A inércia e a figueira

Hoje eu acordei e não fiz nada. Não é que eu não tenha coisas para fazer. Não é que eu não queira fazer nada. Não é que nada não tenha sentido. Não é que eu esteja esperando alguma coisa acontecer. Não é depressão. Não é preguiça (Embora eu use muito essa palavra ultimamente).

Eu queria ter longas conversas sobre o espaço e sobre como somos pequenos.

Eu penso em onde eu estava nessa época ano passado. Eu me lembro de ter feito planos. Aquela foi uma das melhores semanas da minha vida. Mas não sem dor. Eu estava no festival de Tiradentes na primeira exibição do meu longa-metragem. Eu não conhecia muito bem ninguém. Eu estava muito nervosa. Eu as vezes tremia. Eu estalava a mandíbula com muita frequência. Eu não conseguia dormir sem 3 saquinhos de chá de tilo. Eu tive que lidar com muita ansiedade. Saí de lá com a sensação de que aquela foi a melhor semana da minha vida, apesar de tudo.

Aqui estou, 1 anos depois. Em casa de pijama. Eu disse ao longo de 2015 que eu iria ter um curta pronto para colocar em Tiradentes e mesmo que eu não tivesse eu iria só para estar lá e tentar reviver um pouco daquela alegria. Eu não tive nenhuma razão muito boa para não ir. Eu não tenho um tostão. Era aniversário de uma das minhas melhoras amigas no final de semana. Eu tenho que fazer alguma coisa com a minha vida. Nesse segundo e no próximo. Mas eles passam e eu não fiz nada. Amanhã, eu acordo. Eu tenho que fazer algo com a minha vida hoje. Amanhã, eu acordo. São 16 horas da tarde, eu não fiz nada.

Eu penso na figueira da Sylvia Plath. Estou deitada na minha cama olhando para uma figueira invisível o tempo todo. Os frutos estão lá me dizendo o que minha vida poderia ser. Eu não consigo escolher. Eu não consigo querer nada de verdade. Nada parece fazer alguma diferença. E consequentemente minha vida é só um barco no mar, boiando sem saber pra onde ir. Esperando o dia de afundar. Os frutos apodrecem, começam a cheirar, o cheiro é o cheiro de um quarto fechado com muitos livros, lençol, um travesseiro velho de ervas, poeira e o cabelo que eu não lavei para não deixar a tinta desbotar (ou pelo menos essa é a desculpa que uso).

Eu olho para a parede amarelo desbotada que na verdade é um branco ou um bege que eu pintei por cima de um vazamento falso, cenográfico. Meus dias de inércia me consomem. Eu penso em tudo que eu deveria ter conquistado.

Eu queria ter longas conversas sobre o espaço e lembrar de como sou pequena. Eu queria que alguma coisa me fizesse ver que isso importa.

Eu queria que alguma coisa importasse.

Eu queria estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Eu queria querer.

Mas estou aqui nesse pequeno grande vacuo no espaço-tempo.

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