F. Scott Fitzgerald é uma festa?

Maria Clara Drummond

Existe uma piada bem conhecida do Woody Allen que diz assim: “Francis Scott e Zelda Fitzgerald voltaram pra casa, após uma tresloucada festa de réveillon. Era abril”. A anedota resume bem o lugar que o casal ocupa no imaginário coletivo através do último século. Não apenas seu estilo de vida luxuoso, razão de constantes dificuldades financeiras, os transformaram em celebridades na Europa e Estados Unidos, como toda a obra do romancista ajudou a enfatizar essa imagem, com livros que são o retrato perfeito de toda a opulência dos anos anteriores ao crash de 1929. São sinônimo de glamour e festejo até os dias atuais.

É comum que este verniz festivo oculte camadas mais profundas da vida e obra de Scott Fitzgerald. Nenhuma das adaptações cinematográficas de O Grande Gatsby escapou à superficialidade. O próprio Fitzgerald já havia avisado que seu romance era mais do que uma história de amor malfadado sobre as crueldades dos ricos ociosos. Pois bem, de nada adiantou o aviso. A adaptação mais conhecida, com roteiro de Francis Ford Coppola e direção de Jack Clayton, se atém a ilustrar caretamente o enredo, com diálogos literais e completa falta de atenção aos simbolismos e nuances da história. Mas éramos felizes e não sabíamos. Quando estreiou a versão histérica dirigida por Baz Luhrmann é que entendemos até que ponto pode chegar a má compreensão da uma obra. Segundo o crítico Rex Reed, do New York Observer, as cenas do filme mais parecem-se com “um baile de formatura à fantasia invadido pelo Cirque du Soleil”.

O cerne da questão que escapa aos cineastas é: O Grande Gatsby é um livro triste. Uma das personagens que figuram nas festas de arromba do protagonista talvez represente de forma mais explícita que não basta champagne para trazer alegria: a cantora alta e ruiva que, alcolizada, “se convencera no decorrer da canção que tudo era muito triste — de modo que não estava só cantando, mas também chorando”.

Aqui, permito-me uma pequena digressão para citar Virginia Woolf, autora dos badalos mais melancólicos da literatura: “Mrs. Dalloway, Mrs. Dalloway, sempre dando festas para encobrir o silencio”. A frase capta de modo certeiro a conexão existente entre euforia e tristeza, paradoxo que habita o âmago de muitas almas festivas, como a do próprio Jay Gatsby. Existe algo especialmente tocante naqueles que não sabem a hora de parar, como ficou conhecido na História nosso casal Zelda & Scott Fitzgerald, que sempre voltavam para casa arrastados, quase inconscientes de tão bêbados, nas primeiras horas da manhã. Não saber a hora de parar é postergar ao máximo a melancolia e insistir naquele sentimento efêmero que sabemos que em breve vai chegar ao fim. É também ignorar a constatação do espelho, posicionado em algum canto do salão, da juventude que se esvai a cada raio de sol que invade o ambiente: rugas mais visíveis que nunca, olheiras que chegam, maquiagem velha, olhos borrados e vermelhos. E mesmo assim, continuar. É quase um sintoma de otimismo.

O filme que talvez tenha captado com maior precisão o espírito do universo Fitzgerald é Meia Noite em Paris, do Woody Allen. A comédia despretensiosa questiona a atração que mesmo os mais cultos tem com a aura de certas figuras, fascínio que supera até sua concretude histórica. Na narrativa, um americano nostálgico dos nossos tempos, Gil, tem a chance de visitar a Paris da década de 20 e interagir com os maiores expoentes da Geração Perdida — expressão cunhada por Gertrude Stein para designar aquele grupo. Seus ídolos não são representados como eles realmente eram, e sim como Gil quer que eles sejam, como personagens de si mesmos.

Ao mesmo tempo que critica a superficialidade dessas imagens unidimensionais, o filme não escapa de ser uma ode a essas personas, mais que às pessoas em si, historicamente corretas. Conhecendo a obra de Woody Allen, e o pouco do que captamos da sua personalidade, que desde jovem que já era velho, com seu apego ao mesmo jazz clássico em todas as suas produções ao longo de quarenta anos, intuímos que isto se deve a uma espécie de vínculo afetivo ao que essas figuras, mesmo que em suas versões idealizadas, representaram em sua formação. No caso de Fitzgerald, esse intercâmbio entre vida, obra, e o que existe no meio dos dois, faz ainda mais sentido. Segundo o próprio: “às vezes não sei se sou real ou um personagem de um dos meus romances”.

Ser uma versão moderna de Zelda e Scott Fitzgerald seria um elogio a qualquer casal que largou o livro pela metade. O combo de genialidade literária, reconhecimento mundial, uma pitada charmosa de loucura, vida nômade nas cidades mais glamurosas do mundo, em hotéis emblemáticos como o The Plaza e Hôtel de Paris Monte-Carlo, e, é lógico, celebrações infinitas com que existia de mais interessante do mundo artístico e social da época, traz um fascínio inevitável que poucos de nós consegue resistir.

“Eu gosto de festas grandes. São tão íntimas. Em eventos menores não há privacidade alguma.”, é o que fala Jordan Baker em determinado momento de O Grande Gatsby. Zelda e Scott frequentavam as famosas festas na Riviera Francesa do casal Gerald e Sarah Murphy (que inspiraram os personagens Nicole e Dick Diver de Suave é a Noite) junto com outros americanos expatriados como Ernest Hemingway, John Dos Passos, Cole Porter, além de Pablo Picasso, Fernand Léger e Jean Cocteau. Zelda encarnava a personificação da flapper, o tipo de mulher que estava na moda na época, insolente e ousada, que dançava em cima das mesas e mergulhava nas fontes completamente nua. A aura do casal vem muito dali. Não importa que, anos mais tarde, já sem escrever, Scott tenha finalmente sucumbido ao alcoolismo; e Zelda, a socialite doidinha e inteligente da Era do Jazz, tenha morrido internada num hospício, durante um incêndio no prédio, enquanto dormia no telhado. A loucura nunca é charmosa vista de perto. Mas não importa o fim. A aura sempre fala mais alto, e é o que fica.

(Revista 7A — Novembro 2015)

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