O senhorzinho

Já era noite quando um senhorzinho entrou na minha sala. Tinha consigo uma notificação do escritório para que comparecesse lá com intuito de tratar de assunto de seu interesse. Correspondência padrão. Não me dava pistas do que se tratava.

Peguei o processo dele no arquivo e sentei-me à sua frente para atendê-lo. Folheei o processo para tomar conhecimento do que se tratava. Seu olhar curioso me acompanhava, ansioso.

Pronto, achei uma peça que me mostrou porque o tínhamos chamado. Nesse momento eu queria sumir dali. Fui a sorteada para olhar nos olhos daquele senhorzinho e dar-lhe a notícia. Processo de 2009...

Senhorzinhos sempre me davam dó. E quando se trata de um processo trabalhista, invariavelmente, significava muito tempo de trabalho, patrão que não pagou o que devia pelos anos e anos de dedicação, injustiças. E aqueles olhos cansados me esperavam, um leve sorriso simpático no rosto.

Comecei a explicar...
O processo,de 2009, fora perdido no cartório da vara, depois encontrado seis meses depois, e todas as tentativas de encontrar bens à penhora para executar o reclamado restaram infrutíferas... Não. Digo, todas as tentativas de achar dinheiro, carro, imóvel ou investimentos da empresa onde trabalhara não deram em nada.

Ele permanecia impassível. Simpático sorrisinho estampado no rosto enrugado. Eu não sabia se ele não estava entendendo ou se estava chocado. Talvez quisesse chorar. Eu certamente queria.

Em audiência fizeram um acordo no qual a empresa se comprometeu a pagar mil e duzentos reais em quatro vezes! Era tão pouco pra esperar tanto tempo! E havia outras cento e cinquenta ações na frente da dele que esperavam para receber alguma coisa da tal empresa. Cento e cinquenta! E, depois de longos sete anos, o juiz havia extinguido a ação! Duro de explicar.

Fui dizendo que ele tinha direito a uma certidão de crédito trabalhista, que, no fundo, era um documento que certificava que ele tinha direito a "x" mas não foram encontrados bens que pudessem quitar o que lhe era devido. Esforcei-me pra não dizer que era um papel inútil, pra ele pendurar na parede!

Depois de eu explicar, falar e me repetir, tentando dar a notícia ruim a ele da maneira menos pior, parei. Não havia mais o que dizer.

Ele simplesmente me perguntou onde ele podia pegar a tal certidão, sorriu, me agradeceu e saiu do escritório com um papel na mão contendo os dados do processo que eu anotara pra ele.

Fiquei ali, sentada na cadeira vendo-o sair e me sentindo derrotada. Era o mesmo que um médico ter que dar a notícia à família, de que o seu paciente tinha morrido. 
O processo morreu.