Geração Tribalista

Harper’s Bazaar Brasil — Junho 2016

Por Maria Clara Drummond

Da última vez que estive em São Paulo, final de janeiro, fui almoçar com duas amigas e resolvemos brincar de Questionário Proust. Ao responder a pergunta “qual seu principal defeito?”, Camila não hesitou: ser hétero. E, logo em seguida, complementou: e monogâmica.

Tudo na vida são narrativas e contranarrativas. Volta e meia, ainda frequento casamentos à moda antiga, com direito à Chá de Panela, Igreja, festão com mais de quinhentos convidados, e nomes das solteiras bordados na barra do vestido de princesa caríssimo. Mas, desde que passei a andar com uma turma que é, digamos, ~tudo puta, viado, comunista e maconheiro~, a normatividade em relacionamentos se tornou raridade no meu cotidiano.

Da mesma forma que Camila, sinto um pouco de vergonha por meus modos anacrônicos. À primeira vista, posso parecer a garota empoderada da balada, que bate cabelo seminua, e que é moderna nos costumes. Mas a verdade é que sou monogâmica até no flerte, arte que pouco domino, e sequer beijo meninas na boca, o que é definitivamente ponto negativo na minha biografia. Meu processo de libertação ainda está nos primeiros passos, afinal, nem pra lésbica de festinha sirvo direito. Resquícios da minha educação ultraconservadora ou da minha lua em capricórnio. Ainda não descobri isso na análise.

Hoje, conto nos dedos os amigos íntimos que tem relacionamentos fechados. Traição tornou-se algo démodé, é o que me garante meu amigo Tep, é mais honesto assumir que é possível e legítimo ter interesse sexual em outras pessoas que enganar o parceiro. A partir daí, as variações são infinitas. Há os adeptos da expressão “o que os olhos não veem o coração não sente”; os que são permissivos apenas com ficadas “pelo fervo”, mas nada mais complexo que isso; os que permitem a pulada de cerca se o parceiro for incluído na jogada; os que contam sobre os detalhes dos affairs, os que abrem temporariamente a relação para um terceiro elemento.

Em todo caso, há o que se beneficia mais da poligamia, e o que se beneficia menos, talvez por um temperamento mais monogâmico, talvez por ser o mais apaixonado da dupla. Ao que me parece, essa assimetria é normal, não deve ser levada como uma grande questão. Mas, num mundo em que o feminismo ainda precisa descontruir muitos comportamentos automáticos, me pergunto como funciona esses acordos em relações heterossexuais: a mulher fica em casa cuidando dos filhos enquanto o homem paquera nos bares? Já vivemos num mundo em que essa equação pode ser equalizada, ou mesmo invertida?

Em 2016, relacionamentos abertos são notícia velha. Sartre e Simone já praticavam a poligamia before it was cool. Casamentos a três ainda chocam, e o legislativo precisa arrumar uma maneira de facilitar todas essas burocracias que fazem a diferença na vida cotidiana. De qualquer forma, a possibilidade de ter mais de duas pessoas num relacionamento, seja de modo pontual ou permanente, e sem os tabus que a infidelidade envolve, é uma maneira de adiar o esvaziamento do desejo que toda relação que envolve sexo está destinada. O desafio é lidar com a insegurança, o ciúme e a posse, sentimentos tão humanos, mas nada louváveis, e aceitar a liberdade do parceiro e de si mesmo — e, vá lá, com isso ainda dar aquela aprimorada no nosso crescimento e desenvolvimento pessoal que, no fim das contas, é nossa razão de estar na Terra.

O que mais tem me interessado em termos de afeto nos tempos contemporâneos é algo ainda mais fluido que poligamia. É o “namorado acessório”. Já ouvi esse discurso algumas vezes: “namorado é temporário, as pessoas da minha vida, que vão estar sempre comigo, são meus amigos X e Y”. Ou seja, os vínculos de afeto com intenção de permanência eterna vão na direção da amizade, que não inclui as possíveis desavenças que o desejo sexual pode trazer. Com a maioria das pessoas preferindo morar junto ao formar um casal, sequer assinando papéis, facilitando ainda mais o processo de separação, não há motivo para continuar unido quando o hábito corrói o amor. Não consigo visualizar meus amigos, mesmo os casais que emanam aquela sintonia absurda, juntos por mais de trinta anos. Acredito que nem eles próprios imaginem tal coisa. Mas, quase diariamente, sou agraciada com declarações como “quando estivermos velhinhos, numa mesa de bar, relembraremos de…”. Mesmo sem conotação sexual, muitas vezes com o toque escasso, são com amigos que eu não hesito em usar o termo “apaixonada”. E, mesmo com uma facada ou outra de vez em quando — como o rompimento entre amigos dói! — cada vez acho mais válido esse investimento.

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