Ser adulta é uma merda

clarice rios corrêa
Nov 7 · 2 min read

Há uns 7 anos, quando tinha meus vinte e poucos, estava na terapia e comecei a seguinte frase “Quando eu for adulta…” e minha terapeuta não me deixou nem completar e mandou um “E você é o quê?”, seguida de uma gargalhada (e de uma suspensão da “alta”). Ela me perguntou “o que era ser adulta” e eu só falei coisa ruim como pagar boleto… E ela disse “ser adulto é uma merda então”.

Uns anos depois, sai da casa da minha mãe, e, após 6 meses na nova empreitada, tive que demitir a diarista. Me senti muito adulta. E bem, achei uma merda.

De lá pra cá, a vida adulta foi dando uns sacodes… uns piores do que os outros, mas fui tentando levar com a leveza da Xóvem que tá aqui dentro.

Só que ontem, descobri que a merda de se sentir adulta podia ser bem pior.

Pra quem não sabe, nessa minha jornada de ser adulta, virei síndica do meu prédio (por que você fez isso?). Fiz obra no telhado, com direito a levantar a telha que voou no meio de uma chuva e faltando 10 minutos pra começar Game of Thrones, socorri pedreiro que tomou choque, fiquei no meio de briga dos condôminos, aturei reuniões de condomínio, idas a imobiliária, grupos de whatsapp, tive que me fingir de morta quando tocava o interfone no meio do dia… Uma maravilha, como vocês podem imaginar.

Mas o que eu não podia imaginar é que ainda podia piorar.

- Dessa parte pra baixo essa dramédia da vida vira só drama mesmo. Ainda não deu pra achar graça e encontrar leveza. -

Imaginem a cena: Um pai, uma mãe e seu filhinho de 2 anos brincando na sala de seu apartamento. A síndica e o subsíndico tocam a campainha, entram e se sentam no sofá. Sem saber como dizer, eles anunciam que fizeram tudo o que podiam, mas que, em 48 horas, os dois terão que tentar um acordo pra negociar o pagamento do condomínio atrasado, ou o caso irá pra justiça e o apartamento poderá ir a leilão. O pai se abre, nos conta sobre sua frustração, o desemprego, sua incapacidade de encontrar uma solução, seu medo de perder a sanidade. A mãe segura as lágrimas, enquanto o pequeno pede peito, ri, brinca e corre, sem ter ideia do que aqueles adultos conversam.

Depois dessa, ainda querem me convencer que ser adulto não é uma merda?

Ok, se tem algo bom de ser adulto nisso foi poder ter a maturidade de saber que essa notícia, por mais dolorida que fosse, deveria ser dada pessoalmente, com empatia e escuta. Por isso, agradeço ao subsíndico (que está virando síndico) parceiro que me acompanhou nessa, e aos adultos, com espírito jovem, que me criaram.

clarice rios corrêa

roteirista explorando novos formatos

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