A leitura que faz o escritor: as fontes e inspirações do livro A Bandeira do Elefante e da Arara

Se eu tivesse que ensinar a alguém o caminho para virar escritor em uma só frase, eu escolheria: “ler mil livros e escrever dez.” Conheço centenas de autores, e acredito que este seja o processo básico que se forma os melhores.

Há muito mais envolvido em virar autor — anos de estudo para desenvolver a técnica— mas a formação básica acontece através da leitura e a escrita. De fato, considero a leitura a base de sucesso em qualquer área da vida, mas no caso de ficcionistas, uma leitura ampla é imprescindível. Por meio das palavras de escritores de culturas e épocas diferentes, o autor se expõe a uma infinidade de maneiras para se expressar. A leitura também oferece combustível para as nossas próprias histórias.

Não foi diferente com A Bandeira do Elefante e da Arara, série inspirada no Brasil Colônia e o folclore nacional, que está tendo sucesso em escala internacional. Além de terem concorrido grandes prêmios nacionais e internacionais, as histórias já foram publicadas em vários idiomas, desde a romeno ao chinês.

Acredito que este reconhecimento é fruto do tratamento dado à obra: uma combinação de pesquisa profunda e a técnica desenvolvida ao longo de décadas de escrita. Consultei centenas de livros ao longo de sete anos para escrever as dez histórias que formam o recém-lançado romance A Bandeira do Elefante e da Arara (Devir Livraria, 2017), e os leitores internacionais citam frequentemente a riqueza do mundo desenvolvido. O ambiente não é o principal, eu podia ter ambientado as histórias em qualquer lugar do mundo, utilizado o mesmo processo de pesquisa e ter chegado a um resultado satisfatório (acredito eu). Porém, a minha escolha de ambiente foi inspirada nas minhas próprias leituras.

Apresento aqui algumas das minhas fontes e inspirações para a série, embora longe de ser uma lista completa.

Começo com algumas referências ficcionais, obras que que influenciaram a minha decisão de escrever uma aventura histórica e a minha escolha de ambientação.

Primeiro, devo citar algumas das minhas ficções históricas preferidas, como, por exemplo, as grandes obras de aventura de Alexandre Dumas, que me entreteram bastante na minha infância. Estes incluem Os Três Mosqueteiros, Vinte anos depois e O Visconde de Bragelonne. Os eventos nestes livros começam, cronologicamente, apenas 50 anos após o começo de A Bandeira do Elefante e da Arara (1576), e certamente influenciaram a minha escola de época.

Deste mesmo período histórico, adoro o trabalho que o espanhol Arturo Pérez-Reverte está fazendo com suas histórias do Capitão Alatriste. Existem até hoje sete livros, dos quais três já saíram no Brasil: O Capitão Alatriste, Limpeza de Sangue e O Sol de Breda.

O livro Xógum, de James Clavell, é um dos meus preferidos, e embora a história aconteça no outro lado do mundo (no Japão), os eventos relatados ocorrem ainda mais perto das histórias d’A Bandeira, cerca de 1600.

Robin Hood é personagem de outra época, mas devorei estas histórias na minha infância, e há situações nos capítulos 4 e 8 do livro que foram diretamente inspiradas nestes livros.

A Bandeira do Elefante e da Arara não é apenas uma ficção histórica, é uma fantasia histórica. Li centenas de livros de fantasia na minha vida, mas os livros do J. R. R. Tolkien certamente foram entre os mais influentes. Li O Hobbit e a trilogia O Senhor dos Anéis várias vezes na minha infância, até os livros caíram aos pedaços. Que nem a Terra Média do Tolkien, a construção de um mundo fictício através do folclore é a base da minha série.

Sempre gostei do formato de ter uma dupla de protagonistas, onde duas pessoas, através das suas viagens, acabam se encontrando com diferentes grupos sociais da época. Assim, o leitor recebe uma ampla visão daquele lugar. É assim que acontece com Dom Quixote de Miguel de Cervantes e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. Em A Bandeira do Elefante e da Arara, os protagonistas Gerard van Oost e Oludara atravessam quase toda a extensão da colônia — desde Olinda a São Paulo —que me deixou oferecer uma interpretação ficcional de quase toda a sociedade da época.

A dupla de heróis deixa o autor apresentar o mundo através de duas visões e expressar opiniões diferentes (e muitas vezes contrárias). Como muitos dos meus leitores já adivinharam, a escolha de Gerard e Oludara foi influenciado pelos contos de Fafhrd e Gatuno, de Fritz Leiber. Como a minha dupla, aquelas histórias possuem muitas das mesmas características: uma dupla improvável de heróis; fantasia, na forma conhecida como “espada e feitiçaria”, que mistura ação e magia; a interação com todas as culturas do lugar (no caso de Fafhrd e Gatuno, um mundo fictício); e um foco na amizade crescente entre os protagonistas. Embora as aventuras de Fafhrd e Gatuno encham vários volumes, que também devorei na minha infância, há apenas uma publicação destas histórias no Brasil, uma adaptação para quadrinhos no livro Crônicas de Lanhkmar: Aventuras de Fafhrd & Gatuno.

