minha mãe

clara luz
clara luz
Aug 25, 2017 · 2 min read

aos dez anos vi a minha mãe morrer — não vi, mas contaram-me e era como se as palavras tivessem cores e formas e fora como se minha mãe, palavra tão bela e imprevisível, congelasse para sempre numa última ação que acontecia outra e outra vez. afogou. primeiro, afogou do bombeiro para meu pai. depois, afogou de meu pai para mim. e seguiu e segue assim, afogando-se sempre que é assunto, que hoje já é quase nunca. como podem, me pergunto, as águas seguirem a tomar o lugar do ar, dez anos mais tarde, dez anos de novos presidentes e novas curas e novas guerras, e minha mãe ainda a afogar.

como uma história que se altera pouco a pouco por cada boca que a passa adiante, meus pensamentos se foram se embelezando para sobreviver à revoada do tempo, e a minha mãe de cabelos ralos e palavras avulsas, a minha mãe de cabelos tão longos e brilhantes que iluminavam a lua daqui para que se pudesse vê-la do sol, de palavras tão bonitas que acordavam àqueles que já eram dados a dormir para sempre. minha mãe que a beleza perseguia tão de perto que até a morte foi bonita.

era uma manhã dessas em que as nuvens anunciam a chegada do dia e o sol descansa. uma dessas manhãs em que a gente não sabe onde acaba o céu e onde começa o mar, e a mãe quis saber. ou talvez quisesse mergulhar nas nuvens para ficar mais perto de onde pertencia aquela sua beleza. tinha pedras nos bolsos como virginia woolf e flores nas mãos como ofélia. os pulmões feito rios encheram-se e tornaram-se ventre para gestar sua vida seguinte. deuses de caldas e guelras a guiaram àonde o céu encontra o mar, e o céu se abriu para dar passagem a um filho que retorna à casa. a festa acima de meu chapéu era muita — a dor aqui embaixo também.

o pai disse que minha mãe nos abandonou, mas sei que ela espera por mim. e não choro. a dor de quem vive o chão esvai-se quando se passa a flutuar.

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    clara luz

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    clara luz

    nasceu em algum lugar entre a tijuca e portugal. escreve sobre o mar.