
Joana percebeu que estava apaixonada por se sentir bem só de sentir o cheiro dele. Ele ia embora de manhã cedinho e ela enfiava a cara no travesseiro para ter mais um pouco dele. Ele ia viajar e ela tentava guardar seu cheiro em um potinho. Aquele cheiro no cangote. O cheiro só dele, capaz de arrepiar, trazer amor e paz, tudo numa só fungada. Mas toda aquela paz foi diminuindo. Brigas e desentendimentos o deixaram mais distante e mais ausente. Ela sentia falta dele. Sentia falta do seu cheiro. Cheirou o travesseiro e nada. Abriu o potinho e nada. Finalmente o encontrou. Ela o deu um abraço bem apertado, posicionando seu nariz no cangote dele. Inspirou e nada. Fungou e nada. Farejou e nada. O cheiro não tava mais lá. Tinha sumido. Joana percebeu que tudo tinha acabado quando parou de sentir o cheiro dele.
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“Eu gosto muito de você, mas não quero me envolver”. Opa. Seria possível começar uma relação sem envolvimento? Rita se fazia essa pergunta. Seria ela romântica demais? Tradicional demais? Careta demais em tempos de amor livre? Rita resolveu que ia tentar. Se as pessoas conseguiam, ela tinha que conseguir. Reduziu a intensidade e puxou o freio de mão da relação. Passou a controlar o que dizia, a pensar antes de mandar uma simples mensagem, e só o procurar se ele a procurasse antes. No começo parecia funcionar. Curtiam juntos e depois um para cada lado, “sem compromisso”. Mas depois as coisas começaram a emperrar. Também, quem consegue ir pra frente com o freio de mão puxado? A falta de intensidade tirou sua espontaneidade. Rita não se reconhecia mais. E não é que ela quisesse casar e ter filhos com ele, mas queria se sentir desejada, escolhida, priorizada. Sem que fosse necessário garantias, pois podia ser que tudo acabasse no dia seguinte. Mas enquanto estivessem juntos, queria que fosse de verdade. Ela gostava muito dele. Mas, por sorte, gostava mais dela mesma. E sabia que não merecia nada menos que alguém que se entregasse por inteiro. Mesmo que fosse só por uma noite.
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Esses dias, Laura me disse que não conseguia mais ir a Paquetá. Porque Paquetá a lembrava de seu grande amor. Por acaso, me lembrei que Paquetá também me lembrava de um grande amor. Mas me lembrava também do carnaval, da festa junina e das infinitas possibilidades de novos amores. Talvez não tão grandes, mas, provavelmente, mais leves. Viver um grande amor é maravilhoso. Mas só quem viveu sabe como pode ser difícil. Maravilhosamente difícil. Ainda mais quando ele acaba. Fica aquela sensação de que nada, nenhum lugar vai ser mais o mesmo sem aquela pessoa. Imagine não poder mais ir a Paquetá? Não poder andar por Copacabana? Não ir mais ao Circo voador, não ver a sua série favorita, não poder mais comer a coxinha do fornalha, ou a pipoca gigante do cinema? A lembrança daquele amor ainda pode existir. Mas nada pode te roubar a possibilidade de viver um novo grande amor. Bem, e se querem saber, Laura foi a Paquetá. Foi e lembrou que não há nada melhor do que uma paquera em Paquetá, ou em qualquer outro lugar.