Abusivo

É assim nosso relacionamento. Espero todas as noites. Vem na hora que quer. Me domina. Se passa muito tempo comigo, no outro dia demora. Têm dias em que deixa de vir. Diz que não posso ficar mal acostumada. Me desespero. Viro e reviro. Fecho os olhos, me esforço. Finjo que chegou. Quando estou quase lá, um barulho, um pensamento, um sobressalto. Sem ele é difícil. Diz que preciso sentir a falta, pra poder sentir por completo, pra saber me entregar melhor. Quando distraio, aparece. Vem do nada, sem aviso. Fala que devo estar pronta. Me irrito, mas me entrego. Ele sabe se fazer necessário. Depois que chega, me faz perder a hora, os compromissos. Sair descabelada, roupa toda amassada. Às vezes até com os restos da maquiagem do dia anterior. Tento ser discreta, mas é impossível. Ainda chego com as marcas da noite. Nos olhos, na voz. Todos percebem! Manda mensagens quando não posso responder. Na reunião, disfarço. Tento me fazer de difícil. Mas todos veem os sinais. Ele principalmente. Mais cedo ou mais tarde, acabo cedendo. Ainda no ônibus, último banco, luzes apagadas, a gente arranja um jeito de ensaiar o que só vai acontecer pra valer quando chegar em casa. Já no quarto, me rendo. Às vezes ainda na sala, no sofá, quando tento fazer outra coisa que não seja me entregar a ele. Assistir a uma série, ler um livro, terminar o trabalho que ficou acumulado. É egoísmo puro. Quando vem, quer prioridade total. Deixo até de comer. Me faz pensar que sem ele seria melhor. Sobraria mais tempo pra outras coisas, outras pessoas. Mas não vou mentir. Adoro quando vem nas horas inapropriadas, mas nos momentos certos. Suada, terminada a faxina. Cheirando a hidratante, logo depois do banho. Saindo da cozinha, vapor da panela ainda nos cabelos. Não importa! Me abraça, me deita, me faz sonhar. Compensa todas as hora em que eu precisei, mas (diz ele) não pôde vir. Esqueço até os pesadelos, as ausências. Aprendi. Me entrego por inteira. Não interrompo. Acordo revigorada, com uma pequena sensação de que não vou mais precisar dele, que ele não vai mais me dominar. Ledo engano. Ele volta, ele sempre volta: O SONO!

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