As influências históricas são ainda mais numerosas, começando com o livro Viagem pela História do Brasil, de Jorge Caldeira. Li este no final dos anos 90 e foi o primeiro livro de história brasileira com qual tive contato, na tentativa de melhor entender o país em que escolhi morar.

O próprio Gerard van Oost foi parcialmente inspirado nas minhas leituras sobre o Hans Staden, mercenário alemão que visitou o Brasil Colônia duas vezes no século XVI. Há várias edições destas histórias no Brasil, de quais li uma chamada Duas Viagens ao Brasil.

Depois de escolher uma época para as minhas histórias, os livros da coleção Brasilis, de Eduardo Bueno, me ajudaram a situar-me na época. Estes incluem A Viagem do Descobrimento; Náufragos, Traficantes e Degredados; Capitães do Brasil; e A Coroa, a Cruz e a Espada. Estes livros contam a história do Brasil até mais ou menos 1550, 25 anos antes do começo dos eventos relatados em A Bandeira.

Para escrever as dez histórias da série, consultei uma verdadeira biblioteca de livros de história. Estas leituras incluíram: História Geral do Brasil (dois volumes), a obra extraordinária de Francisco Adolfo de Varnhagen, Anais Pernambucanos (volumes I e II), de F. A. Pereira da Costa, Bahia e as Capitanias do Centro do Brasil (3 volumes), de J. F. de Almeida, A Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, de Frederico Trotta, O Rio de Janeiro no Século XVI e de Joaquim Veríssimo Serrão, História do Estado do Espírito Santo, de José Teixeira de Oliveira. Alguns livros de história de outros países também ajudaram bastante, para acertar o contexto histórico. Entre eles incluo The Time Traveller’s Guide to Elizabethan England, de Ian Mortimer, vários livros da coleção espanhola Guerros y Batallas e outros…muitos outros.

Mais importantes ainda foram os livros dos cronistas seiscentistas. Devorei Tratado da terra do Brasil e História da província Santa Cruz, de Pero de Magalhães de Gândavo, As Singularidades da França Antártica, de André Thevet, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, Historia do Brasil, de Frei Vincente Salvador, Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry, The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Discoveries of the English (16 volumes), de Richard Hakluyt, As Incríveis Aventuras e Estranhos Infortúnios de Anthony Knivet e outros. Os jesuítas deixaram uma riqueza de textos, entre eles a Crônica da Companhia de Jesus (dois volumes) e A Vida do Venerável Padre José de Anchieta, de Simão de Vasconcelos, e Primeiros aldeamentos na Baía e Informação do Brasil e de Suas Capitanias, de Padre José de Anchieta.

Mesmo assim, tive que aprofundar ainda mais em vários tópicos.

Por exemplo, as melhores referências que encontrei sobre a cultura Tupi do século XVI são Organização Social dos Tupinambá, de Florestan Fernandes e Religião dos Tupinambás, de Alfred Métraux. O livro Delícias do Descobrimento, de Sheila Moura Hue, é uma ótima referência sobre a culinária da época. Para escrever o trecho do livro na África, pesquisei outras dezenas de livros, inclusive Benin Kings and Rituals: Court Arts from Nigéria, de Barbara Plankensteiner; History of the Yorubas: From the Earliest Times to the Beginning of the British Protectorate, de Samuel Johnson, e o clássico Yoruba-Speaking Peoples of the Slave Coast of West Africa, de A. B. Ellis.

Para os elementos de folclore, usei dezenas de fontes. A referência clássica é o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, que influenciou não apenas na escolha das criaturas folclóricas, mas também inspirou, por exemplo, o outeiro (a batalha poética) do capítulo 9. Outras fontes interessantes incluem Lendas Brasileiras, de Dolores Carmem; As 100 melhores lendas do folclore brasileiro, de A. S. Franchini; Lendas do Índio Brasileiro, de Alberto da Costa e Silva; a série Mitologia Brasílica (6 volumes), de Benedito Mouzar e Ohi; e os livros O mais legal do folclore, O mais assustador do folclore e O mais misterioso do folclore, de Luciana Garcia.

Em termos mais amplos, posso citar a influência de algumas partes da Bíblia, de mitologia mundial em geral, a até alguns momentos de ação inspirados em mangá. As influências também vão além dos livros. Posso dizer, por exemplo, que o capítulo dez teve influência dos filmes de Daikaiju que assisti na minha infância, com um toque do jogo Shadow of the Colossus.

Para finalizar, devo mencionar que houve uma bibliografia no final de Advanced Dungeons & Dragons: Dungeon Master’s Gude, um livro de RPG que eu jogava na minha infância. Esta bibliografia abriu um mundo de leitura para mim que foi uma grande influência. Ela certamente ajudou a me levar ao longo do caminho que trilhei até hoje. Eu procurava estes livros aos montes na biblioteca pública local. Por isso, planejo fazer a mesma coisa com a minha obra: incluir uma bibliografia no livro de RPG A Bandeira do Elefante e da Arara: Livro de interpretação de papeis, a ser lançado ainda este ano, na esperança de instigar uma nova geração de jovens a explorar outros mundos através da leitura.

Mesmo que faltem muitas obras a citar, encerro esta lista aqui. Já citei mais de cinquenta livros, um para cada seis páginas que escrevi de A Bandeira do Elefante e da Arara. É nesta faixa de leitura que se cria o ficcionista.