Benedito em casa

As noites de febre são especiais.

Na verdade, elas são caóticas. Mas como acredito que é no caos que temos as melhores lições e os maiores aprendizados, continuo achando que essas noites — depois de alguns dias- se tornam especiais.

Tenho uma outra teoria que diante dos maiores crescimentos temos nossas fraquezas escancaradas. Nossos medos vem em dobro. Nossos obstáculos aparecem duplicados. E nosso corpo reage.

Alguns estressam, outros deprimem. Muitos adoecem.

Minha filha, tem febre.

Sempre foi muito sensível aos ambientes, mudanças e pessoas.

Nos últimos dias, depois de duas semanas na casa nova, trouxemos o Benê.

Benedito, nosso cachorro, passou esses meses na casa da outra avó. Por lá, tinha outras cachorras, passeio e vida boa. Mas não tinha a gente.

Nós também. Tínhamos vida boa, companhia, mas não tínhamos ele.

A euforia era imensa. Ela pronunciava frases a cada minuto:

- “Hoje é um dia especial”.

- “Agora a família está completa”.

- “Tenho tudo o que faz meu coração feliz”.

E por aí foi.

A noite estava linda. Já a minha filha, estava encantadora e em um ótimo dia, depois de tantos outros onde estava agressiva e oscilando o humor.

Suspirei aliviada, pensando que tudo ia ficar bem. Aquele pingo de esperança depois de muitos dias conturbados.

Ela não queria deixar o Benê sozinho. Estava preocupada em deixá-lo confortável e apresentar a casa toda. Colocou um tapetinho para ele, estrategicamente posicionado ao lado de sua cama. Tinha planos.

Ela ia atrás dele. Ele fugia dela.

Procura, esquiva. Encontra, desvia.

Ela ia explicando os barulhos da casa nova, os cantos e as sensações. Parecia revisitar o seu próprio processo.

Perguntou porque ele não parava quieto.

Assim como ela, alguns dias atrás.

Para variar, dormimos na nossa cama, pois foi o único jeito que encontramos de ficar todos juntos para que ele não saísse de perto.

Depois, já na dela, começou a reclamar e choramingar sua dores. Não estava mais tudo tão bem.

Lá estava nossa companheira dos aprendizados. Do caos. Do mal-estar.

Aquela febre que vem limpar os sentimentos inflamados. Vem suar os poros entupidos e acalmar a euforia dos momentos.

Pode vir.

Estamos prontos. Agora completos.

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