Bird Box e o Feminismo às Avessas

Uma análise feminista acerca Bird Box, maternidade compulsória e pais ausentes

Bird Box (Susanne Bier, 2018) atraiu uma atenção considerável dos internautas e espectadores logo em seu lançamento, muito semelhante às manifestações acerca outras produções do Netflix, como A Maldição da Residência Hill (Mike Flanagan, 2018) e Aniquilação (Alex Garland, 2018). Se a atenção concedida ao título é algum indicador de sucesso ou não, isso já é outra história. O que podemos concluir a respeito disso é que a Netflix sabe como promover seus produtos, mas o que será debatido a seguir são as ligações do filme com o terror e horror, e uma análise feminista sobre a produção.

Os últimos anos têm sido marcados por uma reanimação do cinema de horror e terror; podemos retroceder até Atividade Paranormal (Oren Peli, 2009) e apontar os recentes Halloween (David Gordon Green, 2018) e A Freira (Corin Hardy, 2018) como marcas desse movimento na indústria. Netflix não fica fora disso; a plataforma tem um grande potencial de financiar simultaneamente as mais diversas produções, não se vinculando a algum tipo específico de gênero. Nessa empreitada produziram Bird Box, cotando Sandra Bullock como atriz principal e se apoiando nos sucessos recentes de Um Lugar Silencioso (John Krasinski, 2018) e até mesmo Babadook (Jennifer Kent, 2014). A ligação com Um Lugar Silencioso é palpável: a presença de uma limitação sensorial e como isso afeta a sobrevivência dos personagens. Uma característica de filmes de terror é como são capazes de causar medo e aflição através de situações de vulnerabilidade, onde os personagens não detém o controle do ambiente. Nisso, Um Lugar Silencioso transmite um sentimento mais intenso do que Bird Box. Agora, qual a relação de Bird Box e Babadook?

Filmes de terror e horror são, além de assustadores, terrenos férteis para a discussão de temas delicados. Sangue de Pantera (Jacques Tourneur, 1942) tem, dentro de si, interpretações a respeito da homossexualidade das personagens. Corra! (Jordan Peele, 2017) discute o racismo em um ambiente de terror para o protagonista negro. Nesse sentido, Bird Box apresenta um tema similar ao de Babadook: a maternidade. É quase intrínseco ao terror as ponderações sobre a psique dos personagens e a realidade, o gênero se tornou uma válvula de escape para assuntos tabus da sociedade. No caso de Babadook (diferente de Bird Box) isso ocorre com a negação da maternidade.

Bird Box pode ser visto, de forma rasa, como uma propaganda feminista — afinal, apresenta uma protagonista feminina, mãe solteira, que tem dificuldades em aceitar a gestação. Contudo, a forma como o filme é conduzido trai essa visão. Malorie (Sandra Bullock) é sempre apresentada fazendo demonstrações de força e coragem: ela sabe como usar uma arma, mesmo não atirando em ninguém; ela foi criada como um “lobo”, sempre referenciando seu pai ausente, o que implica que ela é resiliente. Todas essas características são referenciadas, mas se tornam negativas ao longo do tempo. Tom (Trevante Rhodes) grita, numa cena, que as crianças precisam de uma mãe. Não um pai, não um amigo, mas uma mãe. Não basta ele contar as histórias, não basta Malorie assegurar a proteção, as crianças precisam de amor materno e feminino.

Essa postura que o filme coloca de que as crianças precisam de amor feminino e maternal, ainda usando a falecida Olympia (Danielle Macdonald) como uma figura oposta à de Malorie, transforma a maternidade de Malorie em uma maternidade compulsória. Todos os aspectos que afastam Malorie da imagem de feminilidade tradicional têm origem em elementos negativos: um pai ausente, dificuldade de se conectar aos outros, relacionamentos instáveis. Assim, dificilmente a postura dela é encarada como algo natural. É como se o filme dissesse: nenhuma mulher, sob circunstâncias normais (um ambiente familiar saudável, carinhoso), se comportaria assim. Malorie é o ponto fora da curva e Olympia está dentro.

