Quando me descobri negra (o livro)

Sou branca. Incontestavelmente branca, irrelevante trazer à baila uma trisavó índia ou prováveis antepassados negros numa árvore genealógica de papel. Porque o que para o táxi sem ressalvas, atrai o vendedor da loja, garante um emprego é o fenótipo — e o meu cabelo, meu olho, minha pele, não negam, mulata: sou branca num estado, num país, num mundo racista. Eu não precisaria pensar sobre isso nem por um minuto se focasse apenas no meu umbigo e nos meus privilégios. Mas penso nisso o tempo todo.

Meu filho é negro numa família completamente branca. Numa escola particular completamente branca. Entre meus amigos de longa data quase todos brancos. É um apartheid involuntário — não tenho como mudar a cor dessas pessoas. Eu amo essas pessoas. E elas são boas pessoas.

Mas tenho medo que meu filho pense que é branco. Tenho medo que ele não se sinta parte de lugar algum. Tenho medo que ele leve um susto ao ser confrontado com a sua negritude. Como aconteceu com o Neymar, com o namorado da Jout Jout, como acontece o tempo todo com negros e negras que se chamam de morenos, que alisam os cabelos, como se para deixar a senzala e entrar na casa grande precisassem embranquecer. E, uma vez lá, até são tolerados, mas a verdade é que um belo dia são lembrados, ou melhor, “acusados” de serem negros — e se espantam: mas como? Eu pensei que era um de vocês!

Não gostaria que meu filho fosse acusado de ser negro. Quero que ele se identifique, se integre. E, principalmente, se orgulhe de ser negro.

É claro que essa construção de identidade parece a face mais branda de um racismo que mata gente todos os dias — e que importa se meu filhinho privilegiado classe média se acha negro ou não num país onde a polícia escolhe os mais pretos para atirar primeiro? Mas isso é só à primeira vista. Se os negros da casa grande não se reconhecerem como tal, jamais enxergarão os da senzala como iguais — e por consequência, também não vão compreender que a luta deles é a sua luta.

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