Do funcionalismo público à pista de dança: o lado B dos DJs
Já parou para pensar no que aquele seu DJ preferido daquela balada fervida faz durante o dia?
Cai a noite e os cantinhos do Distrito Federal ganham cor, vida e música. Arquitetos, estudantes, advogados, economistas e publicitários se juntam para dançar nas pistas da cidade. Quando amanhece, voltam para gabinetes, salas de aula, escritórios e agências espalhados pelo DF. Em Brasília, a cidade da burocracia, ao contrário de outros lugares, alguns DJs têm a mesma rotina de quem foi curtir o som. Seguem para uma repartição pública para viver uma vida dupla que vai muito além do play.
Pois é, pasmem. Muitos têm um “lado A” bem “careta” e tipicamente brasiliense: são funcionários públicos. Concursados ou não, eles trabalham para o governo federal ou distrital. Surpresos? Os DJs Hélio Matos (Hélio Weirdo), Daniel Amaro (Spot), Reinaldo Alves de Almeida (DJ Neural) e Cris Quizzik (DeltaFoxx) têm uma rotina fora do palco em horário comercial e nome e sobrenome bem normais.
Cientista político Daniel Amaro faz as vezes de Spot

Daniel Amaro é conhecido na noite como Spot. Sua história é longa e vai muito além do funcionalismo público e da noite. Com 18 anos, já adorava tocar em bandas de rock e promover pequenos eventos em que pudesse se apresentar. Em uma complicada condição financeira e com muita sede por independência, Daniel estudou por quatro meses para o concurso de nível médio do STJ: passou. Dai em diante decidiu investir o restante do tempo livre na conclusão do ensino superior.
Em 2010, criou o Projeto “Nome na Lista”, uma série de vídeos com entrevistas de pessoas que davam vida à cultura brasiliense. O vínculo com os produtores culturais foi inevitável e assim nasceu a veia para organizar festas — se você sai durante a semana em Brasília, já deve ter ido a algum evento encabeçado por ele.
O Cineme-se, por exemplo, que acontece às terças-feiras, desde 2013, é um projeto que exibe curtas de artistas convidados enquanto o público curte uma música durante os intervalos. É gratuito e conta com uma vibe bem alternativa. Às quartas-feiras, no mesmo ano, Brasília ganhava uma das festas que mais agitam a noite: Moranga, no Outro Calaf — ele divide a coordenação com 10 produtores. “Somente nessa época é que eu passei a enxergar os eventos como negócio”, afirma o DJ.
No mesmo período surgiu a ideia de um bar dedicado a cervejas artesanais. O que hoje é o Santuário, na 214 Norte. Funcionário público, produtor da Moranga e do Cineme-se, sócio-proprietário do Santuário, Spot não estava satisfeito e ainda queria algo mais que ocupasse os finais de semana.
Surge aí a ideia de uma festa dentro dos teatros de Brasília, aMadre. “Eu, Victor Yrigoyen e a Oga Júlia não queríamos mais do mesmo. Um evento conceito com temas diferentes e que seguisse uma ideia mensal”, afirmou. Atualmente Spot ocupa sete horas do seu dia na Corte Especial do STJ e divide o restante do seu tempo entre Madre, Moranga, Bar Santuário, Cineme-se e outros projetos paralelos que aparecem.
PM Reinaldo Alves de Almeida ou seria DJ Neural?

