O cocô da Olívia. Esse foi o assunto de dois almoços de família e um grupo de whatsapp. A pequena não podia nem falar para se defender. Meu irmão falava e mostrava (sim, havia fotos), orgulhoso, o cocozão que sua filha havia feito.

Piriri, passar um fax, número 2, “vou tomar banho”, finjo que fui resolver algo. Não importa o nome que você dê, para suavizá-lo ou fingir que ele não existe, quer você queira ou não, ele vem.

Na escola, quando passamos a ter horário integral, foi mais difícil evitar o cocô. Eu morava perto e ia pra casa na hora do almoço, mas a maioria passava o dia lá e, consequentemente, fazia cocô lá. Todo mundo fazia, mas foi só uma menina sair do banheiro e deixá-lo bem fedido para ganhar o carinhoso apelido de Maria Cagona.

Uma amiga, uma vez, ficou horas com o corpo enterrado na areia da praia em cima do próprio cocô. Ela foi soltar um inocente pum e, no lugar, veio um cagalhão. Para não pagar o maior mico da sua vida, preferiu pagar de doidona e se enterrou na areia, até que todos os seus amigos fossem embora e ela pudesse entrar no mar.

Quando eu tinha uns 9 anos, estava com a minha família em Natal, numa praia sem nenhuma estrutura. O desespero bateu e eu nadei para o fundo do mar pra comprovar que sim, merda boia. Passei o resto da viagem sendo chamada de Mr.Hankey (personagem do South Park) pelo meu irmão.

Uma dessas lendas urbanas, que a gente não sabe se é verdade ou mentira, é de que um menino foi conhecer os pais da namorada e ficou com uma vontade enorme de cagar. Ele correu para o lavabo sem ver se tinha papel. Fez o que tinha que fazer e, na hora de se limpar, teve a brilhante ideia de usar a pia. Ao apoiar o corpo na pia, a louça quebrou e ele caiu e ficou desacordado. A família da namorada, assustada, arrombou a porta e o encontrou lá pelado e cagado.

Tenho um monte de amigas que, fora de casa, não conseguem fazer cocô. Mesmo se o banheiro for limpinho, cheirosinho, não rola. Uma delas já ficou 15 dias sem cagar! Dizem que prisão de ventre é coisa de mulher. Será? Talvez sim, mas que tem muita carga cultural tem. Só de falar “cagar” já me olham de cara feia. Fazer cocô. Que isso! Número 2, ou melhor, não fala nada e finge que não faz. Ah, e toma banho pra disfarçar, tá?

De fato, cocô não é algo lindo para ser mostrado, nem cheirado. É preciso ser um pai de primeira viagem, apaixonado por sua filha, para ficar exibindo seu cocô por ai. Mas também não sei porque ainda é esse tabu todo.

A Olívia, se puxar o gene de parte da família, vai ser cagona a vida toda (a famosa síndrome do cólon irritável). Eu e minhas amigas já nos formamos há mais de 10 anos, mas a Maria Cagona, coitada, continua sendo chamada assim (sem saber). A minha amiga, graças a deus, superou o trauma de ficar enterrada e compartilhou com a gente essa história maravilhosa. Passado o bullying do meu irmão, ganhei uma lembrança engraçada. O menino da lenda deve ter aprendido a pedir papel, ou a usar as meias pelo menos. Pois bem, amigas e amigos que não conseguem fazer cocô fora de casa e nem falar dele naturalmente, se soltem e sejam felizes!

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