Eu queria Engenharia, mas ela não me quis

Sobre profissão, identidade e desilusão amorosa

Todo mundo pelo menos uma vez na vida experimentou essa bela sensação de gostar de alguém e não ser correspondido: foi assim com a Engenharia.

Depois de tantos planos, tantas promessas, tantas juras de amor, ela me largou como se a nossa vida juntas não tivesse significado nada. Ela não olhou para trás!

Eu fui rejeitada pela Engenharia.

As manchetes na primeira década dos anos 2000 anunciavam: “Vão faltar engenheiros no Brasil!” e eu pensava: “Quão sortuda eu sou de escolher a profissão certa na hora certa?”. Nem lembro mais da época onde meu pensamento não era organizado em formato de planilha do Excel.

Seria o casamento perfeito, a junção da fome com a vontade de comer. Eu ia trilhar aquele caminho junto da minha amada e nós seríamos felizes para sempre. Ela me completaria e eu poderia para sempre me apresentar como Clarice, engenheira. Minha identidade seria definida pela numeração do meu CREA e eu não seria mais qualquer uma.

Mas a engenharia é uma amante cruel, te promete mundos e fundos, uma relação estável, ótima remuneração, mas desaparece no primeiro sinal de crise econômica. E foi isso que aconteceu comigo e com tantos outros. Sem mais nem menos ela me deixou.

Eu apaixonada, corri atrás de verdade, não banquei a orgulhosa. Eu queria o amor dela de volta a qualquer custo, fiz serenata no LinkedIn para ela, bombons e flores pelo Vagas.com, mandei currículos perfumados e cheios de boas intenções para todos os contatos e e-mails. E nada!

E eu fiquei na sarjeta! Depois de um prêmio de consolação de 5 meses de seguro desemprego me vi ali jogada às traças, esquecida pela minha amada.

Eu não me dei por vencida, tentei começar de levinho, voltar aos primeiros encontros onde nos apaixonamos nas carteiras universitárias. Então dei início a um mestrado, na esperança de que ela lembrasse dos nossos bons tempos.

Ela gerando uma faísca de esperança até me concedeu uma bolsa de estudos. Mas tudo não passava de fachada! A safada já tinha me superado e eu ali caidinha ainda.

Juntei o pingo de amor próprio que ainda me restava e fui vivendo. Mas como amor próprio (ainda) não paga contas, eu tive que permanecer insistindo no relacionamento platônico com ela. Depois de muito insistir eu finalmente achei um cubículo para chamar de meu! Nada comparado aos áureos tempos, mas um alento para um coração apaixonado (e para os boletos atrasados).

Hoje em dia, meu coração já não bate tanto assim por ela, apesar de ainda ter minhas recaídas como todo bom amor bandido. A Engenharia, no fim das contas, nunca poderia ser o que eu projetava nela, e quem estava cega pela paixão era eu.

Como em todo relacionamento disfuncional, eu queria encontrar nela o propósito que faltava em mim, a prova final de que eu tinha algum valor, algum mérito. Ela me daria segurança financeira, um cargo de respeito, um status social, um sobrenome. Seria a fonte da minha alegria e do meu senso de valor. E quando ela me traiu e falhou em tudo, eu me vi sem chão. Porque se a Engenharia é o centro da minha identidade e eu não consigo exercê-la, então quem eu sou?

E nessa hora eu vi. A Engenharia sempre falharia em me dar o sentido que eu sempre busquei porque o meu diploma não define e nunca vai definir quem eu sou. Daqui a 70 anos muito pouca diferença fará se eu era engenheira, advogada ou telefonista. Dificilmente meus netos irão se importar se eu era gerente ou até se lembrar da minha formação, porque a Engenharia é só um meio, e os meios nunca podem se tornar um fim em si mesmos.

Então eu entendi:

O que vai contar de verdade nessa vida não são as minhas escolhas profissionais, mas se eu vivi plenamente o tempo que eu tive aqui e se eu amei intensamente aqueles que caminharam junto comigo.

E, agora, depois de todas essas idas e vindas dessa história de amor e traição, melhor do que muita novela das 8, você pode me encontrar pelas ruas de Niterói, pelo prédio da Petrobras ou em minhas visitas à longínqua e bucólica ilha do Fundão (UFRJ). Dizem por aí que eu estou tentando uma carreira de escritora, mas quem sabe do futuro? O que eu sei é que agora eu vejo a Engenharia pelo que ela é, e com um sorriso irônico no rosto vou caminhando e cantarolando….

“Você não vale nada, mas eu gosto de você.
Você não vale nada, mas eu gosto de você.
Tudo que eu queria era saber porquê
Tudo que eu queria era saber porquê”