Sobre pensar (em você)

Hoje eu amanheci e pensei em você. Ainda agora (são 1 e 48 da madrugada), escrevendo essa merda de texto, penso em você. Eu tinha tentado descansar a cabeça no travesseiro, tomado o remédio da noite, mas ainda assim estou pensando em você. Bocejo na frente do computador, mas prefiro não deitar e não pensar em você. Prefiro esse gosto amargo de ressaca de vinho barato na boca. Fumar uma carteira de cigarros, sentir o estômago revirando a contra gosto, a pensar em você. O ruim é quando os cigarros acabarem; aí terei de sair de madrugada, com essa chuva clichê da porra, procurando não pensar em você. Chuva, em Salvador. Pense. É triste pra caralho. Eu estou escrevendo para não escrever qualquer coisa endereçada a você. Nem um cumprimento. Eu preciso não pensar em você. É custoso. Desprendo muito energia não pensando em você. Eu queria te contar que eu acordei, tomei banho, cozinhei aipim, preparei o bordado (que só comecei a noite), saí para jantar, assei um resto de pão de queijo (o queijo já está quase no fim), fiz café, assisti a um ou dois documentários e ainda alguns episódios de um programa antigo que eu assistia na TV. Tudo, absolutamente tudo, eu fiz tentando não pensar em você. Algumas vezes fui bem sucedida, mas veja só, ainda estou aqui sentada, escrevendo essa merda de texto, e pensando em você. Talvez eu devesse desistir de não pensar em você e simplesmente dizer qualquer coisa genérica, alguma coisa como “olá, eu estou com saudades” e você diria que também sente. Mas eu prefiro que você não saiba que eu penso em você, que eu sinto saudades, que eu queria mesmo era que você soubesse que eu estou para chegar e queria te ver e te abraçar e te dizer que te amo e todas essas coisas ridículas que as pessoas dizem quando gostam de alguém. Tragicamente, este é meu último cigarro e a chuva voltou a cair. Você pode pensar que estou sendo dramática (bem, quem liga, mas digo a verdade) e que há ainda uma carteira inteira e que não chove porra nenhuma em Salvador. Talvez, inclusive, tenha feito sol. Um dia claro (e a claridade na Bahia é uma coisa diferente de qualquer coisa que eu já tenha visto) e bonito e fui eu quem perdi a praia pensando em você. Deitada no quarto olhando pro teto, checando o celular obsessivamente. Bem, não me importa se você não acredita que chove em Salvador e que mesmo assim eu tive um dia agitado tentando não pensar em você. Eu consegui por alguns momentos. É importante que eu repita isso e deixe claro que o celular quase ficou sem bateria porque eu não estava pensando em você. Mas, sabe, é madrugada e é inevitável não pensar em você. Eu talvez tome outro remédio agora que meus cigarros acabaram (eu não quero sair de madrugada, pensando em você, para comprar uma carteira nova), para não pensar em você. E aí eu dormirei. Sinto até que estou com sono, a cachorra entrou no quarto fugindo da chuva, e talvez agora eu possa descansar. Amanhã, quando eu amanhecer, já não estarei pensando em você. Talvez eu acorde e lá estará uma mensagem sua, e eu vou querer responder “seu bosta” e nunca mais dizer palavra, mas eu sei que docemente responderei como se hoje não tivesse existido e eu não tivesse passado o dia tentando não pensar em você.

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