Domingo de sol com a minha avó

A minha avó está virando passarinho.
Nem sempre foi assim. Em outros tempos, vovó era dragão: couraça de escamas impenetráveis, força descomunal, fogo jorrando pela boca. Apesar de nunca ter lançado o seu assombroso poder contra mim, ela me espantava e maravilhava e também envergonhava um pouquinho. Sempre pronta, feito arma engatilhada, pra vociferar violentamente contra os motoristas de ônibus abusados, atendentes de loja desatentos ou colegas de almoço inexplicavelmente dispostos a defender o capitalismo, a direita ou a existência de Israel. Não faz nem seis meses, eu tive que segurar o seu corpinho, agora tão menor que o meu, pra impedi-la de atacar um táxi que tinha avançado no sinal enquanto a gente voltava do hospital.
De um jeito ou de outro, minha avó nunca pareceu ter, em momento algum, dúvidas sobre a legitimidade e o direito de manifestar as suas muitas e muito justificadas fúrias. Nas suas tantas histórias do passado, ela era sempre maior que os valentões da vizinhança, mais esperta que os professores arrogantes e mais capaz que os colegas competitivos, e apesar de nunca ter sido muito grande, esperta ou dada a competições, provavelmente foi com ela que eu aprendi que podia fazer o mesmo. Que eu podia falar. A vovó, afinal, falava — e felizmente, foram muitas as oportunidades que eu tive de escutá-la.
Era a vovó quem me levava em boa parte das minhas investidas cotidianas para além da vila onde eu morava com meus pais, sempre contando histórias que nos carregavam pra mais além ainda dos lugares aonde a gente ia: o dentista em Botafogo na época em que eu usei aparelho e as cintilantes ruas de Paris no pós-guerra, as aulinhas de piano no conservatório na Cinelândia e as desafiadoras aulas de anatomia na Universidade do Brasil, a escola naquele estranho ano em que a gente ficou morando na casa dela e a mesma casa, muitos anos antes, onde ela foi morar sozinha pela primeira vez na vida. Lá, aos seis anos de idade, minha distração favorita era abrir as duas primeiras gavetas da grande cômoda de madeira escura que ficava no quarto dela para investigar os seus misteriosos conteúdos rescendentes pó de arroz e poeira. Na da esquerda ficavam os colares de coral colorido, pérolas falsas e ouro pintado, os leques antigos se desfazendo em pedaços, os perfumes vencidos. Na outra ficavam as cartas, redigidas nas indecifráveis caligrafias dos adultos, tão instigantes quanto misteriosas.
Tirando esse ano esquisito, nós íamos muito lá também aos fins de semana, para dormir quando nossos pais saíam à noite e pra almoçar nas tardes de domingo. Ambos eram grandes eventos. Quando a gente dormia na casa da vovó, as minhas coisas favoritas eram a fronha de travesseiro estampada com desenho de arco-íris, porque parecia que ela era uma coisa feita pra criança — feita pra mim, tocantemente incongruente com aquela casa sóbria e sombria de senhora — e a TV a cabo, porque a gente podia ver Mr. Bean de noite e os desenhos do Cartoon Network de manhã. As que mais me espantavam eram os seus roncos cavernosos, os enormes seios que eu espiava quando ela colocava a camisola e o jeito de tomar o café da manhã: mesa posta, uma caneca de café com leite e uma laranja inteiramente descascada, cortada e comida com garfo-e-faca. Quando almoçávamos, era com guardanapo de pano no colo e as comidas especiais que só ela sabia fazer, e só aos domingos: rosbife, arroz de lula e brócolis, às vezes camarão.
O bacalhau que ela preparava nos natais era o favorito do meu pai, e os bolinhos brownie que um dia apareceram em pequenos quadradinhos enfiados num grande tupperware cor-de-rosa, vindos de alguma receita de verso de caixa de chocolate em pó, sempre serão o meu doce preferido. Só muito tempo depois eu descobri que a vovó nunca tinha sido de cozinhar, e foi aprender só bem depois de adulta, quando a vida ficou mais tranquila. O que demorou bastante pra acontecer, na verdade, mas disso ela nunca falou. Dura, forte e terrena, vovó falava das viagens, dos parentes importantes, das aventuras das tias e irmãs e das habilidades da mãe e dos ditados e canções populares do avô americano. E de suas opiniões, que eram muitas e muito exaltadas, sobre tudo e mais um tanto.
Faz um tempo já, no entanto, que a vovó foi deixando de ter suas opiniões, de contar suas histórias e de atacar os táxis na rua. Nos últimos meses, na verdade, a vovó tem ficado muito quietinha, sentada em sua poltrona com os olhos fechados, perdida em alguma virada no enorme e tortuoso túnel da sua memória e retornando apenas pra cantar canções de muito antigamente, tão antigamente que parece até um tempo anterior ao dela mesma.
Nesse fim de semana, vovó esteve internada no hospital e eu fiquei com ela, que parecia estar voando mais e pra mais longe do que nunca. Pra segurá-la um pouco mais junto de mim, coloquei pra tocar algumas músicas de antigamente e massageei cuidadosamente os seus pequenos pés, os ossinhos sob as minhas mãos parecendo porcelana das mais finas e quebradiças e ricamente desenhadas. Pousando momentaneamente de algum longo voo impossível para mim, ela abriu os olhos e cantarolou, com o sorriso satisfeito de quem reencontra algum amigo muito antigo. Depois, meio cansada, ela fechou os olhos novamente e remexeu seus dedinhos sob as minhas mãos.
Vovó está virando passarinho.
