Algumas coisas sobre morte e ansiedade

Dia 2, contado primeiro:

Quando eu partir, não enterrem meu corpo; me cremem e cavem um buraco na terra, joguem sementes de rosa e deixem nascer uma roseira; porque rosas sempre foram minhas flores favoritas, e porque eu gostaria de continuar (de alguma forma) neste mundo, que amo, apesar de suas desgraças. Eu não creio em um deus. Eu não sei se existe alma em mim. Sei o que fui, o que sou hoje; e qualquer outra certeza, se existe, me espera depois da morte. Hoje foi o dia em que me despedi da minha última avó. Ela parecia pacífica sob o véu que usaram para cobrir o caixão; achei que quase enxergava um esboço de sorriso nos lábios dela. Flores brancas emolduravam-na, mas deixavam à vista as mãos magras e frias, que segurei por alguns minutos, me perguntando se alguma parte dela ainda estava ali. Então me inclinei e beijei sua testa. É a segunda despedida que faço em 2015. Difícil pensar que não pisarei mais nas casas das minhas avós, que reconheço pela lembrança, que posso conjurar aqui mesmo, na minha cabeça; e os cheiros; o cheiro meio empoeirado do leque de plumas da minha avó materna; a coleção de perfumes da minha avó paterna; coisas com que me deixavam brincar, mas que não vou mais tocar, decerto nunca mais ver. E há o sabor do bolo de chocolate, que me esperava quando eu chegava no Rio, durante as férias; e os jantares árabes servidos na casa dos meus avós de São Paulo, cuja receita eu guardei, mas que sei que nunca vou conseguir executar da forma que minha avó fazia. Jamais fui capaz de vislumbrar um céu, ainda quando pequena, quando queria acreditar desesperadamente. Mas a morte não é o fim da pessoa. Ela continua enquanto suas memórias continuam; e aí você passa as memórias delas para outros.

Dia 1, contado depois:

A fim de poder chegar até São Paulo, precisei entrar em um ônibus. É difícil explicar o porquê disso ser apavorante para mim, como é difícil explicar, no geral, a ansiedade e a síndrome do pânico; basta dizer que é uma coisa normal, que a maioria faz sem pestanejar, mas que é como me ameaçarem com tortura. Fica pior com avião, pelo simples fato do avião estar no ar, não no chão, e ser impossível gritar e pedir para descer. São os impulsos contra os quais eu preciso lutar sempre que embarco em alguma viagem. Mais fácil desistir; inventar alguma desculpa, como geralmente é o hábito, e permanecer segura em casa. Mas eu queria dizer adeus para a minha avó, e meu pai merecia algum apoio. Não há opção: você precisa dar o passo e colocar o pé para dentro. Você precisa ocupar a poltrona e passar o cinto e fingir que não está tremendo. Os estranhos nos outros assentos, no corredor, eles se transformam em formas assustadoras, que me ameaçam com seu silêncio pesado; a escuridão da noite enquanto o ônibus corta o Sul, parece sólida, parece que vai me esmagar, arrancar meu ar. Eu tento me controlar. Eu tomo meus remédios. Parte importante da terapia é enfrentar sem medo, mas nem sempre funciona. Alguns deles, eu venço; mas outros persistem, e só posso esperar que a próxima vez seja mais branda.

Like what you read? Give Clara Madrigano a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.