Mulheres da família
“We Can Do It!” Em 1943, foi uma frase de uma propaganda de guerra usada para motivar trabalhadoras nos Estados Unidos. Já na década de 80, o cartaz com a expressão foi absorvido pelo movimento feminista. O famoso “Nós podemos fazer isso!” caí perfeitamente bem como frase de sentido para Jeane Sthel, 46 anos. Filha de uma empregada doméstica que teve seis filhos e criou todos eles na raça. Jeane já morou nos fundos de um bar com a família, casou cedo, teve dois filhos, não deu certo. Separou. Engordou, teve depressão, recuperou-se da depressão, e traçou metas: uma delas era passar para a melhor faculdade de direito do Rio de Janeiro. Alguém dúvida que ela não tenha conseguido?
Mãe, universitária e estudante de Direito. A vocação para os estudos vem desde pequena. Em colégios públicos, Jeane sempre se destacava, sem precisar de muito esforço. Até porque esforço é uma palavra muito visível dentro da sua família. Sua mãe já lavou e passou muita roupa para poder criar os seis filhos com dignidade. Dona Teresinha sofreu com a perda de dois filhos um por acidente e outro por doença. Apesar de Jeane valorizar os inúmeros esforços que sua mãe fez para criar sua família sozinha, ela teve que buscar outra referência para si mesma. Não queria o mesmo o destino. Dentro de uma família humilde, conseguir concluir o ensino médio já é um mérito. “Para minha família eu já tinha ido muito longe.” Com 22 anos, foi morar com o namorado, teve sua primeira filha no ano seguinte. Enquanto ficava em casa, cuidando das crianças, continuou estudando para concursos públicos. Com 28 anos, já grávida do seu segundo filho, soube que tinha passado em um concurso de nível fundamental para auxiliar de universitário na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Nessa época ela se encontrava em depressão, havia engordado.
“Ter passado em um concurso público foi um divisor de águas, a partir dali, eu tive estrutura para sonhar novamente”
Trabalhando na Universidade, Jeane viu a possibilidade de crescer. Agarrou todas as oportunidades e cursos que a instituição oferecia para seus funcionários. Até que soube de um pré-vestibular comunitário dentro da universidade, entrou e tentou vestibular para Contabilidade. Não passou. Fez um curso técnico na área. Até na entrevista uma característica predominante na Jeane é a sua insistência com a vida. Ela não desistiu com um não do mundo. Em 2005 resolveu que a sua próxima meta seria passar em Direito. Que é o curso mais famoso e elitizado da UERJ. Em 2007 voltou ao pré-vestibular. Nessa época já tinha sido implantado o sistema de cotas para estudantes oriundos de escolas públicas. Em 2008, ela passou por cota para direito.
“Sonhos não têm tempo para realizar, podemos realizar sonhos durante toda a nossa vida, mesmo que você não consiga atingir a sua meta, o crescimento que você tem no processo já é maravilhoso”
Mais uma meta concluída. Atualmente a rotina de Jeane se divide em, cuidar dos dois filhos adolescentes, com quem tem uma relação muito boa; trabalho e faculdade e caminhadas no entorno do Engenhão, estádio que fica ao lado de sua casa. Além disso, Jeane ganhou três medalhas para universidade, participou dos jogos jurídicos ficando em 2° lugar em 800 metros rasos no atletismo. “Essas medalhas são muito importantes para mim, quando eu ia imaginar que seria uma atleta da faculdade? Que eu traria medalhas para faculdade?”. A próxima etapa é se formar e depois ingressar na EMERJ (Escola de magistratura do Estado do Rio de Janeiro) que é uma instituição que tem como intuito preparar bacharéis em direito para ingresso na carreira de magistrado. E como ela mesma diz: “Acho que vai demorar um pouco, mas eu não desisto, acho que nos realizamos no processo. “Sonhos não têm tempo para realizar, podemos realizar sonhos durante toda a nossa vida, mesmo que você não consiga atingir a sua meta, o crescimento que você tem no processo já é maravilhoso”. Jeane não é uma estudante de direito convencional, o seu diferencial não é uma inteligência arrebatadora, mas sim sua perseverança nos seus sonhos cotidianos.
