Temer o temor

Quase 3 meses foi o tempo em que passei afogada em meu próprio corpo que sucumbia pelo pânico que sentia. Eu temi por setenta e seis dias as mais diversas e inofensivas situações. Não existe nada mais apavorante do que perder o controle da sua própria mente e do seu corpo. Toda vez que minha língua inchava e minha garganta diminuía, eu sabia o que estava por vir. Eu passava vários minutos observando elas no espelho como se possuísse um elefante em minha boca. Ambas estavam em condições normais. O pescoço, então, parecia estar envolto por uma corda ou por duas mãos que o apertavam sem piedade. O estômago se contorcia, me deixando enjoada. Minhas mãos, pés e inclusive joelhos formigavam como se houvesse um exército de formigas correndo debaixo da minha pele. Meus olhos saltavam, a respiração falhava, meu peito apertava e o coração acelerava. Então, como se meu corpo fosse um filho, eu o abraçava, dizia que ia passar, que estava bem de saúde e que sabia que minha saúde mental era a única que estava em atrito, naquele momento. Sentia meu coração, respirava fundo — está tudo bem, tu sabes que está tudo bem. Mas não estava. Eu estava aterrorizada: era o meu fim, pensava. A morte parecia a mais cruel dos destinos, o sofrimento parecia a única coisa que me restara. Tanto caminho para trilhar, tantos objetivos para cumprir. O pânico aumentava. Nas piores crises, meu corpo tremulava como uma bandeira de modo que ficar ereta era improvável, o medo me encurralava e os joelhos formigavam. Eu sentia calafrios, minhas gengivas formigavam, minhas mãos vertiam água. Pânico. Mas pânico do quê? Não sei! Ninguém sabia, mas fazia questão de perguntar. As dúvidas também torturavam.

Passou. Sobrevivi novamente. Quando seria a próxima vez? Continuava a temer. Não queria dormir, mas estava exausta — e se eu não acordasse? E se eu tivesse sonhos lúcidos e visse meu corpo enquanto dormia ou se tivesse paralisia do sono? Não queria comer, mas precisava — mas e se eu engasgasse? Se a comida trancasse na minha garganta? E se eu desenvolvesse alergia a algum alimento ou provasse algo novo do qual sou alérgica e não sei? O almoço era uma das piores partes do dia. Entre mastigar muitas e muitas vezes antes de engolir e tomar muito líquido ao mesmo tempo que tenho mini ataques ao sentir a comida encostar na minha garganta, eu temia deixar meus pais preocupados outra vez. Pronto, venci mais uma refeição. Pior do que isso, só a hora de ingerir medicamentos — mesmo se eu estivesse acostumada a todos eles.

Sair de casa também me aterrorizava, ainda que não temesse a assaltos ou acidentes. O simples fato de sair da cama era trágico. Assim como tomar banho. Havia algo na água do chuveiro que me machucava, de alguma forma. Enxaguar o rosto era um mini afogamento. Escovar os dentes tinha algo de sufocamento.

O peito passou os setenta e seis dias apertado, sofrido, doído, a beira de outra crise. Acordava e a sensação ruim não havia sumido. Era o primeiro e o último pensamento todos os dias.

Entretanto, nada começa por acaso, ainda que aparentemente não exista razão. Antes, durante um ano ou mais, a depressão fez de mim a sua morada. Logo em seguida, o estresse tomou o lugar. Por último, o pânico. Dos três, o pior. Eu já havia aprendido a lidar com a apatia que a depressão causava, mas era impossível lidar com a paralisia que o pânico causou.

“All things must pass”, diz a canção de George Harrison. George estava certo. Tudo passa. Porém antes, precisamos resistir, lutar e, principalmente, pedir ajuda. Ninguém vence uma guerra sozinho, principalmente se não possui armas suficientes para isso. Ainda que ferir o orgulho possa parecer ruim, se permitir ser ferido por uma doença mental dói muito mais. Eu vi muitas mãos estendidas, mãos de cura, mãos de proteção. Eu sou grata a todas elas.

“Sinto muito. Me perdoe. Te amo. Sou grato.” Ho’oponopono

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Karen Krüger’s story.