T.D.P: Trabalhadora doméstica procrastinadora

“Nossa, você trabalha de casa? Que sonho!” — corta para — Quatro da tarde, de pijama, na frente do computador. Não almoçou, não viu a luz do dia, não trocou nenhuma palavrinha com ninguém. Meu Deus! Esqueci como é minha voz. Um grito. Ufa. Liga o spotify pra dar uma preenchida no vazio. Começa a cantar. Eita, desconcentrei. Cadê as ideias? Onde foi parar a inspiração? Hum… vou lavar a louça.

Procrastinação: uma especialidade do trabalhador doméstico. Time of writing x time of thinking. Sim, uma pessoa maldita criou um software de roteiro que controla a sua produtividade. Quer dizer, sua falta de produtividade. “Time of thinking” um jeito fofo de dizer o tempo que você ficou procrastinando. (Fiquei deprimida e baixei outro software) Como bem definiu Antônio Prata, procrastinar é diferente de vagabundear. Procrastinar é fazer aquilo que provavelmente não te dá prazer e não é urgente, mas te ajuda a adiar o que você realmente precisa fazer. “Troca-se de aborrecimento, mais do que dele se desvia”. Lavar a louça que sua roommate sujou, colocar a roupa na máquina, desentupir o ralo, pagar a conta que só vence no fim do mês, entrar no ego, rolar pelo feed do Facebook pela décima vez… (o que essa gente tá falando? Fascistas! Own, que fofíneos. Coxinhas! Ai, que meme maravilhoso. Petralhas! Por que eu to lendo esse textão? Bolsomito, socorro! Odeio o Facebook. Amo o Facebook.)

Facebook: o mal de quem não tem um chefe pra passar pelo seu computador e te ajudar a não entrar nele toda hora.

Estratégia 1: sentar com o computador com a tela virada para a janela. Afinal, o que os vizinhos vão pensar de você se estiver o dia inteiro no Facebook? Sim, eu finjo que os possíveis vizinhos, que irão aparecer na janela, são como um chefe.

Estratégia 2: deixar o celular longe e colocar despertadores de tempos em tempos. É tipo uma recompensa pelo seu trabalho. Um pequeno momento de recreação pra responder aos trilhões de grupos do Whatsapp (você quer mesmo fazer isso?), dar aquela conferida no feed do face e do insta e ver se a tão esperada mensagem do crush chegou. Nada. Nenhum contato ao vivo, nem online. Socorro. Preciso conversar com alguém.

Hora do almoço: vou ver um episódio enquanto almoço. Maldito autoplay do Netflix. Ok, compenso à noite. 9 da manhã. Ainda não dormi. To terminando o freela com entrega às 11h. E ainda tenho que fazer o outro freela depois. Caraca, vou dar conta de tudo? Trabalho de casa! Trabalho fim de semana, de madrugada… Que beleza, to cheia de trabalho!

Opa, cadê os freelas? #mandajobs. Tempo sobrando. Vou pra praia! Impossível. Se alguém me vir na praia, o que vão pensar? Relaxa, Clarice. Aproveita. Daqui a pouco pinta um trabalho de novo. Contas a pagar. Avisa isso para o banco. Vou focar nos meus projetos. Volto a escrever meu longa. Todos os freelas aparecem de novo! Justo agora que ia ter tempo de fazer minhas coisas? Bullshit. Quanto menos tempo você tem, mais coisa você faz. Quanto mais tempo você tem, mais louça você lava, mais Facebook você usa, mais time of thinking você acumula. Reclama quando não tem trabalho. Reclama quando tem muito trabalho. Para de reclamar. Não fale em crise, trabalhe. Já dizia o poeta. Poeta, aham. Foco, Clarice.

É, com muito ou pouco trabalho… trabalhar de casa é a melhor coisa que tem. Trabalhar de casa é a pior coisa que tem. Decide, geminiana. Tá. Trabalhar de casa é a melhor pior coisa que tem. Ou seria a pior melhor coisa que tem?

Esse texto foi publicado originalmente em http://noo.com.br/t-d-p-trabalhadora-domestica-procrastinadora/

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