Vai ter que ser bom
Hoje eu peguei a chave do meu novo apartamento.
Quer dizer, não é novo. E também não é meu. Mas é pra lá que eu vou, depois de onze anos morando em um lugar que eu amo, que também não é nem meu e nem novo. Muito pelo contrário: é velho, enorme e cheio de problemas. Mas é a minha casa. Foi isso que eu disse quando entrei aqui pela primeira vez: "essa é a minha casa", e juntei as correspondências que se acumulavam na porta. E agora estou tendo que sair da minha casa, a minha casinha, com meus quadros, meus lustres, minha história, minha vida adulta quase inteira.
Mas vai ser bom, elas dizem. Você vai se livrar das tralhas que acumulou durante anos, elas dizem. Vai mudar de vibe, elas dizem. Vai ser melhor pra sua filha, elas dizem. É tudo verdade. Mas isso não quer dizer muita coisa para meu coraçãozinho apegado aos tacos velhos da sala, ao imenso corredor que percorri tantas vezes com pressa, com calma, com amor, na solidão, a varanda do quarto que nem uso mais porque a porta está emperrada, a luz que bate na minha cama quando a cortina se mexe, e, principalmente, meu apego à Praça Roosevelt, que fica a dez passos daqui.
Quando eu cheguei a praça era o horror. Depois piorou. Aí veio a reforma e a vida virou um inferno com escavadeiras e britadeiras constantes e eu tendo pesadelos de trincheiras de guerra. Agora é maravilhosa, fervilhante, viva, com toda uma cena atrelada a ela com os skatistas, as batalhas de rima e o rap, os teatros, os bares, as pessoas todas. Com o Zé, dono do nosso bar, meu e da Mari, minha melhor amiga de infância que mudou pra praça justamente para que ficássemos perto. Eu não vou mais estar a duzentos passos da porta da casa da Mari. Não vou mais poder me entorpecer na praça e voltar a todas as horas da noite com os olhos fechados pois meu corpo já sabe o caminho, não vou mais estar aqui. Aguentei a praça toda cagada por anos e agora que ficou legal eu estou indo embora.
Hoje eu peguei a chave do meu novo apartamento e odiei. As paredes são cor de ovo mexido e cheias de buracos, as portas são horríveis e tem uns ventiladores de teto tão cafonas que eu tinha bloqueado a memória de que estavam lá. A vista é linda. O banheiro é azul. A cozinha é uma gracinha. Ainda tenho que pintar, arrumar, deixar com a minha cara, encontrar os espaços para as minhas coisas. Ainda não tem nada de minha casa lá. É só um lugar que eu tenho a chave.
Passei muitos anos da vida dizendo que era de "lugar nenhum". Não tenho nenhuma ligação especial com a cidade de onde venho, com exceção da minha família. São Paulo é a minha casa, a cidade que me acolheu e me bateu muito antes de me aceitar. E o Centro é o meu lugar. Não lá em cima, na terra dos brancos para onde estou indo. Não no epicentro do panelaço, não lá. Aqui.
Mas é lá que eu vou morar.
Ai, que saudade que vou sentir de atravessar a praça e ir no meu mercadinho. Da minha manicure. Daquela descidinha de leve só pra ver o que está rolando, aquela cerveja fácil na escadaria, da efervescência que ficava bem aos meus pés. Da pizzaria que me deixa dever, da pet shop que alimentou todos os meus gatos por anos, ai, que saudade que eu já sinto de flertar com os moços bonitos enquanto venho pra minha casa, minha casinha.
Atravessei a praça agora e me vieram as lágrimas. Que saudade. E eu ainda nem fui.
Que drama, claraverbuck, você só está mudando de casa. Mudar é bom. Vai ser bom. Tem que ser bom. Eu vou ter que fazer ser bom.