E se eu te contar que, entre os policiais militares que acompanham as manifestações de Brasília, está um dos DJs que agitam as pistas de eletrônico em Brasília com techno e techno house? Reinaldo Alves de Almeida ou DJ Neural protege a população durante o dia e ferve a balada durante a noite. Há pouco mais de dois anos ele integra o grupamento de acompanhamento de manifestações da Polícia Militar de Brasília.
Antes disso, fazia parte do coletivo de DJs Crazy Cake Crew. Ele conta que continua tocando e fazendo parte do grupo, só não pôde continuar com a mesma dedicação de antes por conta do curso de formação de sua nova profissão, que lhe tomou cinco meses de muita dedicação. Seu escritório é a rua — ao lado de seus quase 20 companheiros de grupamento, estão sempre pelas redondezas dos ministérios, Congresso,Teatro e Museu Nacional. “É engraçado, quando era criança e passava pelos ministérios falava: — ‘Mãe, quero trabalhar aqui’. E, quase por acaso, aqui estou eu hoje”, afirma.
A paixão pela música veio na adolescência, quando frequentava as festas matinê e admirava o trabalho de quem selecionava a setlist. “Olhava os DJs e ficava admirado, queria ser um deles”. Aos 18 anos, investiu em um curso em Taguatinga que lhe rendeu uma lista de contatos com a cultura brasiliense. Quem era professor, hoje é amigo de pista. DJ Neural é residente do 5uinto e da festa Let’s Dance, mas está sempre marcando presença em outras pistas de eletrônico. Sua profissão ainda causa estranheza, mas ele sempre pontua: “Essa é minha profissão, é isso que eu faço e pronto. As pessoas deviam ser mais cabeça aberta com relação a isso.”
DJ Weirdo? Hélio Matos?

Quem também é membro atuante do coletivo Crazy Cake Crew é Hélio Matos, mais conhecido nas pistas como DJ Weirdo. Ele começou cedo sua carreira profissional na Caixa Econômica Federal, logo depois de se graduar no ensino médio. Hélio passou em um teste de seleção para trabalhar com tecnologia da informação no órgão. Apesar de não ter muita experiência, foi selecionado e de lá nunca mais saiu — sua carreira ali beira os 20 anos — e agora é administrador do banco de dados.
Foi muito novo também que Hélio começou a colecionar discos de vinil. Comprava por prazer, inicialmente sem o intuito de seguir carreira. “Um amigo que já era DJ me propôs comprar um par de toca discos e daí fui aprendendo. Depois de ter mais de 90 discos, pilhei em levar a carreira adiante”, contou. Seu estilo passa pelo drum n´bass, jungle e chega no house. Formado em jornalismo, o DJ já trabalhou como editor de um site de música eletrônica em São Paulo, é residente do Velvet Pub, colaborador no 5uinto e redator do Crazy Cake.
Atualmente, no pós-expediente, Hélio trabalha na produção de festas eletrônicas diferenciadas. No mês de junho, Brasília irá receber a segunda edição da festa Bolha, em que os convidados não enxergam o DJ, que fica escondido atrás de um tecido.
Cris Quizzik é DJ Quizzik mesmo

Lembra aquela festa Moranga, citada ali em cima? Quem também toma a frente da coordenação do evento é o DJ Cris Quizzik. Além de trabalhar com projetos autorais, faz dupla de nu disco e future bass DeltaFoxx com seu parceiro, Fábio Popinigis. Com cara de menino e uma presença enérgica na balada, o DJ é arquiteto durante o dia, pai, esposo e — pasmem — está com 40 anos.
A veia musical vem de família. Sua mãe é pianista e ele desde pequeno integrava as classes da Escola de Música de Brasília. “Quando era mais novo queria ter uma banda, hoje tenho uma banda/dupla de DJs”, ele conta. Sua rotina durante o dia se divide em oito horas como arquiteto do GDF. Antes de optar pela carreira de funcionalismo público, ele trabalhava em um escritório de arquitetura, mas mal tinha tempo para si ou para continuar investindo na música.
“Eu gosto da minha carreira e gostei de ter mudado de opinião quanto a ser funcionário público. A gente tem que ter medo de nunca mudar de opinião, não o contrário.”
Atualmente, além de se dedicar a projetos arquitetônicos no Distrito Federal, ele trabalha com produção musical autoral para si e para o DeltaFoxx — residentes da Moranga.
Essa matéria foi originalmente publicada no portal Metrópoles de Brasília.