Outro elemento de apoio a isso é o personagem de John Malkovich, Douglas. Apresentado inicialmente como um homem insensível e homofóbico, o personagem é usado como uma figura paternal para Malorie, evidenciando as semelhanças entre ele e seu pai biológico. O personagem é antipático e com um caráter duvidoso, mas ao longo da trama suas atitudes ganham justificativas. O momento de autossacrifício do personagem é uma redenção, através da qual ele pode ser perdoado por seus pecados e falhas. O filme desculpa as atitudes ruins de Douglas em uma tentativa de explicar para Malorie e os espectadores que seu pai biológico tinha um motivo para tê-la criado sem afeto. O que fica implícito é que, apenas através de uma criação cruel, ela estaria apta para viver nesse mundo distópico, o que valida e justifica a ausência das figuras paternas. Contudo, é importante notar que o comportamento frio e distante é naturalizado para os contrapartes masculinos (se eles não fossem assim, não conseguiriam proteger os outros), enquanto para Malorie é algo a ser superado.

Numa forma de epifania barata desencadeada pela escolha de sacrificar ou não uma das crianças, Malorie começa a aceitar ali seu papel de mãe, sendo enfiado de vez goela a baixo quando ela grita num ato de desespero “Não levem meus filhos!” na iminência da morte deles. O gênero de terror é utilizado quase como um mecanismo aqui para obrigar, de forma sutil, a protagonista a cuidar das crianças. Em um cenário apocalíptico é impossível nutrir simpatia por um personagem se ele negar ajuda a crianças ou pior, se sacrificar alguma. É a jornada da inevitabilidade da maternidade para Malorie. O final, onde ela encontra um “paraíso escondido”, é a cereja no topo do bolo. O santuário é quase o Éden, diferente dos abrigos comuns em filmes de zumbis e apocalípticos; é bem preservado, exala abundância e paz, e abriga um grupo seleto de pessoas. A maternidade é tratada como um bem precioso demais no filme para adentrar um lugar bruto e vulnerável a ataques. Malorie só alcança o local após aceitar a maternidade, carregando duas crianças que emplacam uma versão mirim de Adão e Eva. Talvez, se não aceitasse, seu destino seria a danação.

Ainda podemos comentar sobre outros aspectos do filme, como as performances de masculinidade protetora dos personagens masculinos, enraizadas em demonstrações de poder, e a ilusão de força de Malorie. Como dito anteriormente, Malorie demonstra saber usar uma arma de fogo, mas não a usa em combate, optando por uma arma branca (um facão). Nas situações de perigo ela ainda adota uma postura defensiva. Malorie é salva das situações mais graves por Douglas, Tom e Charlie (Lil Rel Howery), em atos de auto-sacrifício que exaltam a nobreza dos personagens. Então, enquanto o combate masculino é retratado como uma exaltação do papel de protetores e defensores, a autodefesa de Malorie é colocada como quase instintiva, maternal.

Tratando-se do terror, podemos encontrar resquícios de H. P. Lovecraft na trama — a loucura, a verdade oculta, os desenhos das criaturas — mas o pouco que há não é aproveitado, e os elementos sobre insanidade dão vazão a interpretações frouxas sobre os medos dos personagens. Porém, dizer que Malorie veria bebês, por exemplo, ou que Tom viu Malorie morrer, é extremamente inútil visto que no filme não há mistério algum sobre os medos e personalidades dos personagens.

❝ Através disso podemos demonstrar que não basta uma figura feminina para existir uma história feminista, e que os elementos de medo e terror do filme ficam subjugados a essa trama vazia, quase propagandista, de maternidade.

Não há como negar que Bird Box, assim como Babadook ou Precisamos Falar Sobre Kevin (Lynne Ramsay, 2011), trata de uma jornada sobre maternidade, fato afirmado pela própria Sandra Bullock em entrevista (aqui e aqui). Esse era o objetivo da produção: falar sobre maternidade, medo e mães solteiras. Porém, diferente de outros filmes do gênero, Bird Box não desafia nenhuma noção ou regra. O medo que a personagem sente de não ser capaz de criar vínculos amorosos é superado com enorme facilidade durante o filme, e seu desejo de não ter filhos é apenas ignorado ao longo da trama e substituído pela inevitabilidade de seu destino (ser mãe). Não se fala sobre o problema sob outros ângulos, como onde está o pai da criança, ou o apoio de familiares e amigos, sendo esses grandes desafios de uma gravidez a sós. O filme quase embarca na onda contrária; na tentativa de mostrar que não há problemas em ser mãe solteira, cai na armadilha de afirmar que maternidade é natural e instintiva para as mulheres. Através disso podemos demonstrar que não basta uma figura feminina para existir uma história feminista, e que os elementos de medo e terror do filme ficam subjugados a essa trama vazia, quase propagandista, de maternidade.