Costumes

Há quem não consiga deixar o chinelo virado, há quem não consiga dormir com um espelho em sua direção ou com o pé virado pra porta. A maioria dos nossos costumes são costumes porque quisemos trabalhar neles, alimentamos manias por um tempo até que isso se torne natural pra gente, mas em algum momento nos fomos “desacostumados”, em algum momento, comer sem ouvir o som da TV não nos incomodava, e, em outro momento, nós quisemos passar a ouvir a TV enquanto comíamos, até que não agir dessa forma nos incomodasse.

Minha mãe, enquanto eu estava em sua barriga, esperava que eu fosse uma menina cis, uma menina com vagina, e por muito tempo meu nome “foi” Camila, me tratar dessa forma se tornou um costume dela; ela pensava em quais roupas compraria pra Camila, os “programas de meninas” que faria com a camila e etc, mas eu nasci com um pênis, e quando ela descobriu que eu “teria que ser” um menino ela começou a enterrar a Camila, e talvez tenha sido difícil já que ela era acostumada com a Camila, mas ela conseguiu porque continuar com aqueles hábitos não seriam convenientes à ela.

Por 18 anos as pessoas se acostumaram a me chamar de Jhonantan/Jhon/Jhoy, e agora elas simplesmente não conseguem me chamar de Clarice, e isso acontece porque a forma como eu quero ser tratada não muda muita coisa na vida delas, elas não “exercitam” esse novo costume porque continuar com os hábitos antigos é mais comodo e agir de forma diferente não é uma necessidade, não para elas. Por 18 anos eu não precisei tomar anticoncepcionais diariamente, mas hoje eu tomo, e foi fácil pra eu me acostumar com isso porque continuar com meus antigos costumes não me levaria aonde eu quero chegar, me convém agir diferente de como eu agi por 18 anos.

Se está sendo difícil pra vocês se acostumarem com um novo nome e/ou pronome, imaginem pra mim que venho tentado me acostumar com uma nova vida.

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