Eu, uma satanista, um banheiro

Clara Madrigano
Oct 7, 2014 · 2 min read

E eu sei que começar um texto com um título assim vai gerar uma impressão errônea em muitos de vocês, mas aprendi na faculdade que você precisa chocar seu leitor. A verdade: conheci a primeira satanista da minha vida em um banheiro feminino. Foi durante um encontro de RPG (o que já é lançar mais outras duzentas conclusões errôneas por aí, mas prossigo). Eu era nova, estava acompanhada de uma amiga de infância que, por ser dois anos mais velha do que eu (em uma época em que dois anos a mais faziam uma diferença enorme), era uma mistura de amiga e babá e guia espiritual nos assuntos da vida. Entramos no banheiro para fazer xixi. A satanista estava na frente do espelho, passando maquiagem forte e mexendo nos cabelos loiros. Ela não se apresentou a nós como uma satanista, obviamente, como se interpelasse qualquer pessoa que entrasse no banheiro para dizer “Olá, Satã é meu senhor.” Fui eu que iniciei a conversa. Queria saber do que ela estava fantasiada. Eu fazia essa pergunta para todo mundo, porque queria que a fizessem para mim (e porque quero que vocês saibam: eu estava fantasiada de algo sem nome, uma mistura de Jareth, do Labirinto, e apetrechos ultrapassados que uma garota de doze anos consegue reunir do armário da mãe, para parecer uma bruxa), e não me lembro do diálogo exato que trocamos, mas acho que pode ter sido algo assim:

— Oi, do que você está fantasiada? Adorei sua maquiagem.

— Obrigada. Não estou fantasiada de nada, só estou me arrumando. Vou para um show depois de sair daqui.

— Que legal, qual banda?

— (Nome de que não me lembro).

— Nunca ouvi falar.

— É uma banda satânica.

— CARAMBA.

Eu não sabia que existiam bandas satânicas (assim como também não sabia que existiam bandas cristãs). Eu não sabia que satanistas eram uma coisa da vida real, achava que eram só uma invenção que adultos usavam para assustar crianças. Diante da primeira satanista da minha vida, fiz o que sempre faço: perguntas (inconvenientes).

— Você louva Satã? Como funciona? Vocês sacrificam animais? As músicas da banda são sobre O MAL?

Ela me explicou, com muita calma, enquanto aplicava seu delineador com perfeição (coisa que eu jamais conseguiria), que satanistas não louvavam ninguém; que a ideia era justamente de que que você é livre, sem um mestre. E me disse que não fazia nenhum sacrifício, claro, e que sua crença não estava associada ao mal. Ela até riu: decerto escutara perguntas assim muitas vezes.

— É sobre ser você mesmo. E ser livre.

— Caramba — eu repeti.

— Caramba — repetiu minha amiga.

A satanista logo terminou de se arrumar. Era jovem, adolescente, não muitos anos mais velha do que nós éramos. Se despediu com um sorriso, dizendo que tinha sido um prazer nos conhecer. A impressão mais marcante que me ficou daquele dia, e que permanece comigo até hoje, é que a satanista loira, cujo nome nunca saberei, era mais simpática do que muitos cristãos que eu conhecia e que conheci depois.

Clara Madrigano

Written by

Escritora. Uma das donas da editora Dame Blanche.

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