Por que você não publica seu livro, Clara?

Taí uma pergunta que eu escuto bastante.

Para quem não sabe, eu sou autora também. Tenho alguns livros publicados na Amazon, todos de forma independente, e nunca fez parte dos meus planos contratar uma editora paga ou fazer uma tiragem em alguma gráfica, que são as opções mais, digamos, simples.

Ainda assim, mesmo sempre falando isso (não, não teremos Lena físico, gente, talvez nunca), continuam me perguntando quando meus livros ganharão sua versão impressa.

Disponível aqui, ó: Amazon

Por mais fofo que eu possa achar ouvir esses comentários (afinal, ninguém fala isso para judiar da gente, mas sim porque gostaram dos nossos livros, né?), de vez em quando, ouvir isso dói um cadinho. A gente adoraria dar uma resposta exata para isso, mas nem sempre dá. E dói mais ainda quando nos deparamos com os leitores chantagistas (“odeio e-book, só vou ler quando tiver físico”).

Como eu acredito que tudo deva ser colocado em pratos limpos, eu vou explicar os meus motivos para não fazer livros físicos de nenhum dos meus livros. Vamos lá:

1: Encontrar uma editora é muito difícil.

Não existe essa história de “ah, mas se o livro é bom, a editora vai te encontrar em algum momento”. Não, não, não. Isso é lenda doce, tipo sonho de padaria.

Há editoras que nem recebem manuscritos, há editoras que só faltam pedir exame de sangue neles (sério, já vi uma que pediu duas cópias impressas do livro e rubricadas em cada página. Lena 1 tem 500 páginas, Lena 2 tem 600. Acabaram as folhas de rascunho aí, gente?), e por aí vai. E mesmo quando você encontra uma que aceite seu manuscrito sem pedir o exame de fertilidade de seus bisavós, ainda assim, é muito, muito difícil ser aceito. Sério, gente, sempre foi, de que fábula editorial vocês tiraram que é fácil?

As editoras que não recebem manuscrito trabalham, normalmente, com agentes literários. E isso custa, adivinhem? Dinheiro! Há agências que cobram de duzentos a mil reais para análise do manuscrito. Vamos ser sinceros: essa soma hoje não é o mesmo que era em 2005, mas ainda são três zeros. É uma grana, gente, nem todo mundo pode investir em uma avaliação.

2: Editoras pagas são pagas e complicadas.

“Ah, mas há editoras que cobram para publicar, então ao menos o retorno é garantido, certo? Afinal, você pagando, ao menos…”

Não, pode parar, já tá errado.

Já vi editoras cobrando valores abusivos (20 mil reais por uma tiragem pequena? Miga, sua louca!), já vi editoras cobrando valores ok, mas não cumprindo o prometido (como por exemplo, vender os livros na Saraiva), já vi editoras supostamente não cobrando nada, mas retendo os direitos autorais do autor, catando o dinheiro de todos os leitores que compraram na pré-venda e demorando mais de seis meses para enviar o livro (sendo que a pré-venda era de, sei lá, duas semanas), pois meio que tinha uma “meta” a ser batida. Dane-se o leitor, né?

Já vi e ouvi muita coisa sobre editoras tipo gráficas, e por mais que eu saiba que ainda há algumas poucas boas, prefiro não arriscar. Para quê? Dor de cabeça para mim, para tu, para tua vaca (adoro Mulan, me perdoem)…

3: Fazer em gráficas é caro.

“Poxa, mas ainda há outras opções, certo? Você pode fazer uma pequena tiragem em gráfica! Sai muito mais barato e…”

Sai mais barato? Vamos lá: o valor mais baixo que eu já vi de capa de livro físico foi R$ 200. O de diagramação foi uns R$ 300. Mais os custos de registro na Biblioteca Nacional e o ISBN, coloca aí que a conta tá chegando a quase mil. Mais o valor em si da gráfica (algo que pode começar em uns R$ 5.000 e ir ao infinito e além, mas vamos colocar os preços baixos para essa simulação?).

Ah, sim, mais a revisão também! Ok, no meu caso, eu não pagaria isso, já que sou revisora e tenho um sócio que poderia fazer isso por mim (no caso, meu marido). Tudo bem, então vamos riscar aí essa média de R$ 500.

Quanto deu até agora? Duzentos, mais trezentos, mais isso, isso, aquilo… Ah, já passou de R$ 6.000? Nada mais a declarar, meritíssimo.

4: O valor de envio pelos Correios aumentou MUITO de uns dias para cá.

“Ah, mas e se você arrumar um patrocinador?”

Ok, vamos entrar nessa terra mágica dos sonhos, onde conseguir alguém que tire quase 10 mil reais do bolso para que eu possa imprimir 1000 livros exista. Supondo que essa pessoa faça isso. Primeiro: em qual lugar eu vou estocar 1000 livros? Sério, nem todo mundo mora em casas gigantes de 500 metros quadrados.

Segundo: quanto você acha que vai custar o envio desses livros?

“Ai, Clara, mas você é muito pessimista, é só enviar por impresso módico e…”

PÉÉÉÉ! Não mais! Acabei de chegar dos correios e paguei quase R$ 40,00 para enviar 3 quilos de livros (uns 7 livros). Antes, eu pagaria, no máximo, R$ 20,00 (sei disso, sempre enviei). Tudo mudou no envio de livros agora, gente. Só pode enviar até 2 quilos, você não paga pelo peso exato, mas sim pela fração de quilo (se o seu embrulho tiver 1 quilo e duas gramas, você paga R$ 18,00. Sério. Eu tenho a nota aqui.), o valor tá bem alto, bem abusivo, bem indo contra a Política Nacional do Livro, tá tudo bem ridículo (se quiser ler sobre isso em outro lugar, eu deixo aqui, ó: PublishNews).

OU SEJA: não só teve o custo bizarro de impressão, como eu vou ter que cobrar caro dos leitores para justificar o frete ridículo (sim, porque, convenhamos, não teremos patrocínio, isso não é filme da Disney).

Capa do livro 2 da “duologia Wings”, só para deixar essa arte maravilhosa que N.S. Fernandes fez (e para fazer um jabá dos meus livros, por motivos de: sim).

Entendem agora o porquê de eu não publicar meus livros? Vai além de “preguiça de mandar manuscrito para editora”. É ÓBVIO QUE SE EU CONSEGUISSE UMA EDITORA LEGAL, EU PUBLICARIA MEUS LIVROS. Só que é difícil, muito difícil. É tipo ser famoso com música: duas pessoas em mil conseguem.

Aliás, gente, sempre foi difícil. Sério, de onde vocês tiraram que publicar livros é tão fácil assim?

Peguem leve com os autores independentes, gente. Juro que 90% dos autores indies ADORARIAM responder ao questionamento do título com um “ah, daqui a dois meses”! Todo mundo rala bastante para conseguir fazer tudo de melhor, mas há coisas que realmente não são possíveis. Não de imediato, não no tempo que nós gostaríamos.

Infelizmente.

(Opa, momento jabá de novo: MEUS LIVROS NA AMAZON! É só clicar nessa frase em caixa alta. E negrito. E itálico.)