Calor

Você sai de casa linda e cheirosa, flor do Rio de Janeiro. Cabelos ainda molhados, maquiagem intacta, uma belezura aromática. 
Aí fica esperando o ônibus. E fica. E fica. Começa a brotar aquele suor por cima dos lábios e nas têmporas. Por trás dos joelhos desce o primeiro fio de suor. O ônibus não vem e o calor começa a te agredir. Olha para os quadris, e vê o vestido já marcado com as gotas de suor.
Ufa! Lá vem o ônibus! 
Ahhhhhhhrrrggggg! É um quentão! 
A prefeitura promete, a lei obriga, mas as mafiosas empresas de ônibus não colocam ar condicionado em todos os ônibus. Mas nem tudo é azar, apesar do calor dentro do transporte de lata fechado, hoje não está lotado! Nossa, que sorte! 
Senta no ônibus feliz, porém, os lugares disponíveis são todos do lado do sol. E na primeira curva o ônibus para. Engarrafamento...
O sol da manhã já fere sua pele, seus joelhos estão melados, a maquiagem dá sinal de cansaço. O ar quente te abraça dentro do ônibus parado e as pessoas começam a se abanar. Alguns tentam, em vão, abrir a janela além dos ínfimos quatro dedos que o troço abre. Janelas inúteis. O calor gargalha de você. Pressão começando abaixar, limite da tolerância ao calor alcançado. 
Aí o ônibus começa a andar e você tenta se ajeitar pra pegar um pouco de ar de alguma janela. Passageiros nem falam. Dormentes de calor.
Chega na estação das barcas e você corre por sua vida buscando um pouco de ar condicionado. Mas assim que passa na roleta, as portas se abrem pra que os passageiros aguardem a próxima barca, em cinco minutos do lado de fora da estação, já no pier de embarque. 
Nada de ar condicionado e nada de brisa do mar bem da baía, nem de lugar nenhum. 
Duas mil pessoas aglomeradas no píer esperando a barca. Cinco longos minutos. Seus braços já estão cobertos de suos, cada poro com a sua gotinha, na inútil tentativa do seu corpo de equilibrar a temperatura. Não rola, corpo! Para de tentar!
O advogado ao seu lado derrete dentro do terno. Aquele casal à sua frente solta as mãos um do outro porque o suor impede qualquer aproximação corporal. A senhorinha na fila de embarque de idosos saca um leque e começa a se abanar em vão. O senhor atrás dela tenta captar um pouco do movimento do ar que ela desloca. 
Você, já disse adeus à sua maquiagem, seus olhos quase iguais a um panda. O desodorante avisando que não dá. Do alto do seu nariz, onde os óculos escuros encostam, descem filetes de suor. 
Claro que a barca que está vindo pra você (e os outro 1999 passageiros) também não tem ar condicionado. Com ódio, você olha as três barcas novas, enormes e refrigeradas atracadas nos píers. A concessionaria não as coloca em uso. Dizem que é a crise do Estado, ou a roubalheira de seus dirigentes. Eu acho que é sacanagem mesmo! 
A porteira abre e a manada grudenta segue em direção ao caixote de ferro quase totalmente fechado. A barca atual possui pequeninas janelas em nível acima da cabeça das pessoas sentadas, que não veem mais a baía. Ocasionalmente vemos um avião pousando no Santos ou a ponta de um mastro de um navio gigante que tem a preferência de passagem e atrasa a barca todos os dias. O ar não circula dentro do caixote infernal e a primeira golfada de ar que você respira ao entrar nele fede a suor. 
Você já furou a multidão em direção ao lado da barca que não pega sol, e tenta agora empurrar quem estiver à sua frente em busca de um lugar mais próximo possível à proa da embarcação. Bobagem achar que vai ser mais fresco: a barca navega tão devagar que o ar não se desloca; as frestas da porta da frente do barco agora têm frestas estreitas exatamente pra não sair o ar condicionado que deveria estar ativo na embarcação; e as dez primeiras fileiras de "assentos de cor laranja são direcionados para gestantes, idosos, crianças e pessoas com deficiência. 
Na décima primeira fileira não há brisa, não há ar, não há possibilidade de não suar. 
Você tenta desesperadamente desencostar seu braço do homem ao seu lado. Ele escorre de suor dentro da gravata. Camisas encharcadas, cabelos longos amarrados pra cima, leques à todo vapor, murmuros sobre o calor, pessoas em pé ansiosas tentando ver pelas frestas da porta frontal se já está acabando o longo suplício de vinte minutos. O microondas sobre a Baía fe Guababara cozinha calma e lentamente. Abafado, quente, insuportável. E pensar que há barcas com ar condicionado disponíveis... 
Não, não pense nisso, pois revoltar-se aumenta a pressão, os batimentos cardíacos e com eles, o calor. 
Ufa, desembarque na Praça XV liberado! Você quase corre por entre as pessoas grudentas, já fedorenta e horrorosa pra se sentir livre pra caminhar os dez minutos seguintes até o seu trabalho. Mas a burrice humaba cobra seu preço. 
A Praça XV, ainda um enorne canteiro de obras, não previu árvores em seu projeto. Então você é obrigado a andar apressado pra cruzar o espaço forrado de pedras portuguesas pretas e vermelhas que retém o calor. As brancas refletem os raios solares diretos na sua pele. Você já sente suas bochechas queimarem, seus ombros já com queimaduras de sei lá qual grau, e agradece ao protetor solar que passou em casa por ainda não ter desenvolvido cancer de pele.
A falta de árvores é estúpida e o espaço público está feio e quente. Só um vão livre, cheio de gente, absurdamente quente por onde você tem que passar correndo todos os dias pra não terminar de fritar.