Dodge

Mães, filhas, cães.


(Fui inspirada por um texto do Bruno Leo Ribeiro. Fui inspirada a colocar meu trabalho no mundo, e como já venho fazendo isso com não-ficção há algum tempinho, decidi começar com um pouco de ficção. “Dodge” é uma história originalmente postada na página da Editora Draco, e agora publico-a aqui).

Eu queria começar a falar a respeito do Dodge, porque acho que é o mais importante, o que quer que diga a doutora bigode. Eu prometi que contaria tudo, o que ela desejasse saber, mas vou contar como quero.

Quando encontramos o Dodge, ele era o cão mais magro e mais frágil do planeta, revirando uma das lixeiras da Dairy Queen, altas demais para que suas patas alcançassem. Foi o Stanley que o descobriu ali — Stanley, meu irmão mais velho, que naquela época havia acabado de tirar sua carteira de motorista, e que pegara emprestado (sem informar) o carro do nosso padrasto para a volta inaugural pela decadência da nossa cidade fim-de-mundo de tão suburbana. Eu estava lambendo uma casquinha derretida de sorvete de pistache, apoiada na janela aberta do banco do passageiro, quando Stanley apareceu, Dodge a tiracolo. Um filhote branco, uma mistura de poodle com outra raça que nunca conseguimos identificar, estremecendo e silencioso como nenhum cachorro que eu já vira. Minha tia Lauren tem um shih-tzu que é uma criatura infernal — e cujo latido agudo e traumático incutiu em mim essa ideia de que cães são, no geral, criaturas barulhentas, que adoram mordiscar e encher seu saco (ou abocanhar seu saco, se você tiver a infelicidade de ser um homem). Mas não o Dodge. Ele era sereno. Provavelmente porque estava amedrontado, mas mesmo depois, quando se acostumou a nós, aquela placidez jamais chegou a abandoná-lo. Era como um filhote que já tivesse visto de tudo no mundo.

— Podemos ficar com ele? — eu perguntei.

— Sei lá. Acho que sim — disse Stanley.

Então nós decidimos, ali, sem que outra palavra fosse necessária, que Dodge seria nosso. Eu escolhi o nome, aliás. Digo isso à doutora bigode, mas ela não parece muito interessada, porque não anota a informação no computador que fica consultando de tempos em tempos, sempre erguendo os óculos por um dos aros e voltando a me encarar. Eu imagino que ela fique escrevendo aquelas observações bestas de psiquiatras: mentirosa patológica, fase oral não-resolvida, baixa auto-estima ou o diabo (não sou nenhuma dessas coisas, que fique claro).

A sala da doutora bigode é estéril e branca e tão limpa que sempre sinto o cheiro de alvejante fresco quando venho aqui. Não há nada além de uma mesa, a cadeira dela e a minha. Ando me acostumando a lugares assim, vazios e em perfeita ordem.

— É para ninguém se machucar — doutora bigode me informou, logo na primeira sessão.

Mas não faz diferença; não dou a mínima para onde estou agora, não quero falar da doutora ou da sua sala hospitalar. Quero falar do dia em que levamos Dodge para casa.

Stanley recebeu uma bronca enorme do Hank, nosso padrasto, por pegar o carro sem avisar. Eu escapei discretamente, Dodge escondido no meu casaco, levando-o para a barraca do jardim. Kaitlin, minha irmã, foi a primeira que veio visitá-lo. Ela pegou Dodge no colo e o balançou de um lado para o outro. Então, disse:

— Mamãe nunca vai aceitar. Você sabe.

Um pensamento que tinha me ocorrido, é claro, mas minha mãe já aceitou coisas que nunca cogitaríamos que ela aceitaria — o Hank, por exemplo.

Kaitlin fungou algumas vezes, o rosto muito perto de Dodge.

— Que fedor — declarou.

