filme, de nada.

Mas apertou.

Apertou porque a probabilidade de ser o vice-versa nessa história não foi tão distante por um longo período de tempo.

Um dia ele estava lá, talvez em aplicativos de paquera, talvez namorando, talvez fazendo a barba, talvez estudando, talvez desbravando o mundo. Talvez chorando. Talvez sentindo dor.

De repente, ele não estava mais. Ele escolheu não estar. Ele não vai mais fazer histórias com ninguém. Ele entrou pra história de alguém. E acabou. Ainda tremo.