Foto: Karine Basílio

CONVERSANDO COM UM ELEITOR DE JAIR BOLSONARO


Por ocasião das eleições de 2014, fiquei extremamente curiosa com o fato de Jair Bolsonaro (PP) ter obtido a maior votação para deputado federal do Rio de Janeiro. Não conheço (ou melhor, não conhecia) nenhum eleitor dessa figura controversa e tinha vontade de entender como é o pensamento de quem elege alguém assim. Foi aí que li uma manifestação de um amigo ontem, que gostaria de transcrever aqui e responder em seguida. Talvez não seja possível mudar o pensamento de alguém, mas é necessário conversar, pensando no bem da sociedade. Acompanhem:

“(…)Filha, na escola, se ensinarem ou perguntarem a você, que tem 8 aninhos, qual é a sua opção sexual, me avisa que vou lá junto com o deputado Jair Messias Bolsonaro que ajudei com muito orgulho a se reeleger que vamos resolver…” Minha filha é uma criança, ainda pura, infantil e inocente, livre de preconceitos e pensamentos sexuais, esses que irão surgir, claro, mas com o seu devido tempo e com a devida orientação da sua FAMÍLIA e não de uma escola e professores que mal sabem fazer o seu ofício, ensinar sua matéria. Se não fosse a oposição ferrenha do Jair Messias Bolsonaro na Câmara, estariam distribuindo panfletagem pró LGBT para crianças do ensino fundamental! O governo federal gastou 14 milhões, amigos 14 milhões nesse “estudo”. Fizeram pesquisam com crianças na faixa etária da minha perguntado qual a opção sexual das mesmas, pra mim caso de cadeia! Reitero, não é questão de preconceito, é questão de direito, os pais ensinam os filhos e não o Estado. Já proibiram a palmada(que nunca utilizei na educação de minha filha mas q se fosse necessário utilizaria, pois não morri e nem odiei meus pais por levá-las quando realmente passei dos limites) agora querem ensinar sexo para crianças. Temos que nos preocupar com a educação, essa sim, que está cada vez mais esquecida, senão corremos os riscos de nossos filhos crescerem burros e alienados política e intelectualmente, coxinhas e massa de manobra de interesses de uma minoria, minoria que sabe se articular, reconheço, mas minoria…”

Minha resposta, caro Celso, é a seguinte: normalmente evito discutir esse tipo de polêmica, mas seu discurso é tão interessante que resolvi escrever um pouco mais para aprofundarmos esse debate. Sua fala, transcrita acima é muito bem articulada, polida, e com certeza convence os mais crédulos (está provado nas urnas), mas existe um erro fundamental que é o causador do grande mal de pessoas como o seu candidato: o conceito moral de “pureza sexual”.

Primeiramente, julgar o tópico como algo menor (menos importante do que os conteúdos tecnicistas da educação formal) é leviano: a repressão e a falta de educação sexual causam prejuízos imensos à nossa sociedade. Desde conflitos individuais e familiares sérios, patologias mentais, até o absurdo número de crimes motivados por ignorância em relação à vasta tipologia sexual natural entre os seres humanos.

Não existe nenhuma justificativa, além da moral, para que esse assunto gravíssimo não seja discutido dentro das escolas. A sexualidade é, comprovadamente, a energia mais poderosa da natureza, responsável pelas potencialidades criadoras (biológicas) e criativas (transformadoras) de todos nós. Nesse ponto, peço a ajuda de meus amigos estudiosos de psicologia pra que sugiram bibliografia adequada. A criança desenvolve desde tenra idade seu comportamento sexual. Não é raro encontrar relatos de transexuais que já se identificam em outro gênero ainda pequenos, pedindo pra usar roupas diferentes e deixando a “família tradicional” de cabelo em pé.

Fica muito claro que precisamos desmontar o mito da criança “pura”, “des-sexualizada”, para que tenhamos adultos mais saudáveis e felizes. Negar o esclarecimento e os estudos da psicologia e psiquiatria atual não é simples negligência, mas um ato de crueldade humana. Fico desolada ao ver o Brasil se vender como país livre e sexualmente exuberante, mas ocultar em si essa sombra, essencialmente machista, do controle repressor da sexualidade.

De toda forma, sigo em minha pequena oposição, reconhecendo que a força está com você e com os milhares de eleitores que se consideram defensores da tradição. Reafirmo, convicta: considero a postura de Bolsonaro antiquada, retrógrada e extremamente nociva. Persistirei sendo uma voz dissonante, junto ao coro daqueles que desejam uma sociedade menos moralizadora e mais ética, segura e colorida.