A gente deu banho nele no quintal, em um canto onde os limites da nossa propriedade white trash em nosso bairro altamente white trash encontram um bosque mísero, onde os adolescentes costumam fumar um baseado e, não em poucas ocasiões, encontrei camisinhas usadas; lá, escondidas feito criminosas, com o mesmo shampoo de bebê (sem lágrimas) que minha mãe ainda comprava para nós, embora eu já estivesse com 14 anos, e Kaitlin e Stanley quase saindo do colegial, lavamos o Dodge. É certo dizer que ele foi educado durante o processo todo, suportando a água gelada da mangueira sem um único ganido, orelhas baixas e rabo enfiado entre as pernas. Eu achava que seria mais fácil apresentá-lo assim à minha mãe, limpo e cheiroso, não como um animal de rua que, até pouco antes, revirava lixeiras. Mas eu estava, é claro, errada.

— O que que é essa merdinha aí? — minha mãe perguntou, quando nos viu entrar pela cozinha. Dodge estava no meu colo.

— É o novo cachorro — eu disse.

— Novo cachorro de quem?

— Nosso.

Minha mãe tragou pacientemente seu cigarro; depois, amassou-o em cima da pia, que já carregava marcas de tantas outras bitucas de um passado negro.

— Nós não temos cachorro nenhum, Lita — ela disse.

— Mas agora podemos ter — eu insisti.

Não muitas coisas faziam minha mãe feliz, mas daquela vez, extraordinariamente, ela abriu um sorriso.

— Eu já alimento três bocas — disse. — Agora vou ter que cuidar de um cachorro?

Fato: Hank era a única pessoa que ganhava dinheiro em casa.

— Qual é o problema? — perguntou Kaitlin, que sempre tivera mais coragem de empeitar nossa mãe. — Somos nós que vamos tomar conta dele.

— Por algum motivo, meu bem, eu duvido — retrucou mamãe. — Onde foi que vocês acharam ele? No lixo?

Kaitlin e eu ficamos mudas. Foi quando Hank surgiu, coçando o traseiro meio exposto pela calça jeans, um pouco perdido e bêbado.

Eu dou a ele o crédito pelo modo com que tudo se resolveu. Porque bastou que Hank aparecesse na cozinha, atraído pelo nosso pequeno debate, para a mágica acontecer. Hank, loiro, gordo, com predileção por camisetas que nunca são do número que ele deveria usar, acostumado a apartar o que ele chama de “briga de meninas.” Uma nota: desde que cheguei aqui, Hank me mandou um cartão. Dentro dele, tinha um origami, que Hank me informou estar aprendendo a fazer. Ele diz que é uma espécie de meditação. Preciso agradecer, algum dia.

— Ei, vejam só. Um bebê — disse Hank, avistando Dodge. Ele aproximou-se, tomando Dodge do meu colo com completa desenvoltura, erguendo-o acima da cabeça e rindo e falando com um voz que nunca ouvi Hank, do alto de seus 1,85 metros e da largura de seus cento e poucos quilos, usar. — Ei, garotão, ei — Quando baixou o cachorro, ele olhou para nós duas, Kaitlin e eu. — De quem ele é?

— É nosso — eu disse.

— É claro que é — concordou Hank, como se achasse a própria pergunta besta.

Mamãe não nos desmentiu; ela vivia para agradar Hank (e todos os Hanks antes de Hank).

Foi assim que Dodge passou a morar conosco.

— Vamos falar um pouco da sua mãe — doutora bigode me interrompe. – Da relação entre vocês duas.

— Eu ainda não terminei — eu digo.

— O quê?

— Dodge. Estou contando a história dele — digo, exasperada, num tom mais alto do que gostaria.

Perco minha paciência muito fácil. É algo que a doutora bigode já notou, porque a vejo fazer um bico súbito com seus lábios, acentuando o buço preto sobre o superior. Ela olha brevemente para a porta fechada, parecendo considerar algo.

Eu só apoio a cabeça no encosto da cadeira, abrindo as pernas daquele jeito que minha mãe odiava. Continuo:

— Foram os melhores dias, aqueles. Hank… é até engraçado dizer, porque Hank nunca ligou muito para nós. Mas, graças ao Dodge, foi como se nos tornássemos amigos. Ou quase, sei lá, pai e filha. Quase. Um mínimo. Ele me ensinou a construir uma casinha de cachorro com tábuas de madeira. Ele me ensinou um truque, também: a fazer Dodge rolar como um morto, depois de receber um tiro de uma pistola invisível, que imitávamos com os nossos próprios dedos. Assim.

E faço o gesto.

— Ele me contou que fazia isso com o cão dele — prossigo. — Que morreu de câncer, muitos anos antes.

— E a sua mãe?

— Minha mãe?

— Como ela tratava o cachorro?

— Ah. Como se ele não estivesse lá.

O que, de certo modo, não era tão diferente da forma com que ela tratava os próprios filhos. Meu pai partiu o coração dela; ela decidiu que, por vingança, partiria o nosso, e de qualquer um que amássemos. Sua arma preferida era a indiferença. Se Dodge dependesse da minha mãe para sobreviver, ele teria morrido ainda mais cedo. Eu realmente não acho que algum dia ela sequer atreveu-se a alimentá-lo, ou que notou que ele sentia necessidades básicas como, não sei, fome, sede, ou se até mesmo chegou a tocá-lo. Colocar a ração, trocar a água, limpar o cocô e o xixi (antes que mamãe notasse) eram tarefas divididas entre eu, Kaitlin e Stanley — e, ocasionalmente, até mesmo Hank. Eu contei à doutora bigode da vez em que minha mãe pegou Dodge roendo um de seus sapatos. Ela chutou o cão com tanta força que acho que coitado atravessou um cômodo inteiro no ar — para, depois, ganindo, vir correndo até o meu colo.

— Deixa esse cachorro longe das minhas coisas — minha mãe ordenou, com o rosto vermelho de raiva.

— Você ficou zangada? — a doutora bigode pergunta.

— É claro — digo. E quem não ficaria?

Hank teve uma briga com ela, naquela noite. E nas noites seguintes. Então, durante a próxima semana, minha mãe agiu como se Dodge tivesse voltado a ser um fantasma. A mim, ela não dirigia nenhuma palavra.

— E o relacionamento da sua mãe e do Hank? — pergunta a doutora.

— Não era nenhum ideal romântico.

Mas deixemos Hank e minha mãe guardados em sua caixinha de tensão conjugal. Eu ainda quero falar do Dodge, que me acompanhava até a escola e que me esperava pacientemente, sentado na calçada quando o sino batia e as portas se abriam e estávamos livres. Dodge, com o qual eu dividia doces que comprávamos nas lanchonetes pé-de-chinelo nas quais eu ia com Kaitlin, que queria flertar com os rapazes mais velhos (por mais velhos, entenda: recusados em todas as universidades em que tentaram entrar, eternamente presos na cidade). Dodge, que ia acampar comigo e com Stanley perto das montanhas, que se fazia de cão de guarda, alerta e de orelhas erguidas, enquanto montávamos a barraca, até escutar algum barulho — um estalar de gravetos, um farfalhar nos arbustos — e correr para se esconder entre as nossas pernas. Dodge, o cão coragem.

— E quando Hank foi embora? — doutora bigode me interrompe.

Sim.

Porque Hank foi embora. Obviamente. Logicamente. Era apenas uma questão de tempo.

Depois de uma briga violenta, mesmo para os padrões deles, Hank encheu seu carro com as poucas tralhas que tinha e partiu, o rosto arranhado por unhadas.

— Sua mãe é louca — foi a última coisa que ele me disse.

Eu nunca mais o vi ou ouvi dele, até receber o origami.

— Como sua mãe reagiu? — pergunta a doutora.

A reação dela foi a reação de sempre. Ficar trancada no quarto por um número preocupante de dias, fingindo estar morta, ou fingindo que o mundo lá fora é que havia morrido. Quando ressurgiu, fênix em seu robe de dormir vermelho, o quarto cheirava a cigarro, ela cheirava a cigarro, e uma inspeção mais detalhada no covil revelaria as incontáveis bitucas esmagadas em cinzeiros ou afogadas em garrafas que continham restos de alguma bebida. Eu sei. Ela me fez limpar tudo.

Para superar Hank, ela foi ao salão de beleza, retocou as raízes no tom acaju que usava desde que Kaitlin nascera, fez as unhas e reiniciou sua vida social. Ela passava a maior parte das noites fora. Quando chegava, de madrugada ou de manhã, sempre estava com o rosto inchado, como se houvesse chorado muito. Em uma dessas ocasiões, eu acordei cedo para encontrá-la na cozinha, fumando e contemplando Dodge; adormecido, inocente.

— Hank realmente gostava desse cachorro — minha mãe comentou, para ninguém em especial — certamente não para mim — e sua voz soava saudosa, até mesmo doce.

— E foi quando aconteceu… — disse a doutora bigode.

Ela não me permite contar a história no meu próprio ritmo. É como uma criança que não te deixa em paz, querendo saber o que acontece em seguida no filme.

Mas não; não foi quando aconteceu. Aconteceu alguns dias depois.

Eu retornei da escola e não encontrei Dodge me aguardando. Andei até nossa casa com um aperto no coração e, à distância, pude ver minha mãe recostada contra o batente da porta aberta. A casa estava escura. Aquela porta parecia levar para algum lugar que não o nosso universo, mas para onde tudo era mais negro e frio. Mamãe. Ela nunca me esperou por coisa alguma.

— Lita, sinto muito — ela me disse, sem emoção. — Mas o cão sofreu um acidente.

Eu não disse nada.

— Achei melhor enterrá-lo no quintal. Para que vocês não vissem o corpo.

Eu continuei sem dizer nada. Sem tirar a mochila das costas, dei meia volta, refazendo meu caminho até a estradinha que levava à rua que, por sua vez, levava à civilização. Eu esperei. Começou a chover, uma chuva fina e quase que cortante de tão fria, mas eu esperei. Quando Stanley chegou do trabalho, eu disse a ele o que tinha acontecido. Ele ficou pálido. Nós dois fomos até o quintal e começamos a cavar, terra virando lama com o nosso esforço, com a chuva que não parava de cair. Da porta aberta, minha mãe nos observava pacientemente.

Nós achamos Dodge. Seu corpo branco estava sujo. Seus olhos estavam fechados. Ele não respirava mais.

Meus dedos sujos sangravam, mas eu não sentia dor.

— Ela o envenenou — disse Stan, a ideia parecendo ter acabado de lhe ocorrer. Mas o tom dele, o som daquelas palavras — tudo se converteu em verdade na minha cabeça. Ela o envenenara.

— Você o matou — Stanley gritou, olhando para a minha mãe, que nos encarou por alguns instantes e, sem mais, voltou para dentro da casa.

— E depois? — a doutora quer saber.

Como se pudesse ser tão simples assim. Como se aquela sucessão de eventos existisse de forma clara na minha mente, e não nublada.

Do que me lembro: Stanley foi embora algum tempo depois. Só mais tarde eu soube que ele tinha se alistado, querendo se afastar daquele lugar tanto quanto possível. Kaitlin, no dia seguinte ao seu aniversário de 18 anos, embarcou no carro de um namorado e nunca mais apareceu. Ela me mandava cartas, uma por semana, às vezes do Missouri, às vezes da Califórnia, querendo saber como iam as coisas, mas jamais perguntando sobre mamãe. Não recebo mais as cartas dela com tanta freqüência. Nós vivemos isolados, por aqui. A correspondência sempre passa por uma vistoria rigorosa antes de chegar nas mãos de quem a espera.

— Mas você ficou — a doutora bigode aponta o óbvio.

— Eu era menor de idade — digo.

E eu não tinha mais para onde ir. Nenhum parente se interessava pela pobre Lita, nem tia Lauren e seu shih-tzu dramático, então fiquei. Quanto à minha mãe, não tardou até que ela conhecesse outro homem e reiniciasse seu ciclo de dependência. Peter não era como Hank. Hank talvez pudesse ter levantado uma picape com seus braços gigantescos, bombados graças à enormidade de bolinhos Little Debbie que ele devorava, mas Peter era uma criatura mais graciosa, mais baixo do que minha mãe por muitos centímetros, e mais calado também. Comigo, ele era cordial. Lembro-me de uma vez em que estava me aprontando para sair com algumas colegas do meu turno na lanchonete. Minha mãe e Peter estavam na sala quando passei usando o vestido novo, um que acabara de comprar com meu primeiro salário.

— Essa aí — disse mamãe. — Não é a mais bonita da família. Minha segunda filha puxou todos os bons genes.

E ela riu, enquanto eu simplesmente parei onde estava. Peter não disse nada, mas me lançou um olhar benevolente, o máximo de meu partido que ele tomaria. Ao contrário de Hank, atrás de quem minha mãe corria, querendo realizar todos os desejos, Peter era aquele que se esforçava para agradar minha mãe, para provar que era digno.

E ele trouxe o gato.

— O gato — repete a doutora, como se tivesse se esquecido de algo importante, agora lembrada de repente.

O gato era um persa. Eu acho. Cinzento e com um rosto malévolo. Extremamente temperamental, se me perguntarem. Na única vez em que tentei acarinhá-lo, ele deixou meu braço marcado com suas garras, do cotovelo até o pulso.

O gato me detestava, o que parecia agradar à minha mãe. Na verdade, acho que era o fato dele me detestar que a levava a mimá-lo tanto. O gato tinha uma almofada especial. Pratinhos especiais. Ração premium. Coisas que minha mãe jamais consideraria comprar para um animal de estimação, mas que fazia questão de fornecer ao novo morador da casa. Ela e Peter tiraram uma foto do gato na época do Natal. Vestiram-no com um chapéu de Papai Noel e o deixaram sobre o braço da poltrona. Depois, emolduraram aquela imagem horrível, um monstrinho de gorro vermelho e rosto assassino, para sempre erguido em um aparador.

Uma vez, eu acordei com ele fazendo xixi na minha cama. Quis enxotá-lo dali, mas ele só fez rosnar e ameaçar me arranhar. Agarrei-lhe os pelos, então, e o carreguei para fora da casa, largando o maldito na grama do quintal. Quando minha mãe descobriu, ela me puxou pelos cabelos e me arrastou para fora da casa.

— Como você se sentiria se alguém fizesse isso com você? — ela perguntava. — Como você se sentiria?

E eu só conseguia pensar em Dodge.

— Quando você teve a ideia de usar o veneno? — a doutora me interrompe novamente.

O veneno: o ponto central. Parecia uma retribuição adequada. Um olho por olho, um cão por um gato. Não posso mentir: eu considerei o cenário por muitas vezes, antes de ir dormir. Imaginava minha mãe e Peter retornando de um jantar, eu a recepcioná-los na porta, dizendo que um acidente tinha acontecido. E o rosto da minha mãe — era o que eu mais queria ver. O rosto dela, quando eu contasse.

Ainda assim, era um plano que me torturava. Eu odiava o gato, queria chutar sua bunda diariamente, mas não conseguia me ver matando-o. Não sou assim. Não sou como ela. Eu não mato bichos. Eu acredito nos direitos dos animais e na proteção do meio ambiente e na necessidade de se reparar as mudanças climáticas.

— Onde você comprou o veneno, Lita?

No lugar mais simples de todos: em um mercado. Veneno para rato, mas eficaz contra demais espécies, como eu vim a descobrir.

— E como você fez? — pergunta a doutora.

Eu coloquei o veneno na comida. Exatamente como imagino que ela tenha feito.

— OK. Você deve achar que foi uma medida drástica — digo. — Mas eu vejo como justiça poética. Ela tirou algo de mim, eu tirei algo dela. E através do mesmo método.

A doutora suspira. Ela chega a parecer triste.

— Você não matou o gato, Lita — diz. — Você matou sua mãe.

As pessoas: elas têm esse poder de me cansar, em especial com esse negócio de audição seletiva.

— Mas é claro. Você por acaso prestou atenção em alguma coisa do que eu disse? — pergunto. — Eu não sou um monstro. Eu não mato animais.