Paixão (não) é doença

Quando paro para pensar acho que só me apaixonei de verdade (definição de paixão que conhecemos dos filmes, músicas e livros, frio na barriga, descontrole e emoções a flor da pele) 3 vezes na vida. Na primeira eu tinha 14 anos e era minha primeira crush séria, saí com o menino 3 vezes e não conseguia beijá-lo de tanto nervoso mas voltava para casa e ficava pensando em todos os momentos e palavras que compartilhamos o dia inteiro e achava que ia morrer de amor. As duas outras vezes eu estava namorando e me apaixonei por terceiros. A primeira eu tinha uns 16 anos e na segunda uns 20.

Eu não fiz nada concreto a respeito de nenhuma dessas paixões. Aliás, as duas últimas eu abafei muito seriamente para poder seguir dentro do relacionamento que estava na época. Eu nunca fui de largar tudo e arriscar para ficar com uma pessoa por um sentimento tão “abstrato”. Acho que penso assim porque apesar de ser um sentimento muito bom que nos traz bastante adrenalina na vida acho que sempre associei a paixão a algo infantil e irresponsável.

Houveram outras vezes na vida em que eu já disse que estava apaixonada. Pensando agora eu acho que eu queria estar, mas não conseguia, então tentava criar a ilusão de algum sentimento me motivando a pensar nas pessoas para não me sentir sozinha e anestesiada (sentimento frequente na minha vida). Eu não me afetei de verdade quando a maior parte das minhas “paixões inventadas” acabou e acho que no fundo tinha bastante consciência de que eu me acreditava “apaixonada” por essas pessoas porque não as conhecia de verdade mas sim porque havia as transformado em espelhos empoeirados dentro da minha própria cabeça.

Quando eu digo que fui apaixonada por outras pessoas fora dos meus relacionamentos isso não quer dizer que eu não era feliz e que eu não amava meus namorados. Já amei muito, muito mesmo, até doer. Tive momentos de sublime e chorei de tanta alegria e de amor. Já me perdi dentro de alguém em um sentimento quase religioso deitada no chão ouvindo Death Cab for Cutie. Por que eu não chamo isso de paixão? Porque nesses momentos eu achei que estava realmente me conectando com alguém, conhecendo uma pessoa de verdade e me deixando vulnerável, quando nos casos de “paixão” eu notei que só estava repetindo um discurso interno e praticando bastante narcisismo.

Já deu pra notar que meu conceito de paixão não é muito positivo. Já cheguei ao ponto de dizer para as pessoas que “Paixão é doença”(dava para dar palestra motivacional de respeito próprio com esse “slogan”), e o sentimento que eu acho que faz mais sentido de associar a paixão é o medo. Porque paixão é isso, o medo do desconhecido. Palpitações, descontrole, frio na barriga, desespero, são todas as sensações que você tem em uma situação de medo. Temos a tendência de não entender esse medo e acabamos transformando ele em uma ilusão que nos impede de ver as coisas como elas são de verdade. E ficamos bobos, e burros.

Eu estava admirando as pessoas que se dizem apaixonadas e a ingenuidade e espontaneidade desse sentimento. Esse sentimento louco e incontrolável que pra mim já é quase um mito (tendo em vista que racionalizei completamente o sentimento e hoje não me permito mais senti-lo). Eu queria entender porque alguém escolhe largar algo que já está sendo construído por algo totalmente novo sem nenhuma explicação aparente . Eu queria entender porque as pessoas escolhem não ver todo o tipo de problema que pode seguir uma ação movida por “paixão”.

Tenho pensado muito sobre isso. E cheguei a conclusão de que eu não queria ser assim.

Em 2016 eu quero me apaixonar. Eu quero me jogar no sentimento de desconhecido e desespero e desafiá-lo mesmo que seja como um experimento antropológico.

Acho que em todos esses anos em que estive racionalizando o sentimento “paixão” dentro da minha cabeça me recusei a ver que existe uma forte influência da “intuição” (ou mensagens não decodificadas do nosso subconsciente — um beijo para Jung). Essas paixões não são a toa, não são um feito do destino. Nós nos apaixonamos por certas pessoas por alguma razão.

Acho que nos padrões de nossas paixões talvez possamos encontrar respostas sobre nós mesmos. Talvez as paixões sejam mensagens que nos apontam algo que precisamos descobrir. Quem são as pessoas por quem você se apaixona? Existe algum padrão?

Se você está seguindo o meu raciocínio, por favor…

Pare.

Eu não consigo parar de racionalizar nenhum segundo da minha vida e não quero dar esse conselho para ninguém. Acho que essa também é uma forma de se enganar e ficar dentro da própria cabeça e criar espelhos.

É importante refletir e se analisar mas não deixar de sentir.

Eu quero esquecer quem eu sou. Eu quero ser capaz de agir de forma irracional. Eu quero ser boba e burra e idiota.

Eu quero mesmo é me apaixonar.

Depois eu entendo